Há dois anos, enquanto caminhava despretensiosamente por uma livraria, esbarrei com "On The Road", de Jack Kerouac. Após ler a sinopse fiquei desesperada para ler. Considerado a Bíblia da Geração Beat, "On The Road" é a narrativa alucinante das viagens de Sal Paradise e Dean Moriarty pelos Estados Unidos. O livro está situado em um contexto de pós-Segunda Guerra Mundial, quando os jovens norte-americanos, numa tentativa de compreender o mundo e a vida, rompem com os valores morais de uma sociedade tradicional e conservadora. O espírito de liberdade - intelectual e sexual - e experimentação presente no livro, viria a exercer enorme influência nos movimentos de contracultura dos anos 1960, como o dos hippies.

A narrativa do livro é intensa e, por vezes, frenética. Cheia de movimento, drogas, psicodelia e jazz, chega a ser quase cinematográfica. Por isso, não vou negar que, assim que soube que a obra seria adaptada para as telonas, comecei a contar os dias para a grande estreia. Principalmente porque desta vez, o projeto de fato iria acontecer. Publicado pela primeira vez em 1957, "On The Road" demorou mais de quarenta anos para ser adaptado ao cinema. Desde 1978, quando o diretor americano Francis Ford Coppola ("O Poderoso Chefão") adquiriu os direitos de adaptação do livro, o projeto vinha mudando de mãos até que finalmente encontrou um rumo com o brasileiro Walter Salles ("Diários de Motocicleta"). Em entrevista, o diretor disse que dedicou quase oito anos pesquisando e estudando a obra de Kerouac antes de iniciar as gravações.

Já familiarizado com a linguagem de roadmovie, Walter Salles, de fato, foi a melhor escolha para a versão cinematográfica de "On The Road", aqui chamada de "Na Estrada". Ao começar a assistir ao filme, logo de cara, percebi algumas diferenças e, depois de pesquisar, soube que elas se deviam ao fato de o filme ser adaptado direto do manuscrito original de Jack Kerouac, nunca antes publicado. Em 1951, após realizar um mochilão pelos Estados Unidos, regado à drogas e álcool, Kerouac documentou suas aventuras vividas ao lado de Neal Cassidy, outro escritor norte-americano. Devido aos excessos contidos na narrativa - que contrariavam os valores vigentes na época - "On The Road" só foi publicado em 1957, porém em uma versão censurada, por exigência da editora. Nela, Kerouac se transforma em Sal Paradise, e Cassidy, no lendário Dean Moriarty.

Sal Paradise (Sam Riley) é um escritor à procura de inspiração. Após a morte de seu pai, ele conhece Dean Moriarty (Garrett Hedlund), um ex-presidiário, completamente avesso à valores morais e com uma habilidade quase magnética para atrair mulheres. Sal logo se fascina pela liberdade que Dean exala, enquanto este, se encanta com o talendo de Sal para a escrita. Logo, ambos se tornam amigos e caem na estrada, onde fazem mochilão pelos Estados Unidos. A eles se junta Marylou (Kristen Stewart), a jovem esposa de Dean - ela tem apenas 16 anos. Durante um tempo, eles formam um trio feliz que desbrava os EUA, curtindo a liberdade, bebendo, fumando, usando drogas e escutando jazz.

Com o desenrolar da história, novos personagens são apresentados. Destaques para Camille (Kirsten Dunst) e Old Bull Lee (Viggo Mortensen) e Carlo Marx (Tom Sturridge)  - até Alice Braga fez uma rápida participação como Terry, uma mulher com quem Sal se envolve durante um período.

Em linhas gerais, posso afirmar que Walter Salles acertou na adaptação de "On The Road" e na seleção do elenco talentosíssimo. Sim, até a inexpressiva Kristen "Bella Swan" Stewart se mostra excelente naquele que, provavelmente, será o melhor papel de sua vida. Quanto aos protagonistas, não me lembro de tê-los visto em nenhum outro filme antes de "Na Estrada", o que foi ótimo. Os rapazes, justamente por não serem muito famosos, não geraram muita expectativa, e acabaram por se revelarem dois grandes talentos. Não consigo imaginar um Dean Moriarty melhor que o de Garrett Hedlund. Viggo Mortensen e Amy Adams são um show à parte.

