Minha história com O Diário de Anne Frank data desde os tempos do colégio, quando uma mini Michas assistia à aulas de História e, por alguma razão completamente desconhecida, resolveu colocar na cabeça que o diário acima mencionado tratava, na verdade, de relatos horrendos e assustadores do que acontecia em campos de concentração. Por essa concepção errônea, acabei me privando de ler um dos mais influentes livros do século XX.
Caso alguém não saiba, Anne Frank foi uma menina judia alemã que vivia em Amsterdã, na Holanda, junto com seus pais e sua irmã mais velha, Margot. O motivo de ter abandonado a sua terra natal se deu porque, em 1933, o nazismo já estava ascendendo na Alemanha e a família Frank teve que se mudar para a Holanda, onde viveram bem e em segurança até 1942, quando foram obrigados a abandonar a vida que conheciam para viver em um esconderijo atrás de um armazém que, mais tarde passou a ser chamado de Anexo Secreto. O motivo para a brusca mudança se deve à ocupação nazista na Holanda. Além dos quatro integrantes da família Frank, ainda estavam abrigados lá a família Van Dan - pai, mãe e o filho, Peter - e o dentista Albert Dussel (os nomes dos integrantes do Anexo Secreto foram mudados no diário, com exceção da família Frank).

Durante dois anos, essas oito pessoas viveram ali, em situações precárias e, por precárias eu quero dizer, REALMENTE precárias, em que não podiam usar o banheiro durante o dia, o que os obrigava a fazer suas necessidades biológicas em vasos e/ou baldes, que ficariam no local até que alguém pudesse sair para se livrar de tudo; passavam meses comendo apenas batatas e/ou couves, muitas vezes já estragadas; entre outras que prefiro não contar para não estragar a leitura de quem ainda não conheceu o diário. No período de dois anos, Anne Frank relatou em seu diário a situação que estava vivendo no Anexo Secreto, acrescentando informações sobre o que estava acontecendo no mundo, de acordo com o que escutava no rádio.

Além dos relatos da guerra e do cotidiano do Anexo Secreto, o leitor também tem acesso aos pensamentos mais íntimos da garota de 13 anos que amadureceu muito rápido durante um período de dois anos. Em meio a comentários sobre a sua sexualidade, a descoberta do amor e as confissões e desabafos a respeito do que pensava de sua família - especialmente de sua mãe, com quem, claramente, tinha muitos problemas -, fica claro que Anne tinha uma personalidade muito forte e era incompreendida por aqueles que a rodeavam. 

No início de 1944, o primeiro ministro holandês, que estava exilado na Inglaterra, fez um pronunciamento no rádio pedindo a todos os holandeses que mantivessem uma documentação - cartas e diários - do que estava acontecendo no país durante aquele período para que, depois da guerra, pudessem ser recolhidos como material histórico. Ao saber disso, Anne resolveu organizar as anotações em seu diário, acrescentando informações de valor histórico, com a intenção de publicar um livro quando a guerra chegasse ao fim.

Todos sabem o desfecho dessa história: Anne Frank não sobreviveu para ver a sua história publicada, porque em 1944, soldados nazistas encontraram o Anexo Secreto e prenderam as oito pessoas que ali viviam. Posteriormente, Anne e Margot foram separadas dos pais e enviadas para outro campo de concentração, onde acabaram morrendo de tifo em 1945. O Diário de Anne Frank sobreviveu graças à Miep Gies, a esposa de um dos donos do armazém que escondia o Anexo Secreto; ela encontrou o diário de Anne e o escondeu até o final da guerra, quando, só após saber da confirmação da morte de Anne, o entregou a seu pai, Otto Frank, que publicou o diário da filha em 1947. 

Como pude constatar ao fim de minha leitura, O Diário de Anne Frank não é o relato das atrocidades que aconteceram nos campos de concentração. Mas isso não o torna menos triste e, de certa forma, perturbador. Anne era uma menina de 13 anos como muitas outras, cheia de sonhos que jamais se realizaram. Hoje, além de me arrepender profundamente por ter demorado tanto para ler o relato de Anne Frank, compreendo o motivo de o livro ainda vender tanto. As futuras gerações precisam ter consciência do que foi o período em que este livro foi escrito - marcado pela violência das guerras, pela intolerância, pelo nazismo -, para que jamais deixem a humanidade chegar a tal ponto. Precisam entender que hoje sabemos quem é Anne Frank, mas que nas valas comuns dos campos de concentração, muitas e muitos outros Annes Franks foram enterrados, suas vidas findadas e suas histórias esquecidas jamais conhecidas.

