(Ou "Aquele com a problemática da protagonista YA sem personalidade")
Tenho um certo fascínio por sereias e culpo a Disney por isso. Não que eu tenha muito conhecimento sobre essas criaturas mitológicas, porque não tenho. Ainda assim, sempre me interesso quando descubro que elas serão tema de alguma história. Dito isto, nem preciso afirmar que me empolguei bastante quando soube que a editora Seguinte publicaria "A Sereia", da Kiera Cass, né? Tendo como base a minha experiência anterior com a autora, me preparei para uma leitura leve, divertida, descontraída...e me frustrei.

Publicado originalmente em 2009, "A Sereia" é o livro de estreia de Kiera Cass e, ao contrário dos demais livros lançados pela autora, não faz parte de uma série. Aqui somos apresentados à Kahlen, uma jovem dos anos 1930 que, durante um naufrágio que tirou a vida de todos os demais passageiros do navio - incluindo toda a sua família -, recebe uma chance de sobrevivência, ao ser transformada em uma sereia. Porém, sua nova vida tem um preço: durante cem anos ela deverá servir a Água, alimentando-a com  as vítimas de seu canto mortal. Após este período - durante o qual ela não adoecerá ou envelhecerá e não deverá falar com humanos -, se tiver cumprido a sua parte do acordo, ela poderá ser livre para viver novamente como humana.

Quando já soma oitenta anos de servidão, Khalen é a sereia exemplar; cumpre suas funções sem deixar margem para críticas e cuida de suas irmãs (outras três meninas-sereias que também foram salvas pela Água), que a enxergam como uma inspiração. Porém, por trás da postura forte e de liderança, Khalen sofre pelas vítimas dos naufrágios e se culpa por ter lhes roubado a vida. Quando não está na companhia das irmãs, ela se refugia em um campus universitário, onde pode se misturar com humanos e fingir ser um deles. Neste ambiente, ela conhece Akinli, um rapaz que parece enxergá-la além de sua beleza de sereia e demonstra um real interesse em conhecê-la.

De forma geral, a leitura de "A sereia" foi tranquila. O livro começa bem, com a narrativa fluida já conhecida de Kiera Cass, que tem como característica fazer com que o leitor não largue o livro e nem perceba que passou horas lendo. Assim, a leitura me fisgou logo no início, quando temos a descrição do naufrágio que marca o começo da vida de Kahlen como sereia. Porém, com o passar dos capítulos - especificamente, a partir da introdução do romance - , a autora perde a mão e, como mencionei no início do texto, o livro se revela uma decepção. Vou tentar explicar os motivos a seguir.

Protagonista sem personalidade e instalove

Primeiramente, acho importante dizer que 1) apesar de não ser o que me atrai para uma história, eu não tenho problema algum com romances; 2) eu já conheço o estilo da Kiera Cass e sabia que o romance consumiria parte considerável da história. Com esse pensamento em mente, o que eu esperava era um mínimo de desenvolvimento e coerência. E, claro, algo de inspirador sobre a protagonista, que perde feio para uma porta no quesito personalidade.

Comecemos então pelo instalove (amor instantâneo). Se tem algo que me irrita em romances YA é a rapidez com a qual o casal se conhece e se apaixona loucamente. Kahlen e Akinli se conhecem, em uma bela tarde resolvem fazer um bolo e no dia seguinte já se amam perdidamente e se tornam a razão de existir um do outro. Nem preciso dizer que não comprei a ideia dos dois como casal, certo? Até entendi o lado do Akinli, afinal, a moça é uma sereia e entende-se que essas criaturas são ~feiticeiras~. No entanto, nada será capaz de me explicar o porquê do amor incondicional e sem qualquer tipo de questionamento que Kahlen sente pelo moço. E isso acontece tanto porque a autora não trabalhou este aspecto na construção do romance, quanto porque o cara é uma versão genérica da junção de todos os clichês de bom moço de comédia romântica adolescente. Ou seja, ele não parece real.
Ainda na ~problemática~ da protagonista, acho importante dizer que Kahlen é um desserviço. Não bastasse o instalove, a moça perde o foco quando conhece Akinli. Vejam bem, ela viveu mais de oitenta anos, viu mudanças grandiosas acontecerem com a humanidade, ela tem uma "missão" de liderar e tomar conta de suas irmãs; resumindo: Kahlen sabe quem é e tem um objetivo de vida...até conhecer Akinli, por quem resolve existir. E para não dizerem que estou exagerando, leiam vocês mesmos:

