Meu livro preferido de 2014 foi "As virgens suicidas", de Jeffrey Eugenides (clique aqui para ler a resenha). Assim, quando soube que a Companhia das Letras publicaria "Middlesex", considerado por muitos a obra-prima do autor e vencedor do Pulitzer em 2002, fiquei muito empolgada em relação à leitura. Recentemente pude ter contato com a obra e cá estou para contar para vocês o que achei.

Em "Middlesex" o leitor é apresentado à Cal Stephanides, americano de origem grega que vive em Berlim e decide contar a sua história. Nascido Calíope Stephanides, Cal renasceu como um rapaz adolescente na década de 1970, mas antes de chegar a este momento de sua existência, ele decide voltar até o período de seus avós, quando estes ainda viviam na Grécia.

Desdêmona e Esquerdinha Stephanides são irmãos e após a morte de seus pais e a invasão Turca do vilarejo em que viviam, partem para os Estados Unidos em busca de melhores perspectivas para o futuro, iniciando uma nova vida como pessoas casadas. Após a chegada ao novo país, eles passam a morar com uma prima na Detroit dos início do século XX, testemunhando acontecimentos históricos como a consolidação da Ford Motors, a Lei Seca e a Grande Depressão de 1929. Anos mais tarde, Milton - o filho de Desdêmona e Esquerdinha - se casa com sua prima, Tessie, e é desta união que nasce Calíope. Logo no início de sua história, Cal explica que a origem da mutação genética que fez com que ele nascesse hermafrodita é resultado das relações incestuosas em sua família. 

Por meio de uma narrativa marcada por simbolismo, Jeffrey Eugenides apresenta ao leitor não só uma história sobre busca e construção de identidade e renascimento, mas também uma saga familiar que percorre o século XX. Antes de Calíope nascer, os Stephanides já precisavam lidar com a questão da identidade por serem imigrantes gregos em um país de cultura diferente e marcado por muita diversidade cultural. Milton, por ser o primeiro da família a nascer nos EUA, não se sente tão conectado às tradições gregas, de forma que as ações que realiza ao longo da história (lutar na Segunda Guerra Mundial, decisão de morar em uma grande casa nos subúrbios, transformar o restaurante da família em uma típica lanchonete americana, entre outros) o transformam no modelo tradicional do homem americano.

Calíope, completamente distante dos costumes e valores de sua avó, tem sua busca por uma identidade relacionada à sua sexualidade, ao fato de ter sido criada como uma menina, quando sempre se sentiu como um menino. É interessante apontar que quando ela percebe que é um menino e resolve se assumir da mesma forma é justamente durante o período em que os Estados Unidos colhem os frutos da contracultura e dos movimentos hippies, que defendiam a ideia de liberdade. 

A narrativa feita por Cal de forma não linear, marcada por referências à mitologia, tragédias e comédias gregas, é cíclica, ou seja, ecoa acontecimentos. Podemos perceber esta característica quando observamos as relações de Desdêmona com Esquerdinha e de Tessie com Milton. Há também uma situação vivida por Esquerdinha e seu cunhado que se repete com Milton quase no final do livro. Em termos de escrita, a leitura flui bem, porém, Cal não é exatamente o tipo de narrador direto. Ele se alonga em suas descrições históricas, o que pode ser considerado enfadonho para alguns, ainda assim, não chega a ser algo que atrapalhe a experiência de leitura. "Middlesex" é um livro que exige tempo, não por ser complexo, mas por ter muitas páginas. Meu conselho é não se pressionar para ler rápido e se deixar levar pela narrativa. 

Apesar de ter gostado do fundo histórico e da ideia de contar uma saga familiar (aliás, os membros da família são bastante peculiares. Desdêmona merecia um livro só para ela), o que mais me atraiu para o livro foi o fato de o protagonista e narrador ser hermafrodida. E justamente por isso esperava maior aprofundamento do autor neste aspecto, principalmente na última parte do livro, o que não aconteceu. Dessa forma, fiquei com a impressão de que o livro, com seus dois principais focos (Cal e sua busca por identidade e a história de imigrantes nos EUA) só entrega completamente um deles. Ainda assim, gostei de ter lido a obra, que se mostrou interessante e divertida em muitas partes, apesar de não ter atendido minhas expectativas. Não sei se indicaria "Middlesex" como um primeiro contato com o autor; acredito que "As virgens suicidas", por ter menos páginas e trazer um enredo intrigante, funcione melhor como porta de entrada.

Livro cedido pela editora em parceria com o blog.


2 Comentários

  1. Olá, Michas!
    Achei sensacional sua resenha e finalmente entendi o enredo do livro por completo. Não sei por qual motivo, achava que o personagem era transexual, não hermafrodita. Sendo assim, nunca ouvi falar de nenhum livro com hermafroditas e ainda mais com um motivo tão plausível, como o incesto.
    Estou ainda mais interessada com a leitura, mas pretendo começar, como todos indicam, pelo As virgens suicidas e logo depois partir para a leitura de Middlesex.
    Beijos :*

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  2. Oi, Mariana
    Desculpe pela demora em responder.
    Pois é, também não tinha entendido muito bem sobre o que era o livro, só lendo que fui entender que o protagonista é hermafrodita. É um livro interessante e que flui bem (apesar de ter muitas e muitas páginas, haha), mas ainda prefiro "As virgens suicidas". Espero que você goste das duas leituras; depois me diga o que achou :)
    Beijos

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