Na última sexta-feira (20/03/2015), a editora Intrínseca e a Fnac inauguraram o Espaço Intrínseca na loja de Pinheiros, aqui em São Paulo. Com uma proposta de aumentar a interação entre a editora e seus leitores, a área que se configura como uma sala de estar bastante aconchegante e colorida deverá oferecer atividades e promoções especiais, assim como todo o catálogo da editora.

Infelizmente, não pude comparecer ao evento de inauguração, mas ontem, um belo domingo preguiçoso, resolvi visitar o espaço e fiquei encantada com a decoração, que faz referência aos principais títulos da Intrínseca. Em meio a almofadas de "Percy Jackson e os Olimpianos", "A culpa é das estrelas" e "Um dia", pude passar alguns minutos de tranquilidade enquanto me informava a respeito dos futuros lançamentos da editora e lia trechos de alguns livros. Em uma mesinha de centro, além de algumas amostras, foram disponibilizados marcadores de páginas com capas de livros.

Não encontrei nenhuma promoção exclusiva (a Fnac tinha algumas), mas acredito que devam surgir nos próximos dias. Gostei dessa iniciativa diferente da Intrínseca e penso que deva funcionar de forma positiva para aproximar leitores. 

Como a minha decisão de visitar o Espaço Intrínseca foi feita meio no improviso, não estava equipada com a minha câmera; ainda assim, registrei um pouco do espaço com o meu celular e o resultado por ser visto no mini vlog que fiz. Espero que gostem e se estiverem pensando no que fazer no próximo fim de semana, recomendo que visitem a Fnac Pinheiros, tomem um café no Fran's Café e depois passem um tempinho lá no Espaço Intrínseca. :)


O Espaço Intrínseca irá funcionar durante três meses na Fnac Pinheiros e, futuramente, a Intrínseca pretende levar o projeto ao Rio de Janeiro e mais duas outras cidades ainda não divulgadas.

ESPAÇO INTRÍNSECA – PINHEIROS
Praça dos Omaguás, 34 – Pinheiros
São Paulo – SP
05419-020
Horário de funcionamento: de segunda a sábado das 10h às 22h; domingos e feriados das 10h às 20h.


Em “Objetos Cortantes”, o romance de estreia de Gillian Flynn (autora de “Garota Exemplar”), o leitor é apresentado a uma trama de suspense, mistério policial e drama familiar.Camille Preaker, uma mulher de trinta e poucos anos que trabalha como repórter em Chicago, Illinois, se descreve como medíocre em seu trabalho. Pouco tempo após sair de uma internação em um hospital psiquiátrico, ela recebe uma pauta de seu editor e terá que voltar à pequena Wind Gap, sua cidade natal localizada no estado do Missouri (EUA), para cobrir o caso de crimes cometidos contra duas garotas locais. Uma delas foi brutalmente assassinada e seu corpo foi encontrado sem dentes. A outra está desaparecida.

Oito anos após abandonar Wind Gap com a certeza de que não voltaria para lá tão cedo, Camille se vê obrigada a entrar em contato com seu passado, seus colegas da adolescência e sua família bastante disfuncional. Adora, sua mãe, é a mulher mais rica da cidade, além de completamente neurótica. Alan, seu padrasto, sempre se manteve distante. Amma, sua meia-irmã adolescente, é uma completa estranha. Sem manter contato com os familiares durante a sua ausência, Camille vira hóspede na casa de sua mãe e passa a ser atormentada por recordações dolorosas do período em que ali vivera, incluindo a morte de Marian, sua irmã, há muitos anos.

Aos poucos, conforme se insere novamente na comunidade da qual fez parte, Camille começa a juntar informações para a sua matéria e, ao mesmo tempo, luta contra o tempo e a má vontade dos locais para conseguir alguma declaração oficial sobre as investigações dos crimes. Assim que suas perguntas começam a encontrar algumas respostas, ela percebe que a cidade esconde segredos perturbadores e sombrios.

***

Já fazia tempo que queria conhecer o trabalho de Gillian Flynn e resolvi começar por “Objetos Cortantes”, lançamento de fevereiro da editora Intrínseca. A partir desta primeira leitura, já pude sentir que a autora não evita tratar de temas delicados e polêmicos por medo de não agradar ao público.

Em termos de expectativas – que não eram altas para evitar frustrações com livros e/ou autores amados por muitas pessoas -, as minhas foram alcançadas. Não sabia muito bem o que iria encontrar e, de forma alguma, adivinhei o que o livro me traria. Gillian Flynn é uma autora bastante talentosa; a forma como ela escreve e conduz os acontecimentos deixam o leitor completamente envolvido e com vontade de chegar rapidamente ao final para saber o que vai acontecer com os personagens.