O único ponto que pode ser considerado negativo é o aspecto meio lento da narrativa. "On The Road" é um livro intenso, cheio de movimento e jazz, por isso, era de se imaginar que a adaptação cinematográfica fosse seguir essas caracteríticas à risca, mas não. Porém, mesmo esse ínfimo detalhe não é suficiente para ofuscar a bela poesia visual que é "Na Estrada". Um filme feito por e para loucos, loucos para viver, loucos para falar, que querem tudo ao mesmo tempo, aqueles que nunca bocejam e não falam obviedades, mas queimam, queimam, queimam como fogos de artificio em meio à noite.


Com um certo atraso em aparecer por aqui - devido à complicações do tipo TCC - venho cumprir a minha promessa de escrever um post sobre o filme "Para Roma, Com Amor", de Woody Allen. Como expliquei no post anterior, no último fim de semana, aproveitei o frio que fazia aqui em São Paulo e fui ao cinema, com meu namorado, para assistir ao mais recente filme do diretor americano.

Depois de me emocionar com o belíssimo "Meia-noite em Paris" (2011), fiquei ansiosa pelo próximo filme de Woody, e minha ansiedade aumentou ainda mais quando descobri que o novo trabalho seria filmado em Roma, com as atuações da atriz-mais-linda-do-momento, Penélope Cruz, e o próprio Woody Allen. É possível que toda essa expectativa tenha alterado a minha percepção do filme. Mas também é possível que não. Enfim, sem mais delongas, vamos ao que interessa.

Em "Para Roma, Com Amor", Woody Allen nos apresenta mais uma obra de sua "fase europeia" - quem conhece os trabalhos do diretor, sabe de sua fixação com Nova York e de sua dificuldade em filmar em outras cidade; padrão que foi rompido com "Match Point" (Londres), "Vicky Christina Barcelona" e "Meia-noite em Paris"  - mas o resultado, se parece, em alguns aspectos, com um cartão - postal da cidade (li essa expressão em alguma crítica e achei interessante dividir aqui). Não é que o filme seja terrível, mas não é tão bom como o anterior.

Narrando, de forma paralela, quatro histórias diferentes - que não se relacionam em nenhum momento, o filme tenta fazer uma homenagem à Roma. Porém, o resultado está mais próximo de um emaranhado de histórias e personagens que não cativam totalmente o espectador, tendo Roma apenas como um plano de fundo. Em uma das histórias temos o casal de americanos - vivido por Woody Allen e Judy Davies - que viaja à Roma para conhecer o namorado italiano de sua filha (Alison Pill, que já trabalhou com Allen em "Meia-noite em Paris"). Woody - cômicamente neurótico, como já era de se imaginar -  aparece aqui, como um empresário aposentado do ramo de óperas. Ao descobrir que o pai de seu genro é um tenor nato, ele vai fazer absolutamente TUDO para convencê-lo se apresentar para um grande público.

Outra narrativa é a de um trabalhador comum da classe média italiana interpretado por Roberto Benigni que, de um dia para o outro, se transforma em uma celebridade instantânea, sem nunca ter feito nada para merecer isso. Fica claro para o espectador que o interesse absurdo da mídia em saber o que o homem come no café-da-manhã ou como escolhe as suas cuecas, assim como a constante perseguição pelos paparazzi, não passa de uma forte crítica ao culto às celebridades vivido na sociedade contenporânea. Em alguns momentos, essa parte da narrativa gera momentos engraçados, dignos de comédia. Porém, é meio nonsense.

Depois temos Jesse Einsenberg (o eterno Mark Zuckerberg, de "A Rede Social"), um estudante americano de arquitetura que vive em Roma com a sua namorada. Em uma certa tarde, ele encontra com seu ídolo profissional, vivido por Alec Baldwin, no caminho de volta para casa. Dali para frente, Baldwin se transforma magicamente na consciência de Einsenberg. O jovem é alertado pela namorada que uma amiga - uma atriz americana, que vive tudo intensamente, vivida por Ellen Page (a Juno) - acabou de sair de um relacionamento sério, está arrasada e que, por isso, irá passar alguns dias na casa deles, para espairecer. O problema é que a mocinha tem algum tipo de sex appeal (para mim, completamente inexistente) que atrai o estudante. E aí, já dá para imaginar a situação.

Por fim, temos o casalzinho recém-casado, vindo do interior à procura de melhores oportunidades de emprego na cidade grande. A esposa, cansada da viagem, resolve ir ao salão, se produzir para conhecer os familiares de seu esposo. No meio do caminho, ela se perde e vai parar no meio de uma locação cinematográfica, se envolve com um astro do cinema italiano e vai parar no quarto de hotel em que este está hospedado. Enquanto isso, angustiado por não saber onde sua esposa se encontra, preocupado em não se atrasar para a reunião de família, o marido é abordado por Anna , uma prostituta  - interpretada perfeitamente pela estonteante Penélope Cruz, falando italiano muito bem falado - que, devido à uma confusão se convence de que ele é o seu cliente. Devo dizer, que Penélope, assim como Woody, são o ponto alto do filme.

