Quando comecei a fazer parte da comunidade booktuber vários autores se tornaram de meu conhecimento, ainda que nunca tivesse lido nada que tivessem escrito. Um destes autores era o japonês Kazuo Ishiguro, famoso pelo livro "Não me abandone jamais" (2005). Finalmente pude ter contato com a sua obra e o livro escolhido foi "O gigante enterrado", primeiro lançamento do autor em dez anos e publicado recentemente pela Companhia das Letras.

Em "O gigante enterrado" - uma mistura de fábula e épico de fantasia - somos transportados para um passado mítico e lendário, na Idade Média de poucos anos após a morte do rei Arthur, em um contexto marcado pelos povos bretão e saxão, ogros, pássaros gigantes e fadas. Quando a história tem início, é um momento de paz entre os povos e o leitor é apresentado a Axl e Beatrice, um casal de idosos bretões que decidem abandonar a aldeia em que vivem para ir ao encontro de seu filho - de quem não se lembram muito bem e com quem já não têm contato - em uma aldeia vizinha.

A região foi afetada por uma misteriosa névoa que faz com que a população sofra de um tipo de amnésia coletiva. Pessoas desaparecem e ninguém parece notar; discussões ocorrem e ninguém entende o porquê. Ao se sentirem negligenciados na comunidade da qual fazem parte e com um objetivo em mente, Axl e Beatrice saem em sua nova jornada e têm seus caminhos cruzados por uma série de personagens - incluindo um guerreiro saxão e um cavaleiro arthuriano - e acabam se envolvendo em uma missão que inclui monges malignos e a destruição de uma grande ameaça: um dragão.
O livro é dividido em cinco partes, com capítulos narrados - em sua maioria - em terceira pessoa e que apresentam as perspectivas de diferentes personagens. Apesar de bem escrito, trazer metáforas e fluir com facilidade, confesso que tive problemas com o texto de Ishiguro, que durante as primeiras 200 páginas me manteve presa à leitura, mas que depois começou a me incomodar por conta de uma narrativa que se tornou arrastada e repetitiva. Houve um momento em que não aguentava mais ler os diálogos entre Axl e Beatrice afirmando que iam encontrar seu filho na aldeia vizinha, ou que não se lembravam de uma determinada discussão que tiveram. O mesmo vale para os devaneios enfadonhos de Sir Gawain acerca de seu tempo como cavaleiro do rei Arthur.

Quanto aos personagens, não sei até que ponto gostei deles, porque todos me pareceram bastante unilaterais e sem profundidade, de forma que, mesmo em um universo fantasioso, não consegui acreditar neles. Ainda assim, torci por Axl e Beatrice e fiquei intrigada com Winstan (meu personagem preferido) e Edwin; o mesmo não digo em relação a Sir Gawain, que de uma forma geral, achei bastante irritante. 

Apesar de meu descontentamento com alguns aspectos, acho importante ressaltar que o livro trata de temas universais - como a perda da memória (tanto no aspecto literal, quanto de forma mais simbólica, como quando o tempo passa a parte da história é esquecida), a guerra e suas consequências, a morte e o arrependimento - e deixa margem para diversas reflexões. E ainda levanta uma questão interessante:

O que é melhor: apagar/esquecer o passado e viver feliz ou saber a verdade, recobrando lembranças dolorosas, e ter que viver com as consequências desta decisão?
Por fim, gostei da leitura de "O gigante enterrado", mas não sei se foi uma escolha sábia para iniciar o meu contato com o autor, já que esta foi a sua estreia no gênero de fantasia. Ainda que com ressalvas, recomendo a leitura para aqueles que gostam de histórias de fantasia à la "O Hobbit", mas com uma pitada de melancolia.



Exemplar cedido pela editora em parceria com o blog.


Confesso que não fazia ideia do tempo que passou desde que escrevi o último post sobre filmes assistidos. Nos últimos dois meses fui ao cinema e também assisti bastante coisa na Netflix, mas resolvi fazer uma seleção apenas com aqueles que assisti na telona, ok? Vamos lá!
Entre Abelhas (2015) | Direção: Ian SBF
Não sei o que há de errado em gostar do Fabio Porchat. Digo isso porque toda vez que vejo alguém falando sobre ele é para criticar de forma negativa. Particularmente, não morro de amores pelo Porta dos Fundos, mas não tenho nada contra o moço e até gosto de "Meu passado me condena". Em "Entre Abelhas" podemos encontrar uma faceta diferente do ator, mais distante do humor e mais próxima do drama. Há sim um pouco de humor, mas este aparece na medida certa.

Gostei da proposta do filme, que me prendeu desde o início e que me deixou curiosa para tentar entender o que estava acontecendo com o protagonista. O filme também atenta para o fato de que hoje as pessoas parecem viver apenas para si, em um estado de extremo egocentrismo e incapazes de enxergar qualquer coisa ou pessoa ao seu redor. O final também é bem interessante, sem cair em clichês e aberto para diferentes interpretações.