Narrado em primeira pessoa pela protagonista, o livro apresenta uma história linear marcada por algumas intervenções do passado feitas pela narradora. No tempo presente, quando Camille inicia a sua apuração dos ocorridos em Wind Gap, tudo é apresentado conforme vai acontecendo, porém, com frequência sua narrativa é interrompida por recordações do período em que vivera ali. Assim, o leitor só passa a ter conhecimento da real relação entre Camille e Adora por meio das divagações da primeira.

Camille é uma das protagonistas mais diferentes com quem já deparei em minhas leituras. Ao mesmo tempo em que consegui enxergar muita determinação e força em sua maneira de agir, não pude deixar de achá-la bastante vulnerável e frágil; principalmente quando está diante de sua mãe; e isso está completamente relacionado à sua internação em um hospital psiquiátrico e seus problemas com o consumo de álcool. Adora, por sua vez, me desagradou desde a sua primeira aparição. Ela é uma mulher fria, desequilibrada e controladora; e a forma como trata as suas filhas é, no mínimo, assustadora. Despreza Camille e dirige à Amma uma adoração doentia. Ambas vivem à sombra de Marian, a irmã perfeita e morta há anos.

Amma, devo confessar, foi a personagem que mais me fascinou no livro. Enigmática do início ao fim, a garota é detestável e imprevisível. Ela é a mais popular e bonita do colégio, consegue tudo o que quer e é capaz de irritar adultos de uma forma inexplicável. De forma contraditória, há momentos em que é adorável e gentil. Assim como Adora, ela é bastante manipuladora e o leitor, assim como Camille, nunca consegue interpretar os motivos por trás de seu comportamento volátil. 

Wind Gap, com seus costumes tradicionais e conservadores típicos de cidades pequenas, constitui um cenário propício para o tipo de história que Gillian Flynn se propõe a contar. É uma cidade em que todo mundo se conhece, marcada por boatos, disputas sociais e, claro, aparências que escondem vidas vazias e problemáticas. Os crimes cometidos contra as duas garotas choca a comunidade, que prefere acreditar que o responsável é alguém de fora, ao invés de um conhecido. A polícia se recusa a dizer algo sobre as investigações e a comunidade, de forma geral, enxerga Camille como uma intrusa, oportunista que apenas quer usar a dor local como um meio de vender mais jornais. (Neste ponto, a autora aproveita para, de forma sutil, apontar para uma realidade de nossa sociedade). Justamente pela relutância da polícia em declarar algo sobre o caso, Camille começa a sua própria investigação como uma forma de obter informações para a matéria. E é por meio de cidadãos comuns, com suas fofocas e verdades constrangedoras, que a solução surpreendente e medonha começa a se desenrolar.

Não vou mentir, esperava mais da investigação em si. Porém, conforme avançava na leitura, me dei conta de que a história era mais um drama familiar do que um mistério policial. Assim, me contentei em tentar compreender os motivos para a relação extremamente disfuncional entre Camille, sua mãe e sua irmã. Vale ressaltar que por meio da relação entre mãe e filha, Gillian Flynn trata de uma questão que contraria um pensamento generalizado que existe na sociedade em que vivemos: o de que mulheres não podem ser cruéis. Aceitamos de forma muito fácil que homens podem ser assassinos, sequestradores, torturadores, etc.; porém, dificilmente imaginamos uma mulher que se enquadre em tais perfis. Porém, com as ações de Adora e a maneira como ela trata suas filhas, assim como o comportamento de Amma, fica claro para o leitor que mulheres – mães inclusive – podem sim ser muito cruéis. E a forma como essa ideia se apresenta no livro é profundamente doentia, gerando desconforto ao leitor.

E acho que essa foi mesmo a intenção da autora, fazer o leitor se sentir mal e incomodado. A história é realmente pesada. É forte, violenta e perturbadora. Terminei a leitura por volta das 3h da manhã e ainda fiquei mais uma hora remoendo aquele final e tentando entender qual é a mensagem que Gillian Flynn quis transmitir. Até o momento em que escrevo este texto não consegui me decidir se gostei ou não do livro, mas garanto que gostei muito da experiência de leitura e acho que, apenas por este fato, “Objetos cortantes” merece ser lido e recomendado. Se com seu livro de estreia, Gillian Flynn já conseguiu me afetar assim, imagino o que os outros farão. "Garota exemplar" já aguarda na estante.


Livro cedido pela editora em parceria com o blog. 