Quanto à Roma, o filme se preocupa apenas em mostrar os pontos turísticos já manjados em qualquer produção cinematográfica realizada na cidade, como a Fontana di Trevi e o Coliseu. A trilha sonora é ok, mas dispensa comentários. Sinceramente, esperava muito mais de "Para Roma, Com Amor". Porém, o que me consola é que Woody Allen lança um filme por ano, logo, é de se esperar que o próximo  - gravado em Nova York - seja melhor.

Ainda assim, apesar de todos esses aspectos negativos que apontei, se você é fã de Woody Allen e admira o seu trabalho, vale à pena conferir, de verdade. Mesmo parecendo meio sem pé e nem cabeça, o filme rende algumas risadas, além de belíssimas imagens da capital italiana.


Imagine a seguinte situação: é noite e você está passeando pelas ruas de Paris, apreciando a arquitetura, a vida boêmia, pensando no quanto de história a cidade tem. De repente, escuta o som de doze badaladas. É meia-noite e você acaba de ser transportado para o passado. Isso aconteceu em “Meia Noite em Paris”, de Woody Allen, lançado em junho de 2011.

Com filmes conhecidos por terem como cenário a cidade de Nova York, Woody Allen repete o feito realizado em alguns de seus filmes mais recentes (“Você vai encontrar o homem dos seus sonhos”, “Match Point” e “Vicky Christina Barcelona”) e opta por um cenário diferente: Paris.  

Porém, mesmo com a mudança de local, todos os elementos característicos em um filme de Woody Allen se fazem presentes em “Meia Noite em Paris”: personagens frustrados, neuróticos, que sofrem de um vazio existencial, sempre em busca da felicidade – sem necessariamente encontrá-la; diálogos irônicos e sarcásticos, cheios daquilo que todos sentimos, mas que nunca conseguimos expressar em palavras; e reflexões sobre a vida e o seu significado.

Gil Pender (Owen Wilson), um escritor de roteiros para filmes de Hollywood, viaja para Paris com sua noiva, Inez (Rachel McAdams), e seus sogros. Apesar de ser bem sucedido no que faz e ter estabilidade financeira, Gil não se sente feliz como roteirista e decide escrever um livro. Assim como seu autor, o protagonista do romance é um homem bastante saudosista, dono de uma “loja nostálgica” – local onde se pode encontrar objetos antigos, de épocas diferentes.  

Desde o primeiro diálogo de “Meia Noite em Paris” – em que só escutamos as vozes, acompanhadas por imagens de diversos pontos da cidade e uma música instrumental que remete à Paris do início do século XX, utilizando-se de um recurso comum nos filmes de Allen – fica claro para o telespectador que Gil é um cara nostálgico, infeliz com o presente e que gostaria de viver em uma época diferente.  

Para ele, o melhor período para se viver é na Paris dos anos 1920, habitada por escritores, pintores, fotógrafos e cineastas modernos. Em determinado momento do filme, o sonho de Gil se realiza e ele é transportado para a sua “Era de Ouro”, onde encontra os seus ídolos – Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Cole Porter, Gertrude Stein, Pablo Picasso, Salvador Dalí, Luis Buñuel, Henri Matisse, entre outros. A partir daí, Gil começa a refletir sobre rumo de sua vida, sobre sua fixação com o passado e quais são as suas expectativas futuras. E tudo isso vem carregado de um tom neuroticamente cômico e dramático.

Com diálogos marcantes e frases que causam impacto, o roteiro de “Meia Noite em Paris” não poderia ser mais original. Cheio de referências, percebidas principalmente nos diálogos (destaque para as falas de Hemingway, que faz menções à sua obra “O Sol também se levanta”), que vêm acompanhados por uma dose de nonsense, o roteiro revela que Gil é o alter-ego neurótico e gago de seu criador. Woody Allen expõe no texto - e também na tela - os seus questionamentos e percepções acerca da vida, do passado inatingível e da sensação de nostalgia que se faz presente durante a existência do ser humano. Tais elementos garantiram a Allen o Globo de Ouro e o Oscar pelo melhor roteiro original.

