Considerado uma das distopias mais importantes do século XX - ao lado de "1984" e "Admirável Mundo Novo" -, "Fahrenheit 451" , de Ray Bradbury, nos apresenta a um futuro incerto no qual a humanidade vive sob o domínio de um governo totalitário. Nessa distopia, a sociedade vive em um estado de alienação, no qual tudo é controlado e a única forma de obter informação é por meio de enormes televisões instaladas dentro das casas. Os livros e a leitura são proibidos, como uma forma de impedir que a sociedade se rebele contra o governo. Neste mundo, os Bombeiros são os responsáveis por atear fogo nos livros sempre que descobrem que alguém os está escondendo. Se for preciso, incendeiam a casa e todos os que se colocarem no caminho de sua missão.

O protagonista da história é Guy Montag, um bombeiro satisfeito com sua profissão e com a vida que tem, até o momento em que conhece Clarisse McClellan, uma menina de 17 anos que reflete sobre o mundo e lhe faz perguntas que lhe soam estranhas. Ao conviver com Clarisse, Montag aos poucos vai percebendo o quanto se sente infeliz em relação à sua profissão e seu casamento. Após o desaparecimento da garota, Montag começa a se questionar a respeito da sociedade em que vive , sobre as autoridades a que obedece e, mais importante, sobre o quão poderosos e perigosos os livros podem, de fato, ser.

***

Vou ser sincera: escolhi muito mal o momento para ler este livro. Como a primeira escolha para 2014, "Fahrenheit 451" não funcionou muito bem e eu culpo o começo de ano e o ritmo de festa por isso. Não estou falando de um livro para você ler na beira da praia ou enquanto toma sol na piscina; este é um livro para ser lido com calma, absorvendo cada ideia ali apresentada. Por isso, acabei deixando ele de lado até o fim de janeiro, quando as coisas começaram a se acalmar e pude me dedicar melhor ao livro. 

Outro fator que me incomodou um pouco durante a leitura foi a narrativa, que em alguns momentos chega a ser meio poética, com bastante uso de metáforas. Não que eu ache isso ruim, mas em determinas partes começou a me irritar um pouco porque me pareceu um tanto excessivo. Com os aspectos negativos da minha experiência devidamente apontados, vamos ao que me agradou.

Gostei de perceber que a situação extrema apresentada por Bradbury não está tão distante da nossa realidade. Há exageros nos livros? Claro que sim! Mas o que é mostrado ali pode sim ser percebido em uma escala bem menor nos dias de hoje. Um exemplo disso são aquelas pessoas que não sabem absolutamente nada sobre os acontecimentos mais recentes do país ou do mundo, mas se você perguntar sobre o que aconteceu na novela ou no BBB, a pessoa sabe te dizer tudo em detalhes. Quando li sobre Mildred e sua obsessão pela Família, não pude deixar de pensar nessas pessoas. Não estou aqui para julgar ninguém, quer assistir novela, assista, oras! Eu assisto também! Mas acho que é importante manter um equilíbrio.

Outro aspecto que me interessou bastante foi saber que antes de os livros serem proibidos, eles foram abandonados. Aos poucos, as pessoas foram parando de ler e de se interessar pelos livros e pelas suas palavras; dessa forma, o pontapé inicial para a proibição dos livros partiu da própria sociedade. Novamente, impossível não encontrar semelhanças com a sociedade atual. É só dar uma olhada na média de livros lidos pelo brasileiro a cada ano (os dados são de 2012, mas pouca coisa mudou). Claro que há uma minoria (nós estamos inclusos nela, certo?) que gosta de ler e encontra nos livros, além de uma fonte para o conhecimento, uma forma de se divertir; mas de uma forma geral, infelizmente, a realidade do brasileiro é aquela em que livros são objetos de repulsa. Mais uma vez, Bradbury não exagerou tanto em suas "previsões".

