Narrado em primeira pessoa e de forma epistolar, "Cartas de amor aos mortos" traz a história de Laurel, uma garota de 14 anos prestes a iniciar o Ensino Médio e que tenta superar o divórcio dos pais e a morte de sua irmã mais velha, May. Após ser abandonada por sua mãe, que partiu para a Califórnia com o intuito de superar a perda da filha, Laurel passou aos cuidados de seu pai e de sua tia Amy e faz de tudo para conseguir se sentir normal e se adaptar à sua nova vida, começando pela mudança de colégio.

Sem saber ao certo como se comportar com novas pessoas, Laurel se inspira em May, que sempre foi uma menina extrovertida, simpática e que iluminava os lugares em que entrava, fazendo amigos com muita rapidez. Para Laurel, May era incrível, descolada, um espírito livre e cheio de criatividade. May era a sua melhor amiga e a sua heroína, sempre pronta para protegê-la de todo o mal. Aos poucos, Laurel começa a se ajustar ao novo colégio, a fazer amigos - a quem jamais conversa sobre sua irmã - e a se interessar por um garoto misterioso, envolto em muitos mistérios e que sabe quem ela é: a irmã de May. 

Um dia, na aula de inglês, a professora pede a todos que escrevam uma carta a alguém que morreu e Laurel decide escrever a Kurt Cobain, vocalista do Nirvana que cometeu suicídio em 1994 e por quem May era completamente fascinada. Após concluir a tarefa, Laurel resolve não entregá-la à professora e continua escrevendo em seu caderno cartas a diversas personalidades que já morreram. A cada uma delas conta os acontecimentos de sua vida e conversa sobre as pessoas que dela fazem parte.

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Deixem-me contar uma coisa para vocês: quando eu era adolescente, tive uma fase rebelde e era completamente viciada nas músicas do Nirvana e, assim como May, era fascinada pela imagem de Kurt Cobain. Logo, quando descobri que a protagonista e narradora de Cartas de amor aos mortos escrevia para ele, pensei: "Meu Deus! Preciso ler esse livro para ontem!". 

Assim que recebi o livro, comecei a leitura e, mesmo com uma ótima fluidez, confesso que durante boa parte da história fiquei "enrolando" para terminar. Não queria que acabasse, não queria me despedir de Laurel e muito menos de seus amigos. Ava Dellaira construiu adolescentes muito cativantes e realistas, além de uma história envolvente. Gostei de como só podemos "enxergar" May através dos olhos de Laurel e como essa visão vai mudando conforme a protagonista amadurece. A relação entre as duas irmãs é, provavelmente, a minha parte preferida de todo o livro.

A causa da morte de May não é apresentada logo no início, então, cabe ao leitor ficar tentando adivinhar o que teria acontecido com ela durante boa parte da leitura. Por meio de suas cartas, Laurel tenta entender o que passava pela mente de sua irmã nos últimos meses de sua vida e começa a questionar se realmente a conhecia. 

Temas típicos da adolescência - como o primeiro amor, a descoberta da sexualidade e a busca por uma identidade - são abordados no livro e, enquanto isso é parte do encanto, também é um dos fatores que mais me incomodaram durante a leitura. Sinto que Ava Dellaira exagerou na quantidade de drama em sua história, de verdade. Acredito que a história de Laurel superando a morte de May enquanto tenta conhecê-la e se conhecer e, ao mesmo tempo, se adaptar à uma nova vida já era o suficiente. E essa foi a linha que a autora seguiu durante boa parte da história, porém, quase no final, Dellaira joga uma bomba no colo do leitor e é aí que tudo começa a perder a coerência, pois não explora o assunto e deixa tudo "resolvido" de forma bem superficial. A sensação que ficou é que a autora queria fazer o leitor chorar. Como se a história toda já não fosse bastante deprimente.

Por ser escrito na forma de cartas, o livro traz uma narrativa em primeira pessoa, o que permite uma maior identificação com a história e a protagonista, mas também pode ser enfadonho para alguns leitores, já que é um monólogo. O fato de Laurel escrever para personalidades mortas é bastante interessante por dois motivos: 1) referências musicais, cinematográficas e literárias; 2) mostra a dificuldade de Laurel em se comunicar com aqueles ao seu redor, fazendo com que prefira conversar com pessoas que a inspiram.

Porém, há algo que me incomodou nas cartas: o fato de Laurel contar à pessoa a quem escreve fatos da vida dele/dela. Não faz sentido, tendo em vista que o morto sabe o que fez, certo? E isso não acontece apenas na primeira carta a cada um deles - o que poderia ser visto como uma forma da autora de contextualizar o leitor -, mas em absolutamente todas. E isso acabou deixando a história meio difícil de acreditar em algumas partes. Ainda assim, isso não chega a ser um empecilho, apenas algo que pode incomodar alguns leitores.

Com os aspectos positivos e negativos do livro devidamente apontados, ainda considero Cartas de amor aos mortos uma leitura interessante e envolvente que deve agradar a muita gente. Por isso, recomendo a leitura, mas esteja avisado: é um livro triste e incoerente em alguns aspectos. Creio que quem gostou de "As vantagens de ser invisível", "Quem é você, Alasca?" e, talvez, "O apanhador no campo de centeio", possa gostar dessa história.

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2 Comentários

  1. Michelle Araújo3 de julho de 2014 17:39

    Adoro suas resenhas Michas *-* e seu blog é super fofo!
    Parabéns :*

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  2. Desde que lançou lá fora to querendo ler esse livro... O q me preocupa e q todo mundo fala q quem gosta de as vantagens de ser invisível vai gostar desse e eu odiei ele kkk ai tenho aquele medo de me decepcionar..
    Forever a Bookaholic
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