Finalizo este texto recomendando a leitura de O Diário de Anne Frank à todos os que tiveram a paciência de ler o texto ou de assistir ao vídeo. Mesmo que não seja o tipo de leitura que vocês gostam, acho que vale a pena sim sair da zona de conforto, porque este diário merece atenção. É o tipo de leitura que incomoda, mas que faz bem.

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18 Comentários

  1. Morro de vontade de ler Michas, minha próxima compra de livros será ele. O Problema é que nunca encontro, e comprar online se torna caro por causa do frete :c (Moro no RN)
    Amo seu blog, beijos!

    serenissim-a.blogspot.com.br

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    1. Gabriela,

      Já conhece o Estante Virtual? Ele funciona como uma rede de sebos do Brasil. Às vezes, quando quero comprar livros que são muito caros, acabo comprando por lá! São livros usados, mas sempre encontro coisas bem novinhas :)

      Espero que te ajude! O livro é muito bom e merece ser lido :)


      Beijos

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  2. Eu diria que é um livro obrigatório na estante de todo mundo!

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    1. Obrigatório com certeza!

      Deveriam pedir para ler na escola :)

      Beijos

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  3. Um dos livros mais lindos, gente, como eu sofro em pensar que a Anne morreu! Eu tenho certeza absoluta que se ela tivesse sobrevivido ela seria tão ou quem sabe mais famosa do que é hoje. É difícil descrever, mas eu sou apaixonada pelo livro, e uma das experiências mais emocionantes que tive foi visitar o Anexo Secreto. Em julho irei lá novamente, não podemos esquecer jamais!

    Espero que esteja tudo bem contigo, Michas! beijos

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    1. Marcela, quanto tempo!

      Prefiro nem comentar a revolta que senti quando terminei de ler "O Diário de Anne Frank". Anne seria uma pessoa importante por outros motivos se tivesse sobrevivido.

      Ah, que legal que vai conhecer o Anexo Secreto! Se puder, escreva sobre a experiência lá no seu blog :)

      Está tudo bem comigo sim, Marcela! Espero que esteja tudo bem com você :)

      Beijos

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  4. A única vez que eu peguei o livro pra ler foi na minha oitava série quando a gente tava terminando de ver a Segunda Guerra Mundial e me interessei. Confesso que gostei bastante de ler, mas não consegui terminar pois era da biblioteca municipal e não me deixaram renovar, pois ele era muito pedido.
    Sempre quis terminar, embora eu já saiba o que acontece. Muito obrigada pela resenha, ajudou muito!
    Beijo Michas e sucesso!
    http://www.dezesesseispensamentos.blogspot.com.br

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    1. Carol,

      Que pena que teve que abandonar a leitura :(
      Mas se puder, dê uma segunda chance. Mesmo sabendo o desfecho da história. O livro é muito bom e merece ser lido!

      Fico feliz em saber que a minha resenha te ajudou de alguma forma :)

      Beijos,

      Michas

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  5. deu vontade de ler! se eu não me engano, citam ela na segunda temporada de Americam Horror Story. já quero ler o livro!

    ah, adorei o video ^^
    bom final de semana ;*
    http://manualdosvinte.blogspot.com.br

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    1. É verdade que citaram a Anne em American Horror Story? Não assisti a segunda temporada ainda, mas gostei bastante da série :)

      O livro é muito bom! Recomendo a leitura!

      Obrigada pela visita e pelo comentário! Volte sempre!

      Beijos,

      Michas

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  6. Michas!

    Eu assisti o filme Escritores da Liberdade e realmente é um ÓTIMO filme, que recomendo muito à todos!
    Eu sempre quis ler o Diário de Anne Frank, mas sempre tive medo de não gostar ou de ser forte demais para o meu psicológico, mas depois da sua resenha só senti mais e mais vontade de ler ele!

    Adorei a inovação do blog, ficou muito legal !