Por fim, o que mais me agradou foi o fato de que, mesmo mostrando este mundo distorcido em um futuro assustador, Ray Bradbury ainda conseguiu pensar de forma positiva e nos entregar um final otimista. Gosto dos ares de esperança que ficam quando a leitura é concluída. Com isso dito, fica aqui a minha recomendação de uma leitura ótima leitura.


14 Comentários

  1. Oi, Michas!

    Eu adoro distopias. Faz tempo que quero ler esse livro. "1984" e "Admirável mundo novo" eu já li e gostei bastante. Tem o "Laranja Mecânica" também, que sempre aparece como recomendado quando o assunto são esses livros.

    Que pena que o momento que escolheu pra lê-lo não ajudou muito. Tô passando (mais ou menos) por isso agora com o livro "O Lobo da Estepe". Estou achando a leitura incrível, mas não acho que o peguei em um momento bom, sabe? Até decidi dar uma pausa na leitura dele e retomá-la depois.

    Interessante essa análise que fez a respeito da falta de interessa das pessoas pelos livros. Triste constatar o quanto de verdade isso carrega.

    Bom saber que o final do livro carrega algo otimista.

    Beijos,
    Amanda. :)

    PS: Eu linkei o seu blog na página de blogs parceiros lá do Lendo & Comentando. Já tem um tempinho que coloquei lá, mas acho que não te avisei (desculpa!). Nessa página ficam os links dos blogs que tento visitar com certa frequência. Espero que não tenha problema ter colocado o seu banner lá. ^^

    ResponderExcluir
  2. Muito triste mesmo a gente perceber que existe gente que não está nem ai pra o que acontece no mundo, que não lê um livro desde saiu da escola... Isso é realmente o tipo de coisa que me deprime.
    Não li o livro mas vi o filme, na escola por sinal! E eu gosto muito dele. Espero conseguir ler o livro em breve.
    Não conhecia muito sobre o autor. Amei saber que ele tinha um gato <3
    Beijos

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Qual filme, Stela, o do Truffaut? Eu assisti a esse dele, e meu Deus, achei um lixo :(((

      Excluir
    2. Stela, leia o livro sim! Apesar dos problemas que tive com o momento errado, acho que é uma leitura super válida! Preciso assistir ao filme. Tenho no computador, mas quem disse que senti vontade de sentar e assistir? PREGUIÇA!

      Excluir
  3. Creio que essa tríade distópica de clássicos tenha que ser lida com calma e sob degustação, mesmo. Eu li Admirável Mundo Novo e Fahrenheit às pressas e digo que isso foi péssimo, apesar de ter amado o segundo e ainda lembrar dele. Porém, quase anda lembro do primeiro, que li em 2012 hahaha Um conselho para quem vai lê-los: vá com calma, é leitura para digerir devagar, sem contar que o conteúdo é quase indigesto - sobretudo Admirável -, sendo preciso tempo, realmente.

    E eu não percebi esse aspecto poético em demasia. A escrita não me incomodou em nenhuma aspecto...

    Triste esse cenário criado pelo autor de abandono dos livros, não? Imagine algo assim... Terrível! Uma crítica pe-sa-da!

    Também gostei do final otimista. Não é nada de "felizes para sempre", mas, sim, algo que soa como um brotar tímido de esperança. Ou mesmo de "há o lugar certo para cada pessoa".

    Adorei o texto, Michas!
    Beijos :)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Mell, essa coisa de ler com calma, aos poucos, absorvendo tudo é algo que tenho feito com todas as minhas leituras de livros mais "sérios" e "encorpados", sabe? Acho que é importante a gente ir compreendendo o que o autor queria dizer e, na maioria das vezes, isso só acontece quando temos tempo de digerir. Preciso reler 1984, que adorei, mas li em final se semestre, cheia de trabalhos e provas. Acho que perdi algumas coisas hehe:)

      Ah, o meu problema com a narrativa do Bradbury pode ser por conta do momento, né? Mas sim, o uso de metáforas me incomodou em algumas partes...

