Dos muitos nomes que entraram para a minha lista de leituras por conta do booktube, H.P. Lovecraft é sem sombra de dúvidas um dos mais antigos. Mencionado normalmente ao lado de Edgar Allan Poe, Lovecraft se consagrou por escrever histórias aterrorizantes que fogem à nossa compreensão, misturando elementos de fantasia e ficção científica e, consequentemente, revolucionando o gênero de terror. Publicado no Brasil pela editora L&PM, "A tumba e outras histórias" reúne treze textos de H.P. Lovecraft que evidenciam as diferentes nuances do autor durante as fases de sua vida.

Na primeira parte - que soma oito escritos - , encontramos os melhores contos da coletânea, produzidos durante a fase madura da carreira de Lovecraft. É aqui que encontramos os aspectos de suas histórias que nos fazem ficar de cabelos em pé: criaturas diabólicas e sobrenaturais, construções assombradas e o terror psicológico e perturbador. Não vou mentir: as histórias com cara de filme de terror foram as que menos me impressionaram: "A tumba", "Ele", "A estranha casa que pairava na névoa" e "O clérigo diabólico" trazem o sobrenatural e o inexplicável como elementos para causar horror; aqui encontramos histórias que remontam ao passado, espíritos vingativos e obsessão mórbida pelo desconhecido. 

O conto "Aprisionado com faraós", que traz o maior número de páginas, é um híbrido entre diário de viagem e suspense aterrorizante. No início, o narrador se estende por longas descrições e explicações sobre o Egito e o terror fica por conta do final, quando novamente temos contato com o inexplicável. Apesar de ter um certo fascínio em relação ao Antigo Egito, este foi o conto de que menos gostei; ouso dizer que o achei bastante enfadonho. Em "O Festival" encontramos uma das primeiras histórias do chamado Cthulhu Mythos - a mitologia criada por Lovecraft - ao acompanhar o narrador durante as celebrações do Yule em uma cidade que parece ter parado no tempo.

Por fim, as minhas preferências nesta primeira parte: "Horror em Red Hook" e "Entre as paredes de Eryx". No primeiro conto, encontramos uma história de investigação que envolve loucura e folclore e nos conduz a um dos desfechos mais surpreendentes e assustadores da coletânea. O segundo, uma história de ficção científica, nos apresenta à uma realidade futurística, na qual a humanidade passa a explorar Vênus à procura de cristais. Nesta história, acompanhamos a jornada de um explorador que encontra um labirinto transparente e teme a presença de uma espécie primitiva.

***

A segunda parte, "Primeiras histórias", reúne textos escritos durante a adolescência de Lovecraft e já revelam um pouco do que viria a ser o estilo do autor. Ao todo, são cinco textos, dos quais vale a pena destacar "A fera na caverna" e "A transição de Juan Romero". No primeiro, o leitor é envolvido por suspense ao acompanhar a história de um homem que se perde em uma caverna escura e tem a constante sensação de estar sendo observado em sua solidão. Já no segundo, somos apresentados a dois mineradores que são surpreendidos por um poço sem fundo misterioso e que esconde algo aterrador.

Os demais contos desta parte não me impressionaram, apesar de se mostrarem interessantes e promissores. "O Alquimista" é uma história sobre vingança e feitiçaria, na qual somos apresentados a uma maldição que se arrasta por gerações de uma mesma família. Em "Poesias e os deuses", o jovem Lovecraft passou longe do terror e nos apresenta uma história com elementos da mitologia grega. Por fim, "A Rua", um conto diferente, nada assustador, mas criativo. Aqui, temos uma rua como protagonista e acompanhamos os acontecimentos que a marcaram ao longo dos anos.
Na terceira parte, temos acesso à quatro fragmentos - textos e notas - que Lovecraft escreveu com o intuito de transformar em algo maior, mas que nunca vingaram. O primeiro deles, "Azathoth", apesar de não explicitar no texto, faz referência ao Cthulhu Myhtos em seu título. Em "O descendente", há uma aparição do Necronomicon, famoso livro criado por Lovecraft e que faz parte da mitologia do autor, aparecendo em diversos contos. "O livro" inicia a história de um homem que recebe um livro antigo e misterioso que faz uma série de eventos estranhos ocorrerem. Por fim, "A coisa ao luar" resultou de um sonho de Lovecraft e serviu de base para um conto de J. Chapman Miske. Nenhum dos fragmentos apresenta um desfecho para suas histórias.

De forma geral, considero este meu primeiro contato com o trabalho de H.P. Lovecraft como estranho. Ainda que a coletânea traga textos escritos em diferentes épocas, pude perceber alguns padrões como características do autor e que não me agradaram completamente. Lovecraft é considerado um dos maiores escritores de terror, porém, não consegui sentir o medo, o horror, propostos em suas histórias. Acredito que isto tenha ocorrido por conta de sua narrativa, que considero bastante descritiva e lenta, talvez com o intuito de construir suspense, mas que para mim funcionou como uma forma de afastar o interesse. Falando de forma franca: achei a narrativa de Lovecraft cansativa. Ainda assim, fiquei impressionada com "Entre as paredes de Eryx", de forma que pretendo procurar mais escritos do autor voltados para a ficção científica. Por trazer alguns dos primeiros textos de Lovecraft, acredito que "A tumba e outras histórias" possa ser de maior interesse para aqueles que já conhecem e admiram o trabalho do autor.

Livro cedido pela editora em parceria com o blog.


