Voltei, gente! Como foi o feriado de vocês? Espero que tenha sido bom. Depois de dez dias sem atualizar o blog e quase sem ler, resolvi fazer um post diferente dos que venho fazendo ultimamente. Hoje vou responder as perguntas do One Lovely Blog Award, uma tag a que fui indicada pela Letícia Magalhães, do Crítica Retrô, há alguns meses. Como as perguntas são, em geral, relacionadas ao blog e já que boa parte dos posts mais antigos do La vie en rose...estão ocultos, pensei que seriam uma boa forma de apresentar (?) aos que ainda não me conhecem um pouquinho do que é este espaço aqui. São onze perguntas e eu prometo tentar não me enrolar nas respostas, ok? Então vamos lá! \o/

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Em "Noah foge de casa", o leitor é apresentado a Noah Barleywater, um garotinho de 8 anos que - como o título deixa claro - resolve fugir de casa. Antes de o sol raiar e de seus pais acordarem, Noah já iniciou a sua caminhada rumo ao desconhecido.

Após passar por uma peculiar cidade em que macieiras estão vivas e ter seu trajeto cruzado por animais falantes, ele chega à uma floresta. E no centro dela há uma curiosíssima e mágica loja de brinquedos em que tudo é feito de madeira e que serve de lar para um velhinho bastante intrigante e com uma história interessante. Durante as próximas horas, ambos travam diálogos, trocam experiências e compreendem a importância de se manter fiel à uma promessa.

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A leitura de "Noah foge de casa" foi uma experiência bastante agradável e a história apresentada por John Boyne, além de muito fofa, se revelou uma surpresa. Narrado em terceira e em primeira pessoa, o infantojuvenil parece o tipo de história para ser lida em voz alta para uma criança. É impossível não se emocionar ou se deixar cativar pelo enredo com ar de mistério e aspectos sutis de fantasia.

O protagonista, Noah, é um garotinho esperto e é por meio de sua curiosidade que somos apresentados ao universo da loja de brinquedos e de seu peculiar vendedor. Por vezes assustado ou intrigado, Noah tem um motivo para ter fugido de casa, mas se recusa a sequer pensar sobre o assunto. Assim, o mistério que permeia o motivo permanece ao longo de boa parte do livro.

Dessa forma,o garoto prefere conhecer melhor o dono da loja e escutar a respeito de suas aventuras quando este era jovem. Assumindo a narrativa, o velhinho fala a respeito de seu pai, o Pápi, e de quando ambos decidiram se mudar para a floresta, deixando para trás o passado na cidade; e sobre as situações pelas quais passou a partir de então - iniciar os estudos em uma nova escola, os conflitos com os colegas, a descoberta de que era um excelente corredor e, até, a sua transformação em um atleta olímpico. Cada uma das histórias do velhinho é representada por um títere (marionete) que fora entalhado por seu pai.

Eventualmente, Noah também compartilha algumas de suas experiências com o velho e é a partir deste ponto que passamos a ter alguma noção das razões que o levaram a sair de casa. Por meio dos diálogos entre os dois, John Boyne trata de temas mais profundos (eu disse que o livro tinha camadas!) e levanta questões interessantes de serem abordadas com crianças: a importância da família, o cuidado que se deve ter ao desejar algo, a valorização de promessas feitas e também sobre a fuga de seus problemas e o que isso pode trazer como consequência.

Durante a leitura, a identidade do dono da loja de brinquedos também passa a ser questionada e o leitor fica intrigado para saber quem ele é. Não vou mentir: apesar das inúmeras pistas que o autor deixou, eu só descobri quem o velhinho era no final. E a sensação que tive foi uma mistura de surpresa e encanto que só me fez gostar ainda mais da leitura.

Apesar da atmosfera fantasiosa - que em alguns momentos me lembrou o País das Maravilhas - e de momentos divertidos, "Noah foge de casa" não chega a ser um livro feliz. Muito pelo contrário, penso que é um livro bastante triste e melancólico, principalmente se considerarmos o público a que ele se dirige. Ainda assim, justamente por tratar de situações pelas quais todos passamos em alguma fase da vida, não posso deixar de considerar a leitura válida; tanto para crianças, quanto para adultos.


"Annie, a Pequena Órfã" nasceu em 1924 como uma personagem de tirinhas de jornal criadas pelo estadunidense Harold Gray e se tornou bastante popular nas décadas posteriores. Na década de 1970, Thomas Meehan recebeu de Martin Charnin - letrista e diretor da Broadway - a incumbência de ajudar a transformar a história de Annie em um musical. Sua função era escrever o libreto (o script) da peça, enquanto Charles Strouse ficaria encarregado das melodias. Anos depois, Meehan transformou seu libreto em um romance, lançado em novembro pela editora Intrínseca.

Inspirado pelas obras de Charles Dickens e influenciado pelo contexto que os Estados Unidos enfrentavam na década de 1970 (Richard Nixon como presidente e a infame Guerra do Vietnã), Meehan ambientou a história de Harold Gray na Nova Iorque dos anos 1930, sob o governo de Franklin D. Roosevelt e vivendo os tormentos da Grande Depressão

Annie, com apenas dois meses de vida, foi deixada à porta de um orfanato com apenas a metade de um medalhão, um cobertorzinho e um bilhete com os dizeres:

"Por favor, cuidem bem da nossa menininha. O nome dela é Annie e nós a amamos muito. Ela nasceu no dia 28 de outubro. Logo vamos voltar para buscá-la. Deixamos metade de um medalhão em torno do pescoço dela e guardamos a outra metade, pois, assim, quando voltarmos, saberemos que ela é a nossa filha".

