Sobre atropelar leituras


Oi, meu nome é Michelle e eu tenho um sério problema: eu atropelo as minhas leituras. Hoje quero conversar com vocês sobre um hábito que tenho como leitora e que vem me incomodado um pouco ultimamente. Venho, por meio deste post, procurar aqueles que como eu também sofrem deste mal e, quem sabe, encontrar alguma justificativa para tal comportamento.

Mas antes, vamos às explicações. O que quer dizer atropelar as leituras? Basicamente, atropelar uma leitura consiste em você largar um livro por conta de outro, mas não porque o primeiro seja ruim, e sim porque o segundo promete ser igualmente interessante. Vou exemplificar com uma situação real pela qual passei nesta última semana. Estou lendo o comentadíssimo Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie, e gostando muito da leitura; porém, recentemente, recebi um exemplar de Objetos cortantes, da famosa Gillian Flynn, que me intriga bastante, pois adoro um bom livro policial e morro de curiosidade para conhecer o trabalho da autora. Resultado: atropelei a leitura de Americanah e comecei Objetos cortantes. Não abandonei a leitura do primeiro, mas estou intercalando com a leitura do segundo. Ambos os livros, cada um à sua maneira, são bons.


Agora, pensem que antes de começar Americanah, atropelei a leitura de Razão e Sensibilidade, clássico de Jane Austen, autora cujo trabalho me agrada bastante. Estou lendo os três livros ao mesmo tempo; quatro, se somarmos o Profissões para mulheres e outros artigos feministas, de Virginia Woolf, que estou lendo mais devagar. Ah, tudo isso e mais o As aventuras de Robin Hood, de Alexandre Dumas, que está em stand by durante o mês de março. Entendem onde quero chegar? É muita leitura simultânea para pouco tempo. É muita vontade de ler várias coisas para uma pessoa só.

Juro para vocês que não sei o porquê deste meu comportamento. Não sei por qual razão sofro de tamanha impaciência que me impede de agir de forma normal e ler apenas um livro de cada vez. Se formos considerar que estou lendo uns cinco livros ao mesmo tempo, obviamente, não terminarei nenhum deles tão cedo, logo, esse comportamento não tem lógica alguma e só atrasa mais as leituras. 

Em uma tentativa de desvendar o mistério do meu atropelar das leituras, usei a desculpa de que intercalo livros para não me enjoar das histórias. Ou a de que tenho tanta sede por novas tramas que, simplesmente, começo a ler tudo de uma vez. A primeira desculpa até faria sentido se eu estivesse intercalando dois tipos diferentes de texto - um romance e uma biografia, por exemplo -, mas o que acontece está longe disso. Apenas um livro é de não-ficção, enquanto os demais diferem apenas no estilo de história. No fundo, acho que a segunda desculpa tem um certo fundo de verdade. Tenho sim muita vontade de conhecer diferentes histórias, explorar novos universos e, claro, conhecer o trabalho de muitos autores; porém, há de se concordar que dá para fazer tudo isso com uma dose de calma e paciência, certo? Acho que o que rola é aquele desespero de saber que há muita coisa boa para ser descoberta na literatura e que, por mais que tentemos, não iremos conseguir ler tudo o que existe para ler no mundo. A vida é curta, infelizmente.

Assim, tentamos nos contentar com aquilo que conseguimos ler e fazemos o possível para não esbarrar em livros ruins pelo caminho. E, claro, atropelamos as leituras. As atropelamos na esperança de que, agindo dessa forma, o desespero de saber que a vida é curta será amenizado, afinal de contas, estamos lendo o máximo que podemos em um curto espaço de tempo, certo? Bom, não sei em relação a vocês, mas para mim é errado. Por mais que eu tente me convencer que esse hábito deixa as minhas leituras mais dinâmicas, sei que não é bem assim que me sinto em relação a elas. Em uma das prateleiras do meu quarto, coloco os livros que estão em andamento e, ultimamente, quando olho para ela sinto um incômodo, porque 1) não era para ter tanta coisa lá e 2) estou gostando de todos os livros, então não sei qual deles escolher para ler antes de dormir. E, acreditem, isso é bem perturbador, porque perco uns bons minutos tentando escolher qual será a leitura da noite. Minutos que poderiam ser gastos com a leitura propriamente dita. Viram só? Não faz sentido algum. 

Ah, e acabei de me dar conta de que também estou lendo A Dança dos Dragões, de G.R.R. Martin. É, mais essa. E o livro é enorme. Acho que já deu para ter uma ideia do caos que anda a minha vida de leitora, né? Drama à parte, sei que não estou sozinha, então, se tiver alguém aí na mesma situação, sinta-se abraçado, ok? Não surte, vai dar tudo certo. E se alguém já passou por algo parecido, por favor, diga como foi que você fez para sair dessa situação ou para abandonar esse hábito? Sua ajuda será muito bem-vinda. Obrigada.

Texto originalmente publicado na coluna Literalmente Falando, do blog Literature-se.

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