No início deste ano, antes de viajar para Buenos Aires, fiz algumas pesquisas sobre a cidade, lugares que gostaria de visitar e também sobre filmes e livros para conhecer antes da viagem. Assim, esbarrei em um post do blog Viaggiando, em que Camila Navarro conta as suas impressões de "O cantor de tango", livro do argentino Tomás Eloy Martínez, publicado aqui no Brasil em 2004 pela Companhia das Letras. Infelizmente, não consegui ler a obra antes de viajar, mas pude ter a experiência de leitura há alguns dias e agora conto para vocês o que achei.

Em "O cantor de tango" somos apresentados à Bruno Cadogan, um acadêmico norte-americano que estuda uma tese de Jorge Luis Borges a respeito das origens do tango. Após seguir uma recomendação de seu orientador, Bruno vai para Buenos Aires, onde sai à procura do misterioso e lendário cantor de tango Julio Martel. Pouco se sabe a respeito do cantor que, por não gostar de intermediários entre a sua voz e o público, nunca gravou um disco. Suas apresentações não são agendadas, de forma que ocorrem em horários e locais inusitados. Aqueles que tiveram a oportunidade de ouvi-lo cantar afirmam que a sua voz é tão bela como - se não for melhor - a de Carlos Gardel.

Ao chegar a Buenos Aires, Bruno irá percorrer as ruas históricas da cidade e, com o intuito de conseguir assistir a uma das apresentações de Martel - que acredita-se estar muito velho e debilitado por sofrer de hemofilia -, tenta estabelecer um padrão no roteiro das apresentações do cantor. Por meio de seus passeios e visitas a construções antigas, o leitor é transportado por Buenos Aires através do tempo; ora nos dias atuais (a história é ambientada em 2001 e tem início pouco antes do fatídico 11 de Setembro), marcados por uma iminente crise econômica, ora nos séculos passados, marcados pela imponência da arquitetura de seus palácios muitas vezes comparados aos de Londres e Paris. 
"Estranhei que Buenos Aires fosse tão majestosa acima dos segundos e terceiros andares, e tão ruinosa no nível do chão, como se o esplendor do passado tivesse permanecido suspenso no alto e se negasse a descer ou a desaparecer". (pág. 17)
A narrativa é feita por Bruno, que conversa com o leitor e, por vezes, cede espaço para os relatos de pessoas com quem encontra pelo caminho. Por meio destes diálogos, o leitor tem acesso à história de Buenos Aires, ao passado de glória e também àquele que não foi documentado na esperança de que fosse esquecido. Mesclando realidade, ficção e fantasia, Tomás Eloy Martínez remonta a história de Buenos Aires desde a sua fundação, passando pelos anos de ouro do Tango entre as décadas de 1920 e 1940, depois pelo horror vivido durante as ditaduras militares que assolaram o país, até chegar aos anos 2000, tornando-se uma cidade globalizada, cheia de cafés e transformada em destino turístico, mas também marcada por manifestações, crise política e financeira e pessoas deixando a Argentina.
Na Argentina tem-se o hábito, já secular, de riscar da história os fatos que contradigam as ideias oficiais sobre a grandeza do país. Não existem heróis impuros nem guerras perdidas. Os livros canônicos do século XIX se orgulham do desaparecimento de negros de Buenos Aires, sem levar em conta que, ainda nos registros de 1840, um quarto da população se declarava mulata. (Pág. 67)
Um aspecto de que gostei no livro é o fato de o autor criar personagens e/ou histórias tão "reais" que me surpreendi ao descobrir que eram fruto de sua imaginação. Além do mítico Julio Martel - que evoca os tempos áureos, um período de glória de um povo que transpira cultura, em contraste com a realidade atual - o leitor vai se deixar levar, por exemplo, pela história da jovem Felicitás Alcantâra que encontra o seu mórbido destino no Palacio de Aguas Corrientes. Por meio da história inventada de um crime macabro e com ares de lenda urbana, o autor aproveita também para falar sobre a importância do palácio para o abastecimento de água da cidade. Através da também inventada Violeta Miller, o leitor pode ter contato com a triste realidade do tráfico de mulheres europeias realizado por cafetões judeus com o intuito de praticar exploração sexual nos bordéis da Buenos Aires do início do século XX.
Durante toda a leitura, pude perceber como Martínes manuseia as palavras de modo a fazerem com que o leitor obtenha as mais diversas sensações. Por vezes, me sentia encantada pela aura fantástica de Julio Martel e da boemia da Buenos Aires do passado, com suas ruas estreitas, monumentos e personalidades históricas. Em outros momentos, senti meu estômago embrulhar com as descrições de um matadouro de bois e como algumas das técnicas ali utilizadas foram aproveitadas para a tortura de pessoas durante os regimes militares. 

Há também um diálogo constante com a obra de Jorge Luis Borges, mais precisamente o conto "O Aleph", e com a ideia de labirintos e histórias que se bifurcam. Confesso que não percebi muitas das referências à Borges porque ainda não tive a oportunidade de ter contato com a obra do autor. Por isso, já aviso que "O cantor de tango" entrou para a lista de releituras e, assim que tiver contato com o trabalho de Borges, pretendo revisitar Buenos Aires através dos olhos de Bruno Cadogan. Por fim, acho importante mencionar que, apesar das poucas páginas, o livro tem um ritmo mais lento, como se não fosse escrito para ser devorado, mas sim sentido e aproveitado a cada parágrafo. Leitura recomendadíssima! 

Livro cedido pela editora em parceria com o blog.


4 Comentários

  1. Foi um dos primeiros livros que li para o #198livros e já sinto saudades dele! É ótimo, né? Bom para ler antes ou depois de conhecer Buenos Aires ou simplesmente para ter uma boa leitura. Que bom que também gostou!

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  2. Oi, Camila
    Peguei a dica deste livro no seu blog! É um livro bem fascinante mesmo! E fiquei com muita vontade de ir para Buenos Aires de novo enquanto estava lendo, haha! Obrigada pela dica :)
    Beijos

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  3. Joao Maria Genelhu Fernandes21 de outubro de 2015 20:55

    Ótimo livro, uma beleza de livro, sonhar com a capital Argentina!!!

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  4. Sim, é um livro muito gostoso de ler. Faz a gente viajar pelas ruas de Buenos Aires :)

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