Ambientado na década de 1970, em um típico subúrbio dos Estados Unidos, "As virgens suicidas", traz a história das cinco garotas Lisbon que, inexplicavelmente, resolveram se matar em sequência. A narrativa é feita pela voz coletiva dos garotos que viviam na vizinhança e que, anos após a tragédia, ainda não conseguiram compreender tudo o que aconteceu e, por isso, decidem recordar os acontecimentos daqueles anos, na tentativa de reconstruir os últimos meses de vida das garotas Lisbon e, quem sabe, encontrar um motivo para a sua decisão final de abandonar este mundo.

Por meio da visão destes garotos - agora homens adultos, com seus 40, 50 anos -, o leitor é apresentado às cinco irmãs Lisbon - Cecilia (13 anos), Lux (14), Bonnie (15), Mary (16) e Therese (17) -, moças muito bonitas e que vivem de forma, aparentemente, normal. Filhas de uma católica bastante devota e de um professor de matemática, as meninas Lisbon parecem viver em um mundo distante e só delas, despertando o fascínio dos adolescentes que frequentam a mesma escola e que vivem nos arredores. 

Quando a mais jovem das meninas, Cecília, comete suicídio, começa a ficar evidente para os narradores - e também para o leitor- que algo não está bem com a família Lisbon. Após a primeira tragédia, as meninas, que já viviam bastante isoladas, passam a ser ainda mais protegidas pelos pais e tudo piora depois de alguns imprevistos decorrentes de um baile no colégio.

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Antes de tudo: a palavra "virgens" no título não tem absolutamente nenhum teor sexual. Aliás, o título em português não foi uma tradução fiel do título original, "The Virgin Suicides", o que acaba por deturpar um pouco o sentido.

Desde a primeira página, o leitor já sabe o destino das meninas Lisbon e isso não é problema algum, porque a "graça" é descobrir como tudo aconteceu. E ainda assim, foi impossível não ficar com uma sensação estranha no momento em que a narrativa chega aos suicídios. A forma como Jeffrey Eugenides construiu a história e a contou sob a perspectiva coletiva dos garotos que conheciam as meninas é muito envolvente, o que torna quase impossível abandonar a leitura. Confesso que tive que me controlar para não devorar o livro, porque esta é uma leitura que precisa ser sentida aos poucos.

A atmosfera da história é bastante melancólica e angustiante, de forma que consegui imergir na história e sentir o desespero dos narradores. É como se, enquanto viviam aqueles momentos, os garotos não pudessem enxergar o que estava por vir e, anos depois, reconstruindo aqueles dias, tudo começasse a ficar óbvio. Gostei da forma como a narrativa mexe com os sentidos, principalmente, com o olfato. Durante a leitura, conseguia sentir diversos cheiros - como o de chiclete de melancia, de pipoca envelhecida e da podridão da casa decadente - , o que só acrescentou à experiência, tornando tudo muito próximo.

Enquanto realizava a leitura, fiquei o tempo todo buscando um motivo para os suicídios - em especial, o de Cecília - e até hoje, dias após terminar, não sei se consegui chegar à alguma conclusão. E acho que essa foi a intenção do autor. Afinal, como é possível encontrar palavras para explicar suicídio? Vou reafirmar o que disse acima: "As virgens suicidas" é uma leitura para ser sentida e não necessariamente compreendida. Muito além de tratar de suicídio, estamos falando de uma história que levanta reflexões: o que é a vida, a morte, a liberdade? O que é crescer? O que é viver? Por que viver? Por que morrer? Qual é a nosso objetivo aqui? É um livro que não faz sentido algum, mas que, ao mesmo tempo, faz todo o sentido do mundo.

Sei que ainda estamos em abril, mas já posso afirmar que "As virgens suicidas" foi uma das minhas melhores leituras em 2014. Leitura que, inclusive, pretendo repetir em algum momento. Em 1999, o livro foi adaptado para o cinema por Sofia Coppola e, apesar de capturar bem a atmosfera da obra de Eugenides, peca em alguns aspectos. Ainda assim, é uma adaptação válida e que eu recomendo após a leitura.


7 Comentários

  1. Oi Michelle, tudo bem?

    Você me deixou MEGA curiosa sobre esse livro.
    Preciso ler já! Vou procurar agora mesmo pra comprar!.
    Adoro esses livros que terminam e deixam a conclusão por parte do leitor, e que, como você disse, que precisam ser sentido aos poucos.
    Parabéns pela excelente resenha!

    Beijos,e boas leituras!
    http://dacarneiro.wordpress.com/

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    1. Dani!

      Eu sempre morri de curiosidade em relação a esse livro e agora, finalmente, posso ficar mais tranquila em relação a isso :)

      É um livro belíssimo. A escrita, além de muito fluída, é bem poética, mas sem ser enfadonho, sabe? Nossa, gostei demais! É exatamente o tipo de história que te deixa com um vazio no final e aí, você fica pensando, tentando concluir...
      Lindo mesmo!

      Fico muito feliz que tenha gostado da resenha e que ela tenha te motivado a ler o livro! Espero, de verdade, que você goste tanto quanto eu :)

      Beijos e boas leituras para você também!

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  2. Oi, Michas! <3

    Já vi tanta, mas tanta gente falando que gosta desse livro que fico curiosa pra lê-lo. Nem o filme eu vi, então tudo o que sei são comentários que já li por aí. E toda vez acho tão bizarra a ideia das 5 irmãs se matarem! Fico me corroendo pra saber como o autor construiu a história delas e os motivos pra tal. Que interessante isso de você sentir cheiros de forma 'vívida' enquanto lia. Imersão total na leitura, né?
    Ótimo texto, Michas! Aumentou minha curiosidade pela história.

    Beijos!

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    1. Oi, Amanda

      Eu também, de tanto ouvir as pessoas comentarem, morria de curiosidade em relação a esse livro. Ganhei o meu de presente nessa época do ano, no ano passado. E nem acredito que demorei tanto para ler! É uma leitura tão envolvente, sabe? E a narrativa - com as descrições de cheiros, lugares e pessoas - só me fazia me sentir cada vez mais imersa na história! Muito bom mesmo :)

      O fato de cinco irmãs tirarem a vida é, realmente, muito intrigante. E bem angustiante também!

      Que bom que gostou do texto e que consegui aumentar a sua curiosidade :)
      Depois que tiver lido, me conte o que achou :)

      Beijos

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  3. Já vi muito booktuber estrangeiro falando sobre esse livro e fiquei muito interessada. Achei a capa americana (não sei se é americana ou não, mas enfim, a outra capa) bem mais bonita.
    Pelo o que eu li sobre o livro, parece ser ótimo. Fiquei doidinha para comprar hahaha. Esse livro parece que nos ensina bastante, então acho que vou comprar.

    Adorei a sua resenha Michelle! Conseguiu explicar muito bem o livro <3

    http://viagem-a-terra-do-nunca.blogspot.com/

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    1. Oi, Gabriela

      Você está falando da capa com as rosas? Se for, é bem bonita mesmo!
      O livro é bem interessante e envolvente. Durante a leitura, você também começa a ficar fascinado pela história dessas cinco meninas! É uma leitura bastante válida :)

      Fico feliz que tenha gostado da resenha! Espero que goste da leitura também :)

      Beijos

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  4. Li esse livro no ano passado e também gostei muito. Acho que, até hoje, foi o único livro que li contado na primeira pessoa do plural, uma escolha genial por parte do autor. Acho que em nenhuma outra perspectiva ele seria tão brilhante. Traz um tom tão nostálgico e melancólico ao mesmo tempo. É realmente uma narrativa muito bonita.

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