Jurassic World - O mundo dos dinossauros (Jurassic World, 2015) | Direção: Colin Trevorrow
Não vou mentir: esperava me decepcionar profundamente com este filme. Felizmente, ele acabou se revelando uma grata e nostálgica surpresa. Mais que apresentar o universo de "Jurassic Park" para uma nova geração, o filme faz uma homenagem recheada de referências ao filme de 1993.

A história é praticamente a mesma - afinal, a única diferença está no fato de que o parque finalmente foi inaugurado - e todo mundo já sabe como vai terminar, porém isto não quer dizer que a diversão será menor. Muito pelo contrário, tive a impressão de que virei criança novamente e vibrei de emoção ao ver os velociraptors e o T-Rex de novo em cena; também morri de medo do Inominus Rex, o novo vilão. Adorei o personagem do Chris Pratt, a criança esperta-mas-sem-ser-chata e seu irmão adolescente americano clichê e desinteressado até tudo se transformar em uma aventura. A única coisa que me incomodou foi a personagem da Bryce Dallas Howard, porque não entendi muito bem as alterações no comportamento dela e juro que gostaria de entender o porquê da decisão de fazer a mulher usar salto alto durante o FILME TODO. Inclusive para fugir do T-Rex. A trilha sonora, como era de se esperar, continua incrível e emocionante. Já estou ansiosa pela sequência.

Minions (2015) | Direção: Kyle Bada e Pierre Coffin
Ultimamente, parece que há uma revolta da parte de muita gente com esse excesso de minions, mas eu nem ligo, eu amo os minions! Logo, estava bem curiosa para saber como o filme ficaria e para saber a origem daquelas fofuras amarelinhas. No fim, achei...ok. Porém, creio que o problema não está só no filme em si, mas no trailer que praticamente conta o filme todo, inclusive as piadas. 

O roteiro não está perfeito, mas é divertido. Gostei de que pelo menos três minions tem nomes e a gente sabe diferenciar cada um deles (Bob <3). As referências pop também são bem legais, assim como a trilha sonora, que foi bem selecionada. Ainda assim, esperava mais e fiquei com a sensação de que algo estava faltando (provavelmente a Agnes, que ótima!). A vilã, apesar de bastante caricata, não traz carisma, como aconteceu com Gru. Enfim, é um bom filme, garante umas risadas, mas não chega aos pés dos filmes originais.

O Exterminador do Futuro: Gênesis (Terminator: Genisys, 2015) | Direção: Alan Taylor
Antes de assistir a este filme é preciso ter em mente que tudo o que você conhecia de O Exterminador do Futuro será distorcido, porque é isso que acontece com viagens no tempo. Aqui temos algo meio parecido com o que acontece com o Marty McFly em De volta para o futuro 2, quando ele volta a 1985 e percebe que está tudo diferente de como ele lembrava. Sarah Connor não é mais aquela jovem inocente e assustada que precisa de proteção, muito pelo contrário, ela já sabe cuidar de si desde muito pequena. E a Skynet, mais uma vez, faz o possível para que o dia do Julgamento Final aconteça e chega, inclusive, a tomar medidas drásticas no que concerne a John Connor.

Gostei muito da escolha de Emilia Clarke para dar vida à Sarah Connor, já gostava dela em Game of Thrones (tá certo que a Khaleesi tá bem ruinzinha ultimamente) e acho que ficou muito bem no filme. O personagem do Matt Smith, que ninguém sabia muito o que seria, também foi uma boa revelação e adição à nova franquia; Arnold Schwarzenegger reprisa o seu papel de Terminator (porém, um tanto modificado) e satisfaz, como era de se esperar. Também gostei das novas camadas que Jason Clarke conferiu à John Connor. Meu único problema ficou por conta do ator escolhido para ser Kyle Reese, que não tem absolutamente nada a ver com o ator do filme original.

Cidades de Papel (Paper Towns, 2015) | Direção: Jack Schreier
Não é segredo para ninguém que meu livro preferido do John Green é "Cidades de papel" (leia a resenha); assim, estava muito ansiosa para ver como a adaptação tinha ficado e estou muito feliz por saber que o filme é bom. Em termos de adaptação, tudo está bem fiel, algumas alterações foram feitas, mas de forma geral, a essência está mantida (exceto por uma cena no início que faz sentido no livro e fica meio solta no filme). A principal diferença que encontrei está no tom das obras. Enquanto o livro parece trazer um tom mais sombrio e ~triste~, fiquei com a impressão de que o filme é mais leve, bem humorado. Ficou com cara de filme do John Hughes e, por isso, me fez sentir nostalgia. 