O elenco também é um show a parte. É difícil imaginar outro ator, além de Owen Wilson, que seja capaz de transmitir a essência de Gil Pender ao telespectador; Rachel McAdams é a perfeita noiva californiana e superficial; Michael Sheen (Paul) faz um ótimo pseudo-intelectual e Marion Cotillard (vencedora do Oscar de “Melhor Atriz”, por seu trabalho em “Piaf – um hino ao amor”), está encantadora como a francesa Adriane. É interessante chamar a atenção para Adrien Brody e a sua versão para Salvador Dalí, provavelmente o personagem que rende a cena mais cômica do filme.

Em meio a tantos aspectos positivos é praticamente impossível encontrar defeitos em “Meia Noite em Paris”. O filme nos mostra que a arte não é melhor ou superior à vida, mas sim um modo de compreendê-la e que a função do artista – independentemente de qual é a época em que vive – é tornar a existência algo mais leve e agradável. 


Depois de quase uma semana sem postar nada por aqui, resolvi escrever sobre um livro que estive lendo nas últimas semanas. Como amante da leitura desde meus 10 ou 11 anos, não consigo ficar muito tempo sem ter algum livro na minha cabeceira - às vezes mais de um - e detesto quando minha lista de leituras tem que ser adiada por conta das responsabilidades acadêmicas de faculdade...Mas chega de enrolação e vamos direto ao ponto, né?

O livro O jogo do anjo", do escritor espanhol Carlos Ruiz Zafón, é aquele tipo de leitura que prende a atenção do leitor desde a primeira até a última página. A primeira obra que li de Zafón foi A sombra do vento e, justamente por ter adorado a leitura, fiquei bastante curiosa para ler outros trabalhos publicados. Tanto A sombra do vento, quanto O jogo do anjo fazem parte de uma trilogia - ou seria tetralogia? - de histórias que tem como cenário a Barcelona dos anos 1920 e 1930. É interessante mencionar que, apesar de independentes, as histórias se entrelaçam e podem ser lidas em qualquer ordem. Em ambos os livros, Zafón apresenta aos leitores lugares como o Cemitério dos livros esquecidos e a livraria Sempere e Filhos, lugares fascinantes que qualquer leitor assíduo teria um grande prazer em conhecer. 

Narrado em primeira pessoa, O jogo do anjo traz a história de David Martín, "um jovem escritor caído em desgraça". Filho de uma família desestruturada - em que a mãe abandona o lar e o pai é um ex-combatente de guerra alcóolatra, violento e ignorante -, David encontrou nos livros o consolo para as mazelas de sua infância e, com o passar dos anos, decidiu que se tornaria um escritor. Já adolescente, encontrou o seu primeiro emprego - com a ajuda de Pedro Vidal, um grande amigo de família abastada - em um jornal local, onde cuidava na editoria de polícia. Mais tarde, passou a escrever pequenos contos policiais.

Após a saída do jornal, David passou a trabalhar para uma pequena editora, mal administrada e bastante desorganizada, que lhe encomendou uma série de livros policiais que teria que assinar sob um pseudônimo. Preso em tal situação, sem dinheiro para arcar com suas despesas básicas e morando em uma pensão que mais parecia um pulgueiro, David recebe uma proposta irrecusável feita por um ediror estrangeiro chamado Andreas Corelli. O sujeito, que afirma conhecer o trabalho de David, lhe encomenda uma obra que poderá impactar os rumos da História e da humanidade e, em troca, oferece uma quantia imensurável em dinheiro e algo mais que não irei revelar (risos).

A partir de então, o leitor encontra uma série de mistérios meticulosamente elaborados e anseia por suas resoluções. Com personagens apaixonantes - como o Sr. Sempere e a jovem Isabella - O jogo do anjo traz uma estrutura narrativa impossível de explicar, porém extremamente envolvente. Em determinados momentos, Zafón pode ser bastante descritivo, até meio barrroco, em outros, narra uma sequência de ação digna de cinema. Com diálogos bem trabalhados e diretos, outro elemento que cativa na obra é o senso de humor do autor, carregado de sarcasmo. Quanto ao enredo, é difícil classificar em gênero. Em partes pareceaventura, em outras suspense, terror, romance...É uma mistura de vários elementos e por isso, difícil de rotular. Particularmente, achei O jogo do anjo um tanto sombrio, em comparação com A sombra do vento, porém, não menos apaixonante. 

Indico à todos aqueles que adoram passar horas e mais horas na companhia de um bom livro.