Confesso que não sabia da existência de “Stoner” até assistir a um vídeo da Isa (Lido Lendo) em que ela fala sobre o interesse antigo que ela tinha pelo livro e de como estava feliz por finalmente poder lê-lo nesta nova edição. Os comentários positivos e entusiasmados da Isa me convenceram de que precisava conhecer o romance de John Williams, que chegou ao Brasil recentemente pela editora Rádio Londres.

Publicado nos Estados Unidos em 1965, “Stoner”, de John Williams, obteve um breve sucesso e caiu no esquecimento até 2003, quando foi redescoberto pela New York Review of Books e despertou o interesse de novos leitores. Desde então, o livro se tornou um best-seller em países europeus – como Itália, Alemanha, França – e agora chega ao Brasil pela primeira vez pela Rádio Londres, em uma edição acompanhada por um posfácio de Peter Cameron. 

O livro traz a história de William Stoner, um cara normal, com uma vida mediana e sem muitos acontecimentos marcantes. Como disse Tatiana Feltrin, ele “é um coadjuvante de sua própria vida”. Desde o início, o leitor já sabe que irá acompanhar o protagonista desde a sua juventude até o momento de sua morte. A graça está em descobrir o que acontece durante este período e as pessoas que irão cruzar o seu caminho. 

Narrada em terceira pessoa, a história tem início no fim do século XIX, com o nascimento de Stoner, sua criação simples no campo e o momento em que seus pais decidem o enviar para a universidade, onde deveria ingressar no curso de Ciências Agrárias. Era o início de um novo século, período cheio de promessas de progresso, e Stoner deveria utilizar seus novos conhecimentos para melhorar os negócios da família. Porém, após um momento de epifania em sala de aula, ele se dá conta de que o seu real interesse e futuro se encontram na literatura, nos livros e em suas histórias. Assim, sem avisar os pais, ele muda de curso e, em quatro anos, obtém a sua graduação, inicia o doutorado e passa a lecionar na mesma universidade.

O livro segue narrando os acontecimentos que marcaram a vida do protagonista - como um casamento conturbado e conflitos no ambiente de trabalho – e a impressão que fica para o leitor é a de que Stoner assiste a sua vida passar e não faz quase nada para alterar o curso dos acontecimentos; nem mesmo quando a situação é ruim. E, por mais que em alguns momentos haja identificação com o protagonista, penso que seja impossível ficar indiferente à indiferença dele. Seu casamento com Edith, por exemplo, fracassou antes mesmo de começar e, mesmo detestando a esposa, ele se permite ficar preso em um relacionamento desgastante sem tentar entender o que deu errado ou melhorar a situação. 

Já no que diz respeito ao seu trabalho como professor, ocorre o oposto e Stoner, que a princípio adota uma postura medíocre (posição esta que ele adota em praticamente tudo o que faz), passa a se interessar, a descobrir o que de fato quer ensinar e a se empenhar para que suas aulas sejam boas e disputadas. Percebemos que é por meio dos livros e de sua paixão pela literatura que Stoner sai, ainda que temporariamente, de seu constante estado de inércia e indiferença em relação ao mundo e passa a sentir. Os livros são os seus melhores amigos e se apresentam como um refúgio em uma vida amarga, uma existência marcada por possibilidades nunca concretizadas. 

Em termos de texto, ainda que o enredo se desenrole de forma lenta, a leitura flui bem. Há sim, em alguns momentos, o uso de metáforas que deixam a narrativa poética em alguns trechos, mas de forma geral, achei a escrita de John Williams bastante direta. Ele fala o que tem que falar sem rodeios. No entanto, preciso chamar a atenção para o fato de que "Stoner" parece ser um livro de camadas, diferentes nuances. Digo isso porque sinto que não consegui absorver tudo o que livro tinha para me dizer; por baixo de uma história aparentemente simples, muitos significados e reflexões estão econdidos. Assim, sinto que este é um livro que irei revisitar daqui a alguns anos e, possivelmente, interpretarei de forma diferente.

Livro cedido pela editora em parceria com o blog.


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