O elenco foi muito bem selecionado; Nat Wolff ficou muito bem como Quentin, e os atores que vivem Radar e Ben foram sábias escolhas. Meu problema ficou por conta de Cara Delevigne. Não acho que ela tenha interpretado mal, só acho que ela tem mais a ver com a Alaska, de forma que ficou faltando algo à sua Margo. Ainda assim, pode ter sido apenas impressão minha. A trilha sonora é ÓTIMA. Por fim, recomendo tanto a experiência de assistir ao filme, quanto a de ler o livro. Ambas se complementam. 


Desde que entrei em contato com o trabalho de Neil Gaiman, em 2013, tenho certo fascínio em relação ao autor. Não, não conheço nem de longe tudo o que ele já escreveu, mas gostei do pouco que li (“Lugar nenhum”, “O oceano no fim do caminho” e “Fortunately, the Milk...”). Assim, quando soube que a Intrínseca lançaria uma nova edição de “Os filhos de Anansi” este ano, fiquei bastante empolgada. Afinal, Neil Gaiman é um cara legal, gosta de Doctor Who e escreve histórias de fantasia bem criativas e com senso de humor; logo, o que poderia dar errado? Tudo, meus caros.

Em “Os filhos de Anansi” – que não é uma continuação de “Deuses Americanos”, mas, talvez, algo como um spin-off -, somos apresentados à Fat Charlie Nancy, um sujeito bastante azarado e meio fracassado. Durante a infância, Fat Charlie se sentia constantemente humilhado por seu pai, Anansi, que o fazia passar pelas mais constrangedoras situações - que normalmente envolviam um jeito espalhafatoso de se vestir e apresentações de karaokê - e que o transformavam em motivo de piada entre os colegas de escola.

Quando o livro tem início, Fat Charlie – que abandonou os Estados Unidos e seu pai para morar na Inglaterra – vive de forma bastante medíocre, trabalhando para um indivíduo detestável em um escritório que odeia e planejando seu casamento com Rosie, cuja mãe o despreza com todas as forças do universo. Tudo começa a mudar quando Rosie lhe pede para convidar Anansi para o casamento e ele se vê obrigado a enfrentar o seu passado humilhante. 

Ao chegar aos EUA, Fat Charlie é informado de que seu pai está morto e também descobre que ele era, de fato, o deus africano Anansi. O motivo para Fat Charlie não ter poderes é porque estes haviam sido herdados apenas por seu irmão, Spider, cuja existência Fat Charlie ignorava completamente. Alguns dias depois, Spider visita Fat Charlie e transforma a sua vida em um completo caos que envolve magia, troca de identidade e seres mitológicos malignos e vingativos.

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É complicado definir o tipo de história presente em “Os filhos de Anansi”, visto que há uma mistura de diferentes gêneros. Há elementos de fantasia, comédia, sobrenatural e, de acordo com o próprio autor, thriller. A narrativa é simples e flui muito bem, principalmente no início. Os títulos dos capítulos, além de divertidos, combinam com o tom da história, que está carregada do humor característico do texto de Neil Gaiman. 

Meu problema com o livro se deve ao desenvolvimento do enredo e à construção bastante falha de mundo e personagens. Durante toda a leitura fiquei com a sensação de que algo estava faltando ao livro até que me dei conta de que se eu tivesse que fechar o livro e nunca descobrir o final, não lamentaria. O fato é que não senti absolutamente nenhuma identificação com nenhum dos personagens e isto é um problema enorme, porque se não gostei dos personagens e/ou não consigo acreditar que eles existem - ainda que seja em uma obra de ficção -, fica difícil manter o interesse pela história.

História esta que, por sua vez, poderia ter sido interessante não fosse a maneira como foi executada. A impressão que tive foi a de que Neil Gaiman teve uma ideia muito boa e que fazia todo o sentido do mundo na cabeça dele, porém, na hora em que ele foi passar para o papel, alguma coisa se perdeu e o resultado foi um livro frustrante, cheio de buracos. Senti falta de uma apresentação mais detalhada do mundo paralelo/fantasioso que ele apresenta, assim como dos elementos da lenda na qual ele se inspirou para criar a história. Em alguns momentos, o autor chega a fazer uso de certa metalinguagem ao utilizar a sua história para falar sobre a criação de histórias, mas no meio de toda a confusão do enredo mirabolante, esta parte ficou meio esquecida.

Dificilmente recomendaria este livro para alguém que nunca teve contato com o autor. Para estes, ainda acho que “Lugar nenhum” seja uma melhor porta de entrada. Aos que já conhecem o estilo de Neil Gaiman e ficaram na dúvida em relação a “Os filhos de Anansi”, sugiro que não se deixem levar apenas pela minha opinião e pesquisem outras resenhas antes de se decidirem se irão ler, porque faço parte de uma minoria que não gostou da leitura.

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Livro cedido pela editora em parceria com o blog.