      O final do livro é o mais legal de tudo, porque não força um "final feliz", mas também não deixa tudo "ruim e lide com isso". Deixa aquele espaço para você refletir e, para os personagens, dá um pouco de esperança :)

      Fico feliz que tenha gostado do texto, Mell :)

      Beijos

      Excluir
  4. Esse livro tem tudo para ser um dos meus preferidos, falta ler só! A alienação feita pela TV é extremamente real, todos nós temos exemplos por perto para confirmar. O que a atriz da novela usa é obrigatório, os personagens acabam fazendo parte do cotidiano que se passam horas comentando sobre eles, talvez só espiar os vizinhos seja mais interessante que discutir as novelas.

    Bjs

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Rafa, não tenho nada contra novelas e quem assiste a elas. O que me incomoda é a quantidade excessiva delas na programação brasileira e esse estado de alienação em que deixa parte das pessoas, sabe? Não vejo problema em chegar em casa cansado e querer relaxar com a novela. Mas me irrita quando a pessoa sabe o que aconteceu na novela, mas não sabe o que passou no jornal. Não me refiro àqueles que não tem acesso à informação, mas àqueles como nós que lemos e nos informamos. Porque nesses casos, parece que a alienação é opcional, como no livro de Bradbury. E isso é bem assustador...

      Espero que você goste da leitura :)

      Beijos

      Excluir
  5. Michas, se puder, veja o filme! É bem bacana (embora a Clarisse nem de longe tenha 17 anos!). Está legendado no YouTube.
    Esse descaso com os livros me preocupa, como escritora principalmente, mas também como cidadã...
    Beijos!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Lê, pretendo assistir ao filme sim! Só não o fiz porque ando numa ressaca cinematográfica :/
      Mas já já passa :)

      É assustador o descaso com os livros. E cada vez parece pior, né?

      Beijos

      Excluir
  6. Eu ouvi muitas pessoas falando bem desse livro, mas não sabia bem do que se tratava até ler seu texto, concordo com você quando você fala que a história não está muito longe da nossa realidade, pois realmente a maioria das pessoas não gostam de ler e as vezes até ignoram quem gosta. Eu conheço várias pessoas, mas que goste de ler assim como eu acho que dá pra listar nos dedos de uma das mãos (Infelizmente)! Amei seu post! Mais bem escrito impossível...Beijão

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Que bom que gostou do texto! É um livro muito interessante que levanta questões bem importantes! Acho que é uma leitura obrigatória para todo mundo que gosta de ler, sabe? Mas deve ser lido na hora certa e com calma, para poder absorver tudo o que o Bradbury tinha para falar :)

      Beijos

      Excluir
  7. Oi Michas,

    Li Fahrenheit 451 em fevereiro e confesso que senti a mesma coisa que você em relação à experiência de leitura: eu queria engolir o livro de uma vez só. Resultado: acabei encostando por alguns dias até conseguir que a leitura fluísse, de modo muito mais lento do que eu gostaria.
    Foi uma ótima leitura. Achei o questionamento colocado acerca da alienação e da proibição de acesso ao conhecimento algo tão atual que chega a ser difícil para nós acreditarmos que isso já acontecia em 1953, quando o livro foi escrito.
    Também fiz uma resenha no blog e acho que o livro nos gera mais perguntas do que respostas. E tem que ser relido algum dia.

    Abraços,

    Marília - http://www.paginaseletras.com.br/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Marília,

      Concordo com você: esse livro precisa ser relido algum dia. Que chato que você, assim como eu, escolheu o momento errado para ler este livro :(

      É impressionante o quanto este livro ainda é atual, né? E é bem triste saber que ele permanece assim desde 1953. As coisas não mudaram nada neste aspecto. :(

      Vou procurar a sua resenha :)

      Beijos

      Excluir