(...) O que vem antes, a música ou o sofrimento? Eu ouvia música porque sofria? Ou sofria porque ouvia música? Será que aqueles discos todos é que me deixavam melancólico? (p.30)

Ambientado na Londres dos anos 1990, “Alta Fidelidade”, de Nick Hornby, traz a história de Rob, um cara de 35 anos que trabalha em uma loja de CDs, da qual também é dono. Após o fim de seu longo relacionamento com Laura, Rob tenta superar o ocorrido listando os cinco piores términos de namoro de toda a sua vida – começando pela primeira namorada, que conheceu nos tempos de colégio, até chegar às relações da fase adulta.

Ele é completamente obcecado por música, e passa a maior parte do seu tempo consumindo álbuns de seus artistas preferidos, adquirindo vinis novos e raros para a sua coleção e gravando mixtapes. Basicamente, sua existência se resume a abrir e fechar a loja e, entre essas funções, passar horas e mais horas na companhia de Dick e Barry – os funcionários da loja, de quem não gosta muito – conversando sobre música, insultando clientes que, aparentemente, não tem tanto conhecimento sobre o assunto e sofrendo por causa de Laura. Assim como Rob, Dick e Barry não tem uma vida além da loja.

Por meio de uma narrativa em primeira pessoa, Rob tenta nos convencer – no caso, convencer sua ex – de que o fim do namoro com Laura não foi, nem de longe, o mais humilhante de sua vida. Assim, por meio de seu TOP 5, nos transporta aos diferentes períodos de sua história, nos apresentando suas antigas namoradas e explicando as circunstâncias em que tais relacionamentos chegaram ao fim; tudo acompanhado de uma lista de músicas que marcaram aqueles momentos. Ao falar sobre esses relacionamentos, Rob deixa claro o impacto que cada um teve em seu futuro e tenta compreender o que aconteceu entre ele e Laura para que chegassem ao ponto em que chegaram. 

Com essa premissa, Nick Hornby, com uma escrita fluída e envolvente, apresenta o leitor a um drama sobre relacionamentos na modernidade que se transformou, segundo o The Guardian, em um clássico imediato. Apesar de ambientado 20 anos atrás, o enredo e os temas abordados em “Alta Fidelidade” permanecem atuais. Por meio da história de Rob, o autor trata de alguns dos problemas mais comuns ao ser humano do século XXI: o medo de relacionamentos e de confiar em outra pessoa, a dificuldade para amadurecer e o excesso de egoísmo e egocentrismo.

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No fundo, o livro é um monólogo, no qual o protagonista tenta se encontrar, se fazendo de vítima e culpando suas ex-namoradas pela vida frustrante que leva. Rob é desagradável, pedante e imaturo e isso transparece em sua narrativa, de forma que o leitor consegue enxergar como ele é, mas ele não. Ele é uma pessoa superficial, que julga as outras tendo como base interesses e conhecimentos musicais, e se estes não estiverem de acordo com o que ele julga interessante, a pessoa se torna descartável. Ele não está pronto para um relacionamento sério, mas ao invés de assumir isso, prefere por a culpa na ex, dizendo que ela gostava de bandas que para ele eram intragáveis, e não aceitando que ela saia à procura de alguém que espera o mesmo que ela em um relacionamento.

Mas aquilo ali continha uma verdade séria e essencial, a de que essas coisas importam mesmo, portanto não é legal fingir que uma relação tem futuro quando as coleções de disco divergem violentamente, o quando os filmes preferidos de cada um nem conversariam caso se encontrassem em uma festa. (p. 117)

Mesmo sem simpatizar com Rob, não pude evitar sentir alguma identificação com algumas das coisas que ele diz, principalmente em relação a suas impressões sobre a música em geral e o poder que ela tem de modificar o nosso humor e nos trazer esperança em momentos em que tudo parece perdido. Gostei também de sua sinceridade em relação a algumas normas do comportamento social que, para ele, não fazem o menor sentido. Muitas vezes ele fala algumas coisas que podem incomodar, mas, quando paramos para pensar percebemos que não são tão absurdas e a gente até já pensou nelas, mas nunca as tornamos públicas.

Talvez vivamos, todos nós que passamos os dias absorvendo material emocional, num estado de alta intensidade, e consequentemente jamais consigamos estar simplesmente contentes: precisamos estar infelizes, ou absurda e apaixonadamente felizes, e esses são estados difíceis de se obter numa relação sólida e estável. (p. 166)

Por fim, “Alta Fidelidade” é um livro interessante, de fácil leitura, que proporciona algumas reflexões nas entrelinhas e está recheado de referências musicais. Gostei bastante da escrita de Nick Hornby e, com certeza, pretendo ter mais contato com seu trabalho. Leitura recomendada!