    Beeijos

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    1. Dinny!

      Como você está? Quanto tempo hehehe

      Já consegui o filme "Escritores da Liberdade" e pretendo assisti-lo em breve e, assim que o tiver feito, venho aqui no blog comentar com vocês :)

      Então, sobre "O Diário de Anne Frank" também sempre achei que seria muito pesado, que ia ficar com mal estar enquanto lia, porém, a experiência foi bem diferente do que eu imaginava. Claro que mexe um pouco com a gente, mas está longe de ter descrições de cenas violentas e atrocidades. Recomendo a leitura sim, mesmo que saia um pouco da zona de conforto. É um belo relato, apesar de triste :)

      Espero que dê uma chance ao diário!

      Gostou da inovação? Ainda estou fazendo algumas alterações, mas já estou feliz. Não aguentava mais o layout anterior hehehe


      Beijos

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  7. Esse é um dos livros "obrigatórios" que ainda não li. Está aqui sentadinho na estante, aguardando pacientemente sua vez. Mas imagino que deva ser incrível. Aliás, "Escritores da Liberdade" é um filme que também está na minha lista (por que o dia só tem 24 horas? humpf...)
    beijo!

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    1. Michelle,

      Todos os dias me pergunto porque não temos mais horas nos nossos dias, haha!

      Pretendo assistir "Escritores da Liberdade" para depois vir aqui contar o que achei!

      Leia "O Diário de Anne Frank" quando puder, porque é muito bom mesmo! Eu enrolei muito para ler e hoje me arrependo por ter demorado tanto... Acho que vai gostar da experiência :)

      Beijos

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  8. Olha eu aqui!
    Não passo no seu blog há décadas e o meu tá abandonado de novo, mas nossa... eu não tenho tempo pra mais nada :(
    Li Anne Frank durante a oitava série, acho. Pediram na escola. Sinceramente, eu achei um porre na época que eu li, mas hoje que tenho outra cabeça, entendo a importância do relato dela. Tô pensando em ler de novo quando sobrar um tempinho.
    O pior de tudo pra mim foi saber que pouquíssimo tempo depois dela morrer (coisa de dias, acho), o campo de concentração em que ela estava foi desativado...

    O blog tá lindo demais, Michas!
    Beijos :)

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    1. Becky!

      A Anne morreu um mês antes do campo de concentração em que ela estava ser desativado. Muito triste, né? :(

      Acho que você deveria fazer uma segunda leitura, porque o relato vale muito à pena :)

      Beijos

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  9. Olá, Michelle!

    Primeiramente devo dizer que seu blog tem um toque sutil e maravilhoso de café ao fim de tarde. Juro. Um prazer estar aqui, um prazer a cada clique. Muito bonito, delicado e cheio de expressão e simpatia como deve ser você mesma!

    O Diário de Anne Frank é extremamente triste e uma história a ser lembrada. Uma guerreira a ser declarada, porque, como muitas outras crianças, Anne teve a infelicidade de conviver e ver de perto toda a verdadeira guerra e sofrimento ao seu redor.

    Livros assim me fazem repensar a própria realidade que me cerca e muitas vezes me fazer a seguinte afirmação: Eu reclamo demais.

    Um beijo Mi!

    Tenha uma ótima semana.

    Paula, http://poetisaeliteraria.wordpress.com/

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  10. Oi, Mirella
    Tudo bem?

    Muito obrigada pelas belas palavras :)
    Fico muito feliz que tenha gostado do blog! É um prazer ter você por aqui e tenho certeza de que você também é uma pessoa muito simpática :)

    O Diário de Anne Frank é aquele tipo de livro que deveria ser lido por todo mundo, sabe? Foi uma leitura que me fez pensar no quão errado o mundo pode ficar e em como é importante não deixar a humanidade chegar àquele ponto novamente. Nunca mais! E sim, concordo com você: eu também reclamo demais.

    Lendo sobre a situação que a Anne viveu, e tantas outras crianças e adultos, me fez pensar no quanto eu tenho a agradecer por viver em uma época que, mesmo longe de ser perfeita, é ainda melhor do que aquela em que eles viveram. Livros assim nos ensinam, dentre muitas coisas, a valorizar a vida.

    Um beijo para você também e uma ótima semana!

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