Sobre ter blogs e canais literários


Entre as mil e uma coisas que podemos encontrar na internet, os blogs e canais literários estão, sem sombra de dúvidas, entre as minhas preferidas. Não consigo explicar a alegria que sinto toda vez que paro para pensar na existência de pessoas que, como eu, são apaixonadas por livros e decidem expressar e compartilhar essa paixão com o resto do mundo. Essa prática, além de possibilitar a interação entre leitores, exerce ainda o que eu gosto de pensar como uma ação social: o incentivo à leitura.

Não é segredo para ninguém que o Brasil não é um país formado, em sua maioria, por leitores. É um fato triste, mas é a realidade. E saber que há uma pequena parcela de pessoas que gostam, não só de ler, mas de compartilhar as suas descobertas, opiniões e hábitos com outros indivíduos, é saber que há um tênue fio de esperança para que possamos mudar a realidade em que vivemos. Afinal, a partir da leitura, obtemos conhecimento, abrimos nossas mentes e expandimos os nossos horizontes. Quem lê aprende a desenvolver o pensamento crítico e, consequentemente, a enxergar melhor o mundo em que vive - e o que há de errado nele. Dessa forma, gosto de pensar que quem lê, pode sim corrigir os erros do presente e mudar o futuro. 


Porém, como mencionado acima, nós leitores ainda somos uma minoria. E é por isso que encaro a popularidade e o crescimento dos blogs e canais literários como uma vitória. Todos esses leitores, cada um de um canto do país ou do mundo, compartilhando suas experiências literárias formam uma comunidade baseada na troca de ideias e descobertas acerca de uma paixão em comum, a paixão de se perder no meio de palavras e sensações por estas causadas. Não sei se falo por todos quando digo que livros me entendem melhor do que gente e que ter a noção de que existem mais pessoas que pensam dessa forma é saber que não estou sozinha, mas é exatamente assim que me sinto e creio que foi por causa desses dois motivos que resolvi fazer parte desta comunidade.

Desde 2012, compartilho minhas experiências literárias na internet. Comecei com o meu blog pessoal, depois criei um canal no Youtube e hoje, além desses dois meios, escrevo aqui no Literature-se. Por meio dessas experiências, pude, ao longo dos últimos anos, expandir meus conhecimentos sobre o mundo da literatura, compartilhar um pouco do que eu gosto e também fazer algumas amizades. Fazer parte dessa comunidade é algo que, na maioria das vezes, me traz muito prazer; mas não vou mentir, há também alguns aspectos negativos, dos quais, felizmente, poucas vezes fui vítima.

Por meio de um espaço na internet para falar sobre livros, podemos conhecer pessoas com gostos literários parecidos com os nossos e, a partir da interação com essas pessoas, são criadas relações de amizade e de confiança. Afinal, nos tornamos próximos desses indivíduos que vivem por trás das telas de nossos computadores - mesmo que de uma forma não muito racional - e passamos a confiar em suas opiniões e recomendações acerca do mundo literário. Eu, por exemplo, nunca teria dado uma segunda chance para Alice se não fosse pelo vídeo da Mell e teria me arrependido profundamente, já que este é um dos meus livros infantis preferidos. Já perdi a conta de quantos livros me foram recomendados e quantos entraram para a minha lista de leitura desde que criei o meu canal, em janeiro do ano passado. Algumas pessoas já vieram me falar que só leram e gostaram de determinado livro por minha causa. Nada disso seria possível sem essa maravilha chamada internet que nos permite a criação de espaços para expressarmos a nossa visão sobre coisas que nos interessam.

Por outro lado, há sim algumas desvantagens. Há aqueles, por exemplo, que se sentem no direito de lhe cobrar uma resenha do livro X que nunca te interessou e que nem está na sua lista de prioridades literárias ("Quando você vai fazer uma resenha do livro tal, de fulano de tal?"). Ou aqueles que não conseguem enxergar a beleza das opiniões divergentes e começam a te xingar se você não gostou do livro preferido dele/dela. Tem aquele que adora pegar carona e vive fazendo spam nos comentários de vídeos alheios, ou então, envia mensagens privadas praticamente te intimando a conhecer o seu blog/canal. Há aquele que, na dúvida entre ficar calado ou fazer um comentário inútil, opta pela segunda opção e manda um "nossa, seu cabelo está nos olhos", como se você já não soubesse disso. Fora aquele que confunde opinião pessoal com verdade absoluta e aquele que disfarça agressão verbal como crítica construtiva, e acha que na internet todo mundo tem o direito de falar o que bem quiser, mesmo que isso seja xingar a tudo e a todos, a torto e a direito, ainda que fazendo uso de palavras rebuscadas. Infelizmente, a internet é terra marcada por anônimos e falta de educação.

Tendo em mente esses dois lados da realidade que é ter um espaço na internet para falar sobre livros, acredito que seja necessário pensar duas vezes antes de decidir se você quer ou não fazer parte dessa comunidade. No meu caso, felizmente, não tive que lidar com muitas das situações citadas acima, o que contribui para que eu mantenha viva a vontade de continuar compartilhando minhas experiências literárias. Por outro lado, sei que há pessoas que lidam com esses problemas diariamente e, sinceramente, não as julgaria se, de repente, resolvessem abandonar seus blogs/canais. A verdade é que parece cada vez mais difícil lidar com pessoas, que andam cada vez mais mal educadas, principalmente na internet, que é terra de ninguém. Fato que não deixa de ser assustador, quando falamos de comunidade literária, de pessoas informadas e abertas à novas ideias. Ainda assim, em meio a tanta hostilidade, é possível encontrar pessoas maravilhosas, dispostas a enriquecer as nossas discussões e a acrescentar algo às nossas bagagens intelectuais por meio da troca de experiências. E é por isso que eu digo que vale à pena fazer parte dessa comunidade.


Texto originalmente publicado na coluna Literalmente Falando, do blog Literature-se.

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