Sobre leituras obrigatórias


Hoje quero conversar com vocês sobre elas, as temidas e odiadas leituras obrigatórias. Seja por conta da escola, da faculdade ou por imposição pessoal, todo leitor, ao longo de sua vida, depara com a complicada situação de ter que ler algo sem vontade. E como toda ação tem reação, logicamente, isso acarreta as mais diversas consequências.

Neste primeiro post, vamos falar sobre o tipo mais comum de leitura obrigatória: aquele imposto pelas instituições de ensino, mais precisamente pelo ensino médio. Não é segredo para ninguém que já tenha passado pelo ensino médio que os alunos devem realizar determinadas leituras com o intuito de se tornarem aptos para prestar o vestibular. Na lista de leitura: clássicos nacionais escritos por nomes de peso como Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa e Machado de Assis. Observando a situação de longe e de forma ampla, tudo parece lindo e maravilhoso. "Olha só, que legal! Posso aprender sobre os diferentes períodos da história brasileira por meio da literatura!" Mas não é bem assim que a banda toca.

Claro que, ao introduzir os alunos aos clássicos nacionais, as escolas, além de mostrar uma valorização da nossa literatura, também os apresenta a diferentes contextos que marcaram a nossa história e, consequentemente, a nossa cultura. É inegável que a leitura de clássicos - nacionais e mundiais - proporciona experiências de imersão em diferentes realidades e permite aos leitores uma maior compreensão do mundo, da sua posição nele e da História. Porém, há de se considerar alguns aspectos no que diz respeito a aceitação das obras por parte dos alunos.

Tendo como base a minha experiência como vestibulanda - que ocorreu há uns sete anos! -, foram poucas as leituras selecionadas que me permitiram sentir aquela identificação com os personagens, com o enredo e o desenrolar dos acontecimentos. Não que eu tenha achado todos os livros um verdadeiro pesadelo, mas, no auge de meus 16 anos, sinto que me faltava a maturidade para compreender muito do significado daquelas obras. Peguemos como exemplo Iracema, de José de Alencar. O livro, tido como um dos principais títulos da primeira geração do Romantismo brasileiro, é compreendido como uma explicação poética do autor para o surgimento do Ceará, a sua terra natal. Tem todo um simbolismo envolvendo Iracema, a virgem dos lábios de mel, e Martim, o colonizador europeu. E apesar dessa visão bastante lírica, para mim, tudo não passava de uma história de amor entre uma índia e um português; tipo a Pocahontas com o John Smith na versão da Disney, entendem?

Há também o fato de que nem todos os alunos, ao chegarem ao ensino médio, gostam de ler e/ou desenvolveram o hábito de leitura. Logo, o primeiro contato deles com a literatura é por meio de livros escritos no século XIX - ou antes -, com um vocabulário com o qual não estão habituados e histórias com as quais não se identificam. Ah, e eles são obrigados a realizar tais leituras porque estas são requisitos para uma prova que poderá, ou não, ajudá-los a ingressar na universidade. Com essa situação em mente, não é difícil entender porque tanta gente nunca mais pensou em abrir um livro depois de deixar a escola.

Por favor, entendam que, de forma alguma, sou contra a exigência da leitura de clássicos brasileiros nas escolas. Muito pelo contrário, acredito sim que é preciso ter contato com a nossa literatura, com a nossa cultura. Certamente, além de ensinar, o ensino médio deve preparar os alunos para os vestibulares e, por isso, os estudantes lidam com uma série de obrigações impostas não apenas pelas aulas de literatura, mas por todas as disciplinas. Sabendo disso, penso que o correto seria estimular o prazer pela leitura durante o ensino fundamental. Uma vez que a pessoa já gosta de ler, fica mais fácil lidar com os temidos clássicos do vestibular, certo?

Mais uma vez vou fazer uso da minha própria experiência. Comecei a minha história como leitora logo que fui alfabetizada, com os livros sugerido pelos meus pais e professores e com revistinhas da Turma da Mônica. Assim, desde muito cedo já gostava das palavras e de como, quando combinadas, elas eram capazes de me entreter por horas. A transição das revistinhas para os livros ilustrados e, mais tarde, sem figuras e com mais de 100 páginas, foi algo bem natural para mim; de forma que quando cheguei ao ensino médio, mesmo passando por uma verdadeira via sacra para concluir algumas leituras, não as considerei um obstáculo impossível e nem fiquei com trauma de livros.

É certo que ainda torço o nariz toda vez que ouço os nomes José de Alencar e Eça de Queiroz (autor português, mas estudado aqui no Brasil também), mas felizmente o mesmo não pode ser dito sobre Machado de Assis, autor de um dos únicos livros que li por obrigação e gostei. Penso que ainda precisarei de uns anos antes de tentar ler novamente algum dos clássicos ou dos autores que me foram impostos naquela época. Mas esse é um projeto em desenvolvimento, assim como o de ler mais livros nacionais. Com tempo e paciência, acabo com o preconceito que resultou das obrigações do vestibular.

Também gostaria de falar com vocês sobre o segundo tipo de leituras obrigatórias, aquele que é imposto por nós. Mas como o post já está grandinho, vou deixar esta discussão para uma outra ocasião, tudo bem? 

Texto publicado originalmente na coluna Literalmente Falando, do blog Literature-se.

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