Ambientado na Londres do século XIX, "A filha do louco", de Megan Shepherd, apresenta o leitor à Juliet Moreau, uma jovem de 16 anos que, após um escândalo envolvendo seu pai - o famoso e importante Dr. Moreau -, teve a sua vida alterada completamente. Após graves acusações, o Dr. Moreau perdeu o direito de exercer a medicina e desapareceu, deixando para trás sua esposa e a pequena Juliet que, na época, tinha apenas dez anos.

Seis anos depois, Juliet é uma órfã sem dinheiro algum e que sobrevive como faxineira e arrumadeira de um laboratório da faculdade de medicina. Em meio a muitas humilhações - incluindo assédio sexual e tentativas de estupro -, Juliet tenta esquecer os rumores acerca de seu pai e das possíveis atrocidades que ele possa ter cometido, ao mesmo tempo em que demonstra bastante interesse e conhecimento em medicina. 

Quando a sua vida parece ter atingido um ponto sem esperança alguma, ela acidentalmente reencontra Montgomery, um rapaz de 18 anos que costumava trabalhar como assistente de seu pai. Intrigada com súbito aparecimento de Montgomery e seu estranho criado e, mais ainda, com um mapa anatômico que apareceu na faculdade de medicina, Juliet resolve investigar; e descobre que o Dr. Moreau ainda vive e está exilado em uma ilha tropical bastante remota e exótica, onde realiza estranhas experiências.

Cheia de dúvida, curiosidade e certeza de que nada tem em Londres, Juliet resolve embarcar junto com Montgomery em um barco rumo à ilha em que seu pai vive. No meio da viagem, a tripulação encontra Edward, um náufrago à beira da morte que acaba sendo resgatado e levado para a ilha também.

***

Antes de contar o que achei, é preciso mencionar que "A filha do louco" é o primeiro livro de uma trilogia que pretende dialogar com três clássicos da ficção-científica "A ilha do Dr. Moreau", de H.G. Wells; "O médico e o monstro", de Robert L. Stevenson; e "Frankenstein", de Mary Shelley.

No primeiro volume, Megan Shepherd dialoga com o livro de H.G. Wells e nos apresenta os mesmos - ou quase isso - personagens, porém com algumas sutis diferenças. A ideia é bastante criativa e a história é bastante envolvente. Durante toda a narrativa, a autora conseguiu criar uma atmosfera de mistério e suspense, ao mesmo tempo em que realizou ótimas descrições de ambientes. O leitor se sente, de fato, dentro da ilha.

Porém, tenho algumas ressalvas a fazer. Ainda que tenha gostado das descrições de ambiente, acho que a autora pecou muito nas descrições de cenas, que tornam a narrativa meio enrolada. Durante toda a leitura, o leitor depara com coisas do tipo:

[diálogo simulado]
- Você gostaria de tomar chá? - Ele me perguntou enquanto segurava o bule e apontava para a xícara com o olhar.
- Sim, eu adoraria. - Respondi enquanto o observava colocar o chá em minha xícara e depois entregando-a em minhas mãos. A água fervia, assoprei, na esperança de que esfriasse.

Não me lembro de um diálogo exatamente assim, mas o que quis mostrar é que, nessa história, descrições de cenas assim são completamente desnecessárias, pois não parecem acrescentar nada. Seria muito mais prático se autora simplesmente dissesse que os personagens estavam tomando chá, oras. Quando isso ocorre uma vez não incomoda; o problema é que lá pela metade do livro, tudo fica meio monótono e a narrativa fica marcada por ações triviais como olhar pela janela e beber uma xícara de chá; todas detalhadas nos mínimos detalhes, como se o leitor não soubesse como é que as pessoas bebem chá.

Outro ponto sobre a narrativa que merece atenção é o fato de que ela é realizada em primeira pessoa por Juliet. Eu, particularmente, não me incomodo muito com narrativas em primeira pessoa...exceto quando estamos falando de um livro YA com protagonista feminina. E aqui, mais uma vez, o leitor é forçado a acompanhar os pensamentos chatos e completamente incoerentes de uma personagem adolescente. Então, sim, Juliet, a princípio se mostra uma jovem bastante independente e capaz de sobreviver sozinha às crueldades de uma cidade como Londres, porém, é só ela chegar na ilha que muda completamente e se transforma em uma garota frágil que passa a maior parte do tempo pensando em rapazes.

O que me leva a mais um ponto negativo: o triângulo amoroso. Não que o triângulo fosse completamente incoerente; muito pelo contrário, até que fez sentido, se considerarmos o contexto da história. Porém, quando estou lendo sobre uma ilha exótica habitada por um médico estranho que pratica experiências bizarras, a última coisa que quero é acompanhar os "mimimis" de uma adolescente que parece viver em função de seus hormônios. Tudo bem ela ficar em dúvida, afinal está descobrindo seus sentimentos; o problema é que não dá para levar a protagonista à sério em boa parte do livro. Imagine você na selva, no meio da noite, fugindo de um monstro. O que você faria? Eu tentaria me esconder e salvar a minha vida. Juliet prefere ficar parada e olhar para os músculos do boy magia. Quer dizer, é tudo uma questão de prioridades, né? 

