Sobre ressacas literárias

Hoje quero falar um pouco sobre um mal que, eventualmente, aflige a quase todos os leitores: as ressacas literárias. Para quem não sabe do que estou falando, calma que eu explico. Ressaca literária é quando, por algum motivo desconhecido, você não consegue se prender a nenhuma leitura. Não é não sentir vontade de ler, é sentir muita vontade de ler e simplesmente não conseguir porque nenhum livro te atrai ou te envolve, mesmo que você tenha aguardado ansiosamente o momento daquela leitura.

As causas de uma ressaca literária podem ser diversas; a conclusão de um livro ou série muito bons, a participação muito intensa em uma maratona literária e a desmotivação que resulta de uma leitura muito trabalhosa ou tediosa são apenas alguns exemplos. E quando ela chega, o desespero impera e é justamente neste momento que as coisas podem piorar. Ao perceber que não estão se deixando cativar por um livro que parece incrível, muitos leitores às vezes resolvem ler mesmo sem vontade e a atividade acaba por se tornar maçante e, pior, o livro incrível se revela uma grande chatice. O horror! O horror!



Nas ultimas semanas fui acometida por esse mal e, caros leitores, a luta tem sido complicada. De repente, Fitzgerald não era mais aquele escritor sensacional, mas um chato que só sabe reclamar da vida com personagens superficiais. Repito: o horror! O horror! Quando uma coisa dessas começa a acontecer, a gente passa a encarar as nossas leituras com uma perspectiva diferente. Eu, com muito pesar no coração, decidi que a melhor coisa para mim e para Fitzgerald seria deixar Este lado do paraíso quietinho por uns tempos. Fitz, não é você, sou eu.

Aí, parti para Por isso a gente acabou, de Daniel Handler. Descobri que Min, a protagonista, é tão chata, superficial e pseudo-intelectual quanto Amory Blane, o protagonista do livro do Fitzgerald. Epa, tem coisa errada aí! E é claro que a leitura empacou. Achei que por causa da Copa do Mundo estava negligenciando as minhas leituras e, por isso, decidi participar de uma maratona literária; cometi um erro, como ficou claro pelas situações citadas acima. Estava me forçando a ler para cumprir uma meta e isso não foi nada legal. Ler era para ser divertido e não uma obrigação do tipo escolar.

Em algum momento entre a Copa do Mundo e Este lado do paraíso entrei, sem motivo aparente, em uma ressaca literária e tentei me livrar dela da pior maneira possível. Não façam como eu, ok? Depois dessa experiência, percebi que a melhor forma de se curar de uma ressaca literária é justamente não ler. Dói, eu sei, mas às vezes é necessário. É tudo pelo bem maior. Evite se obrigar a fazer uma leitura - e, consequentemente, estragar a experiência - e aproveite o tempo que gastaria lendo em outras atividades. Filmes e séries de TV são sempre uma ótima escolha; e se você for como eu, que tem uma lista de filmes para assistir tão longa quanto a de livros para ler, poderá pelo menos tirar algo de proveitoso da ressaca literária, né?

Assistir a vídeos de canais literários é outra opção, porque ver tanta gente empolgada falando sobre livros pode te ajudar a voltar a ler. Mas, se ao pegar o livro, sentir aquela pontada de obrigação voltando, abandone a leitura imediatamente. Repito: é para o bem maior. O segredo é ter calma e não se obrigar a ler; quando menos esperar, estará curado e poderá voltar a amar a experiência de leitura. Fiz isso durante essa semana - mesmo em maratona! - e nas poucas vezes em que senti vontade de ler, consegui, aos poucos, aproveitar a leitura e me divertir. Sem me pressionar e com calma, consegui terminar duas leituras que estavam abandonadas há meses; o Fitzgerald ainda está esperando, um dia eu volto, prometo! Aos poucos, vou me livrando da ressaca e acredito que em poucos dias estarei curada. Me desejem sorte!

Texto originalmente publicado na coluna Literalmente Falando, do blog Literature-se.

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