"Sonhos partidos", lançamento recente da editora Intrínseca, é o romance de estreia do estadunidense M.O. Walsh. Ambientado em Baton Rouge, a capital do estado da Louisiana, durante os anos 1980, o romance é uma mistura de drama, mistério e história sobre amadurecimento.

O narrador, que nunca nos revela seu nome, resolve contar a alguém os acontecimentos que marcaram a sua vizinhança durante o verão em que ocorreu a sua transição da infância para a adolescência. Woodland Hills é o típico bairro de subúrbio, com casas que trazem belos gramados, crianças que brincam nas ruas e um clube no qual as famílias sorridentes deixam claro que vivem uma vida perfeita. Pelo menos é o que parece.

No verão de 1989, a adolescente Lindy Simpson é estuprada próximo de sua casa e o acontecimento, além de chocar a vizinhança à procura de suspeitos, evidencia que até aquele que parece ser o mais tranquilo dos lugares pode ser palco para pesadelos. O narrador, apaixonado por Lindy desde quando os dois eram amigos de infância, se torna um dos suspeitos do crime, ao lado de um vizinho encrenqueiro e um psiquiatra violento.

A narrativa envolvente - para mim, o melhor aspecto do livro - é feita anos mais tarde, o que torna a visão de tudo o que ocorreu um tanto lúdica, incerta. Apesar das investigações, a polícia nunca encontrou pistas conclusivas, de forma que o crime nunca foi solucionado. Porém, mesmo depois de anos, o narrador não consegue deixar de pensar no assunto e de tentar encontrar o culpado revisitando suas memórias da juventude com um olhar adulto. Neste ponto, me lembrei bastante de "As virgens suicidas", de Jeffrey Eugenides, um dos meus livros favoritos da vida.
Apesar de parecer o enredo de um thriller policial, "Sonhos partidos" se aproxima mais do drama. Muito mais do que focar na busca por um culpado, o narrador se preocupa em mostrar como a vida de Lindy se transformou depois do ocorrido e de como tudo isso repercutiu na vida cotidiana dos subúrbios de uma cidade pequena. Ele também nos conta um pouco de sua própria história, recordando o dia em que seu pai saiu de casa e os momentos conturbados que vieram depois disso; o distanciamento de sua mãe, que parecia acreditar que ele seria capaz de cometer o crime contra Lindy; os amigos e colegas que tinha na época; a relação com suas irmãs.

Durante toda a leitura, enquanto acompanhava, pela perspectiva do narrador, o desenrolar dos fatos em Batom Rouge, senti uma sensação de melancolia. Não pude deixar de pensar em como certos acontecimentos e/ou ações são capazes de alterar completamente os rumos de nossas vidas, assim como as nossas percepções de mundo. Algumas experiências nos fazem enxergar a vida de forma diferente e, uma vez que isso acontece, não podemos mais voltar a ser o que éramos. Ainda assim, apesar do tom pessimista, o autor conclui o livro de forma esperançosa.

"a vida é feita, cada vez mais, daquilo que você não pode mudar" (P.142)

"Sonhos partidos" se mostrou bem diferente do que eu imaginei quando li a sinopse, porém, se revelou uma grata surpresa e, possivelmente, um dos meus livros preferidos do ano. Leitura recomendada!

 

Livro cedido pela editora em parceria com o blog.


3 Comentários

  1. Estava falando ontem com uma amiga sobre as expectativas que criamos a partir da sinopse. Você disse que imaginou algo diferente do que encontrou no livro; eu pensei que seguiria mais ou menos como você descreveu em sua resenha. Isso só confirmou que preciso ler essa história.
    Beijo, xará!

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  2. Oi, xará :)
    Então, tem umas sinopses que fazem a gente imaginar algo completamente diferente, haha. Mas, nesse caso, não me incomodou porque gosto mais do livro assim, me faz pensar em reler algum dia. E isso nunca acontece quando leio um thriller policial.
    É uma leitura bem envolvente e que me fez pensar sobre a vida, sabe? Fiquei impressionada por essa ser a estreia do autor. Espero que goste da leitura também :)
    Beijos

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  3. Oi, Mi! Adorei seu blog, já estou seguindo *-*
    Sobre esse livro... A capa é tão linda, mas pelas resenhas que já vi não fiquei com vontade de ler não. Até gosto de alguns dramas, mas esse não chamou minha atenção. De dramática já basta minha vida, quero mais é ler coisa felizes, hahaha (nem sempre, mas hoje sim ;).

    Beijos,
    www.naestradadafantasia.com

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