Após ser baleada por um membro do Talibã, em 2012, Malala Yousafzai se tornou conhecida em todo o mundo e muitos questionaram os motivos para uma garota de 15 anos ser considerada uma ameaça. Um ano depois, já recuperada e refugiada 3em outro país, Malala resolve contar a sua história em um livro.

O homem usava um gorro de lã tradicional e tinha um lenço sobre o nariz e a boca, como se estivesse gripado. Parecia um estudante universitário. Então avançou para a porta traseira do ônibus e se debruçou em nossa direção. 'Quem é Malala', perguntou (...). Minhas amigas mais tarde me contaram que a mão do rapaz tremia ao atirar. Quando chegamos ao hospital, meu cabelo longo e o colo de Moniba estavam cobertos de sangue. Quem é Malala? Malala sou eu e esta é minha história. (p.17)

Nascida no Vale do Swat - região que faz parte do território Paquistanês, apesar de funcionar quase como um estado independente dentro de outro estado -, desde muito pequena Malala lidou com a diferenciação muito nítida feita entre homens e mulheres na região em que vivia. Enquanto os meninos podiam fazer o que bem entendessem, além de pensar em sua educação e sucesso profissional, as meninas deveriam se comportar, se preocupando com os afazeres domésticos e com um bom casamento. Mesmo dentro de tal contexto, Malala sempre recebeu incentivo de seu pai, Ziauddin, para que estudasse e sonhasse em ser algo mais do que uma esposa e uma mãe.

Após a chegada do Talibã ao Vale do Swat, teve início um período de repressão, em que novas leis foram impostas e quem ousar desobedecê-las deve arcar com as consequências, que vão desde açoitamentos públicos à execuções. Meninas foram proibidas de frequentar as escolas e as mulheres instruídas a permanecer dentro de casa e só sair com a companhia de um homem de sua família. Ziauddin não aceitou os termos e, sendo dono de uma escola, continuou incentivando a educação de meninas.

Sentíamos que o Talibã nos via como pequenos bonecos a ser controlados, aos quais se dizia o que fazer e como vestir-se. Pensei que se Deus quisesse que fôssemos assim, não nos teria feito diferentes uns dos outros. (p.135)

Assim como o pai, Malala também passou a lutar por seus direitos e frequentemente participava de palestras em que falava para meninas sobre a importância de ir para a escola e do valor que tem o ensino. Em 2009, participou de um documentário para o New York Times (aviso: o documentário tem cenas fortes de violência, como corpos expostos e decapitados) em que falou um pouco sobre o período em que teve que abandonar os estudos por conta de constantes bombardeios entre soldados paquistaneses e americanos (Osama Bin Laden estava escondido em um local bem próximo ao Swat) sofridos por sua cidade. No vídeo, mais uma vez, ela foca na importância da educação para crianças - meninos e meninas - em todo o mundo.

Em "Eu Sou Malala" a jovem fala a respeito de sua infância no Vale do Swat e de como a região sofreu com a chegada do Talibã após o terremoto de 2005, narrando alguns dos acontecimentos históricos que marcaram o território. Ela também conta como foi se recuperar após o atentado contra a sua vida e de como se estabeleceu, junto com a sua família, na Inglaterra.

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Narrado em primeira pessoa pela própria Malala, o livro é dividido em cinco partes ("Antes do Talibã", "O vale da morte", "Três meninas, três balas", "Entre a vida e a morte" e "Uma segunda vida") em que ela explica um pouco da história do Vale do Swat e dos motivos que o tornam tão distinto do resto do território paquistanês. Ao tratar da história de seu país, Malala também apresenta um parâmetro social, econômico e político do Paquistão, deixando claro que lá as taxas de analfabetismo são muito altas, o que contribui bastante para a corrupção e para o avanço do Talibã, que deturpa os ensinamentos do islamismo, de forma a manipular a população de acordo com seus objetivos.

