"Frankenstein", livro clássico do terror e marco da ficção científica, surgiu de uma forma interessante. Durante uma temporada chuvosa e entediante de férias, Mary Shelley, seu futuro marido e um grupo de amigos - entre eles, Lord Byron - resolveram contar histórias de terror e chegaram ao acordo de que, até o fim da viagem, todos deveriam escrever uma história a ser compartilhada. E foi a partir deste desafio que nasceu "Frankenstein ou o moderno Prometeu" (título original).

O romance, que traz elementos da literatura de terror gótica e do romantismo, foi publicado pela primeira vez em 1818, quando Mary Shelley tinha apenas 19 anos. No entanto, ao longo de sua vida, a autora fez algumas alterações em sua obra, de forma que a versão que temos hoje e que é considerada como a edição definitiva é a terceira edição, de 1931.

Logo no início da leitura, somos apresentados à Robert Walton, comandante de uma expedição ao Polo Norte que se corresponde com sua irmã, a quem conta o que ocorre durante a viagem. É a partir das cartas de Walton que o leitor tem conhecimento de Victor Frankenstein, um homem que foi encontrado à deriva no oceano pela tripulação de Walton. Após recobrar a consciência, o sobrevivente passa a narrar a sua história.

Nascido em uma família abastada, Victor Frankenstein sempre teve tudo do bom e do melhor, fazendo parte dos círculos sociais influentes de sua comunidade e tendo acesso à melhor educação. Ao completar 17 anos, ingressa na universidade e passa a se interessar por ciência, filosofia, alquimia e pela questão da origem da vida. Depois de muito estudar sobre tais assuntos, ele descobre o segredo para criar um ser humano e resolve fazer um experimento. Bem sucedido, se assusta e foge, abandonando sua criatura.

Anos se passam e Frankenstein retoma a sua vida em sua cidade natal, se aproximando de sua família, amigos e da moça com quem sonha casar algum dia. Porém, coisas estranhas passam a acontecer nas redondezas e ele desconfia de que tenham relação com o que fez no passado. Em determinado momento, Victor e sua criatura se reencontram e, a partir deste ponto, temos conhecimento do que veio a acontecer com a criatura, que ao longo dos anos conseguiu sobreviver, aprendeu a se comunicar e até a desenvolver pensamentos filosóficos e sociais.

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Há anos queria ler "Frankenstein" e, depois de muita enrolação, finalmente o fiz! Sinceramente, esperava gostar mais; considero a experiência de leitura bastante válida e, de certa forma, enriquecedora, mas não vou mentir: não a achei prazerosa. Acredito que essa sensação tenha resultado da forma como a narrativa é estruturada e dos personagens - com os quais pouco me identifiquei.

É um pouco complicado explicar como a história é estruturada, mas vamos tentar. A narrativa tem início com as cartas que Robert Walton escreve para sua irmã; nelas ele explica como conheceu Victor Frankenstein e anexa o relato do mesmo. Neste momento, temos um segundo narrador que conta a história de sua vida e anexa ao seu relato aquele feito pela criatura, narrando os acontecimentos de sua recente existência durante o período em que esteve distante de seu criador. Logo, o que temos é uma história dentro de outra história, que por sua vez, está dentro de outra. Por se tratar de narrativas em primeira pessoa, é difícil para o leitor conferir a credibilidade de tudo o que é dito. Não é possível saber, por exemplo, se tudo que a criatura diz que fez é verdade, porque quem narra o relato dela é Victor Frankenstein.

Sobre o protagonista, pouco tenho a dizer, exceto que não gostei dele. A impressão que ficou é que Victor Frankenstein é um ser mimado e covarde que não sabe lidar com as consequências de seus atos. Em sua narrativa fica o tempo todo tentando se justificar, se fazendo de vítima - como se não tivesse culpa alguma em relação aos acontecimentos ruins na história - quando, na verdade, tudo o que ocorre resulta de suas decisões. Durante boa parte da leitura, me questionei sobre quem seria o verdadeiro monstro na história: a criatura - que não pediu para existir e que, por conta de ter sido abandonada, comete atrocidades - ou Frankenstein. Por outro lado, a criatura não é de todo inocente; principalmente quando fica obcecada por vingança.

Na narrativa, me incomodei com as repetições e também com o excesso de sentimentos. Este último, reconheço que seja um recurso da literatura da época, do Romantismo que fazia uso dos sentimentos e também das descrições da natureza. Porém, não encontro explicação para os personagens se repetirem o tempo todo, deixando a leitura enfadonha em algumas partes. Há também o fato de que é difícil acreditar em alguns fatos, como, por exemplo, uma criatura recém-nascida já ser capaz de andar e, aos três anos, já conseguir ler e filosofar. Mas, uma vez que o leitor aceita esses acontecimentos como uma verdade, a leitura flui melhor.

Como já expliquei, mesmo não achando a leitura prazerosa, estou feliz por tê-la realizado. O que mais me fascinou em "Frankenstein" é a atualidade de sua história. Ainda que, para mim, o livro se aproxime mais da ficção científica, não há como negar que o avanço da ciência e a sua utilização de forma descontrolada, sem pesar suas consequências, pode gerar enredos aterrorizantes. E é justamente aí que está a beleza da obra de Mary Shelley, que levanta questões que continuam a fazer sentido dois séculos depois de sua publicação. Assim, a leitura de "Frankenstein" é importante, válida e recomendada à todos os que gostam de clássicos ou de ficção científica.



A minha edição é em capa dura, com jacket e traz o texto em inglês. As páginas são amareladas e trazem um corte diferente, como mostro na foto. Este livro faz parte de uma coleção de clássicos chamada Signature Editions, lançada aqui no Brasil exclusivamente pela livraria Saraiva em parceria com a Sterling Publishing. Além da obra de Mary Shelley, a edição traz introdução e notas de Allen Groove.



Título original: Frankenstein, or The Modern Prometheus
Autora: Mary Shelley
Editora: Sterling Publishing/Saraiva
Páginas: 214
ISBN: 9781435151345


Um Comentário

  1. Olá Michele, no meu blog - o Kika Butterfly - tem comentário sobre este livro, caso se interesse em ler.

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