Foi apenas depois de conhecer o booktube que ouvi falar pela primeira vez em Philip K. Dick e sobre o livro que deu origem a "Blade Runner - o caçador de androides", filme de Ridley Scott. Lembro de ter assistido a adaptação há anos, por sugestão de um professor, e de não ter compreendido muito bem. Felizmente, após a indicação da Mell, pude finalmente ter contatato com "Androides sonham com ovelhas elétricas?" e posso dizer que o livro é muito melhor. Ah, e agora posso também riscar mais um livro da minha lista TBR e dizer que cumpri uma das metas para este ano.

"Androides sonham com ovelhas elétricas?", de Philip K. Dick, foi publicado em 1968 e traz uma história ambientada no então futurístico ano de 1992. Após a Guerra Mundial Terminus, a Terra foi devastada e a maior parte da população migrou para outros planetas, como Marte, que são chamados de colônias. Aqueles que ficaram - divididos entre Normais e Especiais - vivem em meio a uma poeira radioativa que afeta seus genes, causando diversos problemas de saúde, entre eles, a infertilidade. Os Especiais são as pessoas que foram afetadas pela poeira e que, por isso, não podem deixar o planeta e vivem excluídos. 

A poeira também é responsável pela extinção de praticamente toda a vida terrestre, de forma que animais se tornaram artigos de luxo, capazes de conferir status a quem os possuir. A tecnologia, já bastante avançada, permitiu a criação de androides com o intuito de realizar serviços nas colônias. Parte máquinas e parte materiais biológicos, os androides atingem a cada novo modelo um patamar de semelhança - física e intelectual - com os seres humanos, de forma que é quase impossível distinguir um do outro. A principal diferença se encontra na capacidade de sentir empatia, exclusividade dos seres humanos. Ao longo das décadas, androides cansados da servidão fugiram para a Terra com o intuito de viver em liberdade, porém, ao chegar são encontrados pelos caçadores de recompensa que os "aposentam". 

Logo no início, o leitor é apresentado a Rick Deckard, um caçador de recompensas que vive com sua esposa em San Francisco e que, desde que sua ovelha verdadeira morreu, tem como principal objetivo a obtenção de um novo animal verdadeiro, pois acredita que isto irá agregar mais significado à sua existência e elevará o status de sua família. Enquanto esse dia não chega, ele vive de aparências com uma ovelha elétrica. Tudo indica que sua vida irá melhorar quando recebe uma nova missão: aposentar seis androides Nexus-6 fugitivos e receber um excelente pagamento por isso. Ao mesmo tempo em que segue com a história de Rick, o enredo também nos leva à J. R. Isidore, um especial que teve o seu QI reduzido pela poeira e vive solitário em um prédio abandonado e dominado pelo "bagulho" até o dia em que conhece Pris, uma das Nexus-6 procuradas por Rick.
Por meio de uma narrativa envolvente e direta, Philip K. Dick conduz o leitor por uma série de reflexões existenciais ao mesmo tempo em que levanta questões sobre avanços tecnológicos e científicos e até onde estes levarão a humanidade. Ao longo de toda a leitura somos apresentados à ideias, concepções e contradições que nos fazem perguntar o que de fato faz com que um ser seja considerado humano. São muitos os trechos em que Deckard age e pensa como um ser inanimado, quase como uma máquina programada para desempenhar uma função. Há também os momentos em que os androides se comportam de maneira quase humana, demonstrando sentimentos e ambições, como a vontade de viver e a busca por emoções.

Além desta questão principal, o autor também aproveita para fazer críticas à sociedade de seu tempo por meio do comportamento e de aspectos típicos da realidade pós-apocalípita de sua história. É assustador perceber que o que era criticado nos anos 1960 ainda se faz relevante hoje, como a ideia de ter para ser. No romance, Deckard, com o intuito de conseguir status social, faz o possível para que seus vizinhos acreditem que a sua ovelha elétrica é verdadeira, pois seria vergonhoso admitir que não tem dinheiro para comprar um animal. É fácil perceber forma de pensamento semelhante nos dias atuais, marcados pelo consumismo exacerbado e o exibicionismo em redes sociais. 

A ideia de escapismo - também bastante atual - é abordada na obra de duas formas: pela indução de sensações e pela religião. É possível observar que na sociedade criada por K. Dick há um certo vazio existencial e as pessoas, à procura de algum preenchimento espiritual, recorrem ao mercerismo - religião, na qual os adeptos fazem uma fusão por meio de um mecanismo chamado caixa de empatia. Nos dias em que está se sentindo triste, por exemplo, uma pessoa pode recorrer ao sintetizador de ânimo e em poucos minutos seu humor é alterado. E aqui encontramos mais semelhanças com a atualidade, quando muitas vezes nos anestesiamos para fugir da realidade.



De forma geral, gostei de "Androides sonham com ovelhas elétricas?", porém não irei negar que senti estranhamento e dificuldade de imersão ao longo da leitura. Acredito que isso tenha ocorrido porque - ainda! - não estou acostumada com ficção científica, que é um gênero que exige tempo para que o leitor consiga se entregar completamente ao que está escrito nas páginas. Também senti falta de mais informações e/ou explicações acerca do mercerismo, um conceito complexo e interessante que não ficou tão claro (pelo menos para mim). Ainda assim, penso que foi uma leitura válida, que me fez sair da minha zona de conforto e levantou questões interessantes. Com certeza vou procurar outras obras do autor.