Nosso povo ficou desorientado. Pensa que o mais importante é defender o Islã e é malconduzido por aqueles que, como o Talibã, interpretam deliberadamente o Corão de forma errada. Devíamos nos concentrar em problemas práticos. Há tantos analfabetos em nosso país! As mulheres, sobretudo, não têm nenhuma instrução. Vivemos numa nação onde pessoas explodem escolas. Não dispomos de fornecimento confiável de energia elétrica. Não se passa um único dia sem o assassinato de pelo menos um paquistanês. (p. 234)

Além do campo político, social e econômico, o leitor também tem conhecimento do cotidiano da região e da vida familiar de sua narradora. Desde o início fica claro que Malala é uma adolescente como qualquer outra - ela gosta de escutar Justin Bieber, de assistir Ugly Betty e os filmes da série Crepúsculo -, com conflitos interpessoais, dúvidas e descobertas próprios dessa fase da vida. A linguagem é bem acessível. Acredito que isso se deva tanto ao fato de ter sido escrito por uma adolescente, quanto ao fato de o inglês não ser a língua nativa de Malala. Aliás, vale mencionar que o livro foi escrito com a ajuda da jornalista Christina Lamb. Não fica claro até que ponto a jornalista a auxiliou e até onde tudo o que está escrito foi ideia original de Malala, o que não muda de forma alguma a importância da obra.

Gostei bastante da leitura de "Eu sou Malala", que está entre os favoritos de 2014. Me identifiquei com Malala em alguns momentos e, de certa forma, a experiência de leitura de seu livro despertou em mim emoções muito próximas das que senti lendo "O Diário de Anne Frank". Talvez isso tenha ocorrido por ambos os livros trazerem os relatos de meninas que ainda muito jovens tiveram contato com a extrema violência. Felizmente, o destino de Malala foi positivo e hoje, já recuperada, ela continua com sua luta para que todas as crianças do mundo tenham acesso à educação. Em 2013, participou de uma conferência da ONU e no ano passado se tornou a mais jovem vencedora do Prêmio Nobel da Paz.

Além de bastante inspirador, o livro também é bastante interessante por tratar um pouco da história do Swat e do Paquistão. Confesso que, antes da leitura, tinha pouco conhecimento sobre estas regiões e o que sabia vinha de algumas notícias que li na internet e que sempre me deixavam confusa. Malala contextualiza sua história de forma a tornar um pouco mais clara para o leitor do mundo ocidental a realidade em que vivem muitos paquistaneses. Ela também frisa a importância de não classificar todo e qualquer muçulmano como terrorista, explicando que o Islã é uma religião que prega a paz e a igualdade, enquanto o Talibã distorce tudo para alcançar seus objetivos.

Eu não conseguia entender o que o Talibã queria fazer. 'Eles estão caluniando nossa religião', falei em entrevistas. 'Como você vai aceitar o Islã se eu apontar uma arma para sua cabeça e afirmar que o Islã é a verdadeira religião? Se eles querem que todas as pessoas do mundo sejam muçulmanas, por que primeiro não se mostram bons muçulmanos?' (p. 159)

Acredito que, levando em consideração o momento que estamos vivendo, esta mensagem é bastante válida. Leitura recomendadíssima!

Livro cedido pela editora em parceria com o blog.


4 Comentários

  1. Acho a história de Malala muito interessante e tudo que ela lutou. Não costumo ler este tipo de livro, mas acredito que depois que eu ler O Diário de Anne Frank, eu vou querer me aventurar por "diários".

    http://refugiorustico.blogspot.com.br/

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  2. Estou louca para ler esse livro! Desde o terrível ato de violência, passei a ver Malala como uma exemplo de coragem e comprometimento. Também sei pouco sobre o Paquistão, e não tenho dúvidas de que aprenderei muito com o livro.
    Bacana você ter comparado as emoções que sentiu com O Diário de Anne Frank. Foi a mesma coisa que aconteceu comigo quando eu li Doze Anos de Escravidão.
    Beijos!

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  3. Oi, Maria

    O livro é bastante interessante e inspirador em alguns momentos. Não chega a ser um diário, como o de Anne Frank, mas conta com relatos das experiências vividas por Malala.
    Espero que goste :)

    Beijos

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  4. Oi, Lê :)


    O livro é muito interessante. Do tipo que te faz pensar na vida e de como, apesar dos problemas que temos aqui, tem gente em situação muito pior, sabe? Além de esclarecer bastante coisa sobre o Paquistão e até sobre o Islã. Gostei bastante.


    Ainda não li "Doze anos de escravidão". Morro de vontade, mas confesso que tenho um pouco de medo. Sinto que deve ser bem forte e que vou ficar meio deprimida enquanto estiver lendo.


    Beijos

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