Anos se passaram e Annie, aos 11 anos, ainda vive com outras meninas no orfanato e sob os cuidados da terrível Srta. Hannigan, que nada faz além de beber e maltratar as crianças. Numa noite fria de dezembro, faltando poucos dias para o Natal, Annie está cansada de esperar e resolve ir atrás de seus pais sozinha. Com a ajuda de suas amigas, a garota consegue fugir do orfanato e terá seu caminho cruzado por diversas pessoas, algumas das quais com péssimas intenções. É pelas ruas geladas de Nova Iorque que a menina irá conhecer Sandy, um cãozinho cor de areia que logo se torna seu melhor amigos e, juntos, eles irão viver muitas desventuras. E justo quando tudo parece estar perdido, a vida de Annie começa a mudar quando ela conhece a adorável Srta. Farrell, que a convida para passar o Natal na casa do bilionário Oliver Warbucks.

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Não vou mentir: nunca assisti a nenhuma das adaptações de Annie. Nem mesmo a mais conhecida, lançada em 1982 sob a direção de John Huston. E isso foi ótimo, porque não sabia muito bem o que esperar da leitura e cada virada de página se mostrou uma surpresa - ainda que o enredo seja bastante previsível - e tudo o que eu queria era que Annie tivesse o seu final feliz.

Thomas Meehan foi bem eficiente ao criar a atmosfera da história; fosse por meio da descrição das ruas geladas - literal e metaforicamente - da Nova Iorque dos anos 1930 ou contando um pouco sobre a vida sofrida das meninas no orfanato. Fiquei impressionada com a forma como, ainda que por meio de poucas páginas, o autor conseguiu fazer com que me sentisse inserida no contexto do livro. Acredito que, por se tratar de uma história infantil, o impacto de situações marcadas por crueldade acabam tendo um peso maior. Senti muita revolta quando li que as meninas eram desprezadas não só por outras crianças na escola, mas também pelos professores, que as acusavam de apenas ocupar espaço nas salas. No orfanato, além de serem forçadas a trabalhar, elas recebem o pior tipo de tratamento da Srta. Hannigan, que as culpa por serem órfãs e dirige-se às meninas completamente desprovida de sensibilidade.

A ambientação do livro é o que mais me agradou. Gostei de como o autor inseriu referências históricas e culturais do período retratado, como nomes de filmes e celebridades de Hollywood e eventuais aparições de personalidades reais, como o presidente Franklin D. Roosevelt e J. Edgar Hoover. Os personagens, ainda que bastante caricatos e sem muita profundidade, são bem críveis. Assim, foi impossível não sentir raiva e medo da Srta. Hannigan e de todos os demais adultos com más intenções que aparecem pelo caminho da protagonista. E, claro, o oposto ocorreu em relação à adorável Srta. Farrell, aos moradores da Hooverville e até do ranzinza - mas dono de um enorme coração - Sr. Warbucks. Toda vez que eles apareciam e dirigiam palavras gentis à Annie pude sentir um calor no coração.

Annie, como protagonista e fio condutor da história, é bastante cativante. Acredito que seja impossível terminar a leitura sem gostar da menina. Annie passa por situações que são verdadeiros pesadelos para crianças - e adultos! - e, ainda assim, se mantém forte e não desiste de sonhar e esperar sempre que o amanhã traga algo melhor. O otimismo dela é contagiante

A órfã notou que o cão ainda parecia triste e assustado.
- Muito bem, Sandy. Vou cuidar de você. Vou cuidar muito bem - afirmou ela. - E tudo vai ficar bem. Pra nós dois. Se não hoje, bom... - Annie ergueu o olhar para o céu nublado. - O sol vai sair amanhã - disse Annie, baixinho. - Pode apostar seu último centavo que o sol vai sair amanhã. (...) Eu amo você, amanhã, porque está sempre a um dia de distância. (p.70)

Como já mencionei acima, o enredo é previsível. No entanto, há algumas surpresas, de forma que não consegui descobrir antes como Annie teria o seu final feliz. O mistério por trás dos pais de Annie e do motivo de a terem deixado em um orfanato é mantido até pouco antes do final e a sua conclusão é satisfatória. 

Narrado em terceira pessoa, o livro é voltado para o público infantil, de forma que a linguagem é bastante simples e a leitura flui bem. Penso que uma boa experiência seria ler "Annie" para ou com uma criança porque, além de trazer uma história interessante e envolvente, algumas questões - sobre diferenças econômicas e sociais, sobre a importância de ajudar o próximo e de manter sempre o otimismo - podem ser levantadas durante a leitura. E, claro, a leitura é recomendada para adultos também; principalmente para aqueles que, vez ou outra, gostam de entrar em contato com a sua criança interior.
O livro foi cedido pela editora Intrínseca em parceria com o blog.