Ainda assim, com todos esses aspectos que me incomodaram profundamente, gostei da história. Acho que é preciso levar em consideração o fato de que este foi o primeiro livro da autora e relevar algumas coisas. Como ando numa fase sem paciência para séries/trilogias YA, é possível que tenha me irritado mais do que o normal. E o final do livro foi realmente muito legal e inesperado: com plot twist e cliffhanger, o que me deixou bastante motivada a continuar a série. O segundo livro já foi publicado lá fora, mas ainda não soube de nada a respeito da publicação aqui no Brasil, mas se souber de algo, aviso pela fanpage, ok? Se alguém souber de alguma coisa, avise nos comentários. :)

Ah, e vale também mencionar que o livro faz referência a várias peças de Shakespeare. Consigo me lembrar de cinco: "A Tempestade", "Noite de Reis", "Eduardo III", "Sonho de uma noite de verão" e "Júlio César".

Para concluir o texto, digo que pretendo continuar com a trilogia e que a recomendo (pelo menos o primeiro livro) àqueles que se interessaram pela trama, que gostam de aventuras com um quê de suspense e terror e que não se incomodam com clichês de romances adolescentes.


8 Comentários

  1. Oi Michas! Confesso que não tenho paciência para romances, rs mas a história de um médico louco realmente me parece atraente! Vou pesquisar mais a respeito do livro e das obras as quais ele foi inspirado. Aliás, você já leu elas? Beijos.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi, Nicole

      Eu também não tenho paciência para esses romances YA, viu? Mas esse me atraiu justamente pelos motivos que você apontou: a história de um médico louco, hehe. É uma leitura divertida, mas a protagonista irrita em alguns momentos.

      Esse livro aí foi inspirado em "A ilha do Dr. Moreau", que eu estou lendo no momento. Os outros livros da trilogia são inspirados em "O Médico e o Monstro" - que já li - e "Frankenstein", respectivamente :)

      Beijos

      Excluir
  2. Oi Michas!
    Tudo bem?

    Como sempre, adorei a resenha! Fiquei com vontade de ler, até porque me pareceu que os pontos positivos superam a irritabilidade que a protagonista causa rs
    Quero ler também os outros livros que inspiraram a história... Deve rolar algum spoiler, não?

    Pra finalizar, tenho que fazer um comentário sobre esse trecho da resenha: "Imagine você na selva, no meio da noite, fugindo de um monstro. O que você faria? Eu tentaria me esconder e salvar a minha vida. Juliet prefere ficar parada e olhar para os músculos do boy magia."
    Ri muito. Muito mesmo kkkkk
    Até acho que quando ler o livro vou me lembrar dessa sua impressão e rir novamente rsrs

    Beijos!
    http://dacarneiro.wordpress.com/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi, Dani :)

      Tudo bem sim, e com você?

      Sim, os pontos positivos da história superam em muito a chatice da protagonista. É preciso ter só um pouco de paciência com ela e estar ciente de que ela é meio boba, hehe. Eu não sabia disso, por isso, me incomodei.
      Então, ainda não sei se rola muito spoiler em relação aos livros que inspiraram a história. Comecei a ler "A ilha do Dr. Moreau" junto com "A filha do louco", mas comecei a misturar as coisas e as personalidades dos personagens, aí, pausei o clássico. Pretendo retomar a leitura ainda essa semana :)

      HAHAHAHHAH, eu não resisti! Tive que comentar essa situação no meio da selva e no meio da noite! Achei que aí, Juliet atingiu um nível de "bobice" muito alto, ahaha!

      Beijos

      Excluir
  3. Que vontade ler, Michas! Beijão!
    。◕‿◕。

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Leia sim, Raul! Depois conte o que achou :)

      Beijos

      Excluir
  4. Morri de rir do "Juliet prefere ficar parada e olhar para os músculos do boy magia", realmente o triângulo amoroso teve muito cliche e desvia o foco da história né. mas concordo com você apesar de alguns pontos fracos o livro tem uma ideia criativa e narração bacana no geral, e ainda considerando ser o primeiro da autora ele é bom sim.

    ResponderExcluir
  5. Hahahaha, não resisti e tive que comentar isso. Me irrita muito quando esse tipo de coisa acontece. Quer dizer, tá rolando um monte de coisa estranha na ilha, mas a moça tá preocupada com os músculos do cara. Vontade de mandar um "miga, quais são as suas prioridades?".
    Mas é o tipo de coisa que a gente releva justamente por ser o primeiro livro da autora. Até porque a premissa é boa e mesmo com o triângulo amoroso, o livro não perde o ritmo :)

    ResponderExcluir