Desde que entrei em contato com o trabalho de Neil Gaiman, em 2013, tenho certo fascínio em relação ao autor. Não, não conheço nem de longe tudo o que ele já escreveu, mas gostei do pouco que li (“Lugar nenhum”, “O oceano no fim do caminho” e “Fortunately, the Milk...”). Assim, quando soube que a Intrínseca lançaria uma nova edição de “Os filhos de Anansi” este ano, fiquei bastante empolgada. Afinal, Neil Gaiman é um cara legal, gosta de Doctor Who e escreve histórias de fantasia bem criativas e com senso de humor; logo, o que poderia dar errado? Tudo, meus caros.

Em “Os filhos de Anansi” – que não é uma continuação de “Deuses Americanos”, mas, talvez, algo como um spin-off -, somos apresentados à Fat Charlie Nancy, um sujeito bastante azarado e meio fracassado. Durante a infância, Fat Charlie se sentia constantemente humilhado por seu pai, Anansi, que o fazia passar pelas mais constrangedoras situações - que normalmente envolviam um jeito espalhafatoso de se vestir e apresentações de karaokê - e que o transformavam em motivo de piada entre os colegas de escola.

Quando o livro tem início, Fat Charlie – que abandonou os Estados Unidos e seu pai para morar na Inglaterra – vive de forma bastante medíocre, trabalhando para um indivíduo detestável em um escritório que odeia e planejando seu casamento com Rosie, cuja mãe o despreza com todas as forças do universo. Tudo começa a mudar quando Rosie lhe pede para convidar Anansi para o casamento e ele se vê obrigado a enfrentar o seu passado humilhante. 

Ao chegar aos EUA, Fat Charlie é informado de que seu pai está morto e também descobre que ele era, de fato, o deus africano Anansi. O motivo para Fat Charlie não ter poderes é porque estes haviam sido herdados apenas por seu irmão, Spider, cuja existência Fat Charlie ignorava completamente. Alguns dias depois, Spider visita Fat Charlie e transforma a sua vida em um completo caos que envolve magia, troca de identidade e seres mitológicos malignos e vingativos.

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É complicado definir o tipo de história presente em “Os filhos de Anansi”, visto que há uma mistura de diferentes gêneros. Há elementos de fantasia, comédia, sobrenatural e, de acordo com o próprio autor, thriller. A narrativa é simples e flui muito bem, principalmente no início. Os títulos dos capítulos, além de divertidos, combinam com o tom da história, que está carregada do humor característico do texto de Neil Gaiman. 

Meu problema com o livro se deve ao desenvolvimento do enredo e à construção bastante falha de mundo e personagens. Durante toda a leitura fiquei com a sensação de que algo estava faltando ao livro até que me dei conta de que se eu tivesse que fechar o livro e nunca descobrir o final, não lamentaria. O fato é que não senti absolutamente nenhuma identificação com nenhum dos personagens e isto é um problema enorme, porque se não gostei dos personagens e/ou não consigo acreditar que eles existem - ainda que seja em uma obra de ficção -, fica difícil manter o interesse pela história.

História esta que, por sua vez, poderia ter sido interessante não fosse a maneira como foi executada. A impressão que tive foi a de que Neil Gaiman teve uma ideia muito boa e que fazia todo o sentido do mundo na cabeça dele, porém, na hora em que ele foi passar para o papel, alguma coisa se perdeu e o resultado foi um livro frustrante, cheio de buracos. Senti falta de uma apresentação mais detalhada do mundo paralelo/fantasioso que ele apresenta, assim como dos elementos da lenda na qual ele se inspirou para criar a história. Em alguns momentos, o autor chega a fazer uso de certa metalinguagem ao utilizar a sua história para falar sobre a criação de histórias, mas no meio de toda a confusão do enredo mirabolante, esta parte ficou meio esquecida.

Dificilmente recomendaria este livro para alguém que nunca teve contato com o autor. Para estes, ainda acho que “Lugar nenhum” seja uma melhor porta de entrada. Aos que já conhecem o estilo de Neil Gaiman e ficaram na dúvida em relação a “Os filhos de Anansi”, sugiro que não se deixem levar apenas pela minha opinião e pesquisem outras resenhas antes de se decidirem se irão ler, porque faço parte de uma minoria que não gostou da leitura.

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Livro cedido pela editora em parceria com o blog.


3 Comentários

  1. Que pena que você não gostou. Eu ainda não li mas estava curioso pra ler. Conheci a lenda de Ananci na série animada do Super Choque, e depois de fazer uma pesquisa ele se tornou um dos personagens mitológicos que mais gosto. Apesar da história simples é possivel criar um mundo fastástico bem interessante baseado apenas nesta lenda.

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  2. Marília Cristina19 de julho de 2015 12:56

    Oi Michas,

    Gostei muito da sua resenha e entendo seus argumentos para o fato de não ter gostado do livro. A não identificação com os personagens, sejam eles os principais ou não, faz com que a leitura fique entediante, chata, lenta. Por isso, acredito que se você não conseguiu aceitar a verossimilhança dentro da ficção proposta, o resultado da sua leitura não poderia ter sido diferente. Mesmo assim, acredito que darei uma chance ao livro e daí, quem sabe, poderemos discutir sobre. O que acha?

    Beijinhos!!!

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  3. Oi, Marília :)

    Pois é, o fato de não conseguir me identificar com os personagens foi um problemão. A história em si também não me cativou, mas acho que se tivesse gostado dos personagens, teria me interessado mais pela história. Uma pena, porque a ideia, ainda que mirabolante, parecia legal. Espero que você goste mais e já aguardo a sua opinião, hehe :)

    Beijos

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