Acho que ninguém seria capaz de existir por outra pessoa durante uma vida inteira. (...) Mas talvez seja possível. Quando se encontra a pessoa certa. Neste momento, estou pensando em viver por você. (p. 174)

Será que Kiera Cass não pensou no quanto essa ideia de "viver por alguém" é perigosa, principalmente quando seu público leitor é constituído, em sua maioria, por meninas adolescentes que ainda estão se descobrindo como mulheres e indivíduos? Que esse mesmo público busca referências naquilo que consome intelectualmente por meio do que lê, assiste e escuta? Toda a ideia de "viver por alguém" é errada, seja você menino ou menina. Não se vive por alguém, se vive por você. Kahlen se esquece de quem é para viver por Akinli.
O livro traz uma introdução da autora, que explica que na época em que escreveu "A sereia" não conseguiu fazer a publicação de forma apropriada. Assim, para esta nova edição, ela revisou o texto e fez algumas modificações. Confesso que tenho receio de acreditar em tal afirmação. Não consigo conceber a ideia de que, em pleno 2016, uma autora e sua equipe deixaram essa protagonista desprovida de personalidade passar. No que diz respeito a Akinli, apesar de não termos acesso ao que ele está pensando - a história é narrada por Kahlen -, sinto que ele também se anula pelo relacionamento. Então o que temos aqui é uma relação de dependência entre os dois e, como apontei anteriormente, isso é bem problemático.

Universo mal construído e elementos mal explorados


Logo no início da história, descobrimos as regras da vida como sereia, sendo a principal delas a função de alimentar a Água. Esta é uma entidade/força poderosa com grande poder de destruição, eu acho. Kiera Cass não deixou muito claro para o leitor qual é a importância da Água, quais são as suas intenções e quais são as consequências de não a alimentar. Apenas sabemos que ela cria as sereias em troca de ajuda para se alimentar e que as meninas a enxergam como uma mãe, fazem o que ela manda e fica por isso mesmo. Senti falta de uma elaboração melhor do universo de fantasia, assim como de  maior exploração da mitologia das sereias.

Falando nas sereias, comentemos agora sobre aquele que é possivelmente o melhor aspecto do livro: a relação de Kahlen com suas irmãs. Após se transformarem em sereias, as meninas não podem se comunicar com humanos e, apesar de viverem entre eles, se isolam e mudam de residência/cidade/país constantemente (eis aqui outra coisa mal explicada: como elas arranjam dinheiro para financiar essas mudanças e bancar o padrão de vida que levam?). Assim, na companhia apenas de suas iguais, elas estabeleceram uma relação de família e podem sempre contar umas com as outras. É legal poder ver o quanto elas se compreendem e se apoiam em momentos difíceis. Porém, é preciso ressaltar que a autora não se aprofunda ao falar sobre as outras sereias. Elizabeth, Miaka, Aisling e Padma parecem ser personagens interessantes mas, infelizmente, assim como aconteceu com Akinli, o leitor não tem chance de conhecê-las direito, pois suas caracterizações são muito superficiais. É como se pudéssemos enxergar apenas o esboço delas.
Para concluir, apesar de trazer uma proposta interessante, "A sereia" se mostrou uma leitura pouco satisfatória, pois traz uma história previsível do início ao fim, com um fraco desenvolvimento de personagens e de enredo e pouca explicação acerca da mitologia e do universo criados pela autora. Não recomendo a leitura e pretendo me manter distante de futuras publicações de Kiera Cass.

Livro enviado pela editora em parceria com o blog.

- Michas


2 Comentários

  1. Michas, assino embaixo do seu texto, assino muito! O romance é realmente muito problemático, o mundo que ela criou não convence, personagens pouco carismáticos. Achei um livro beeeem dispensável!
    Ps: adorei os gif's! hahah

    Beijos! <3

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  2. Amandinha :)
    Nossa, esse livro é todo errado. Fiquei surpresa que tenha sido publicado. Sinceramente, acho que a editora só pensou mesmo nos lucros que o nome Kiera Cass traz. Como você disse, é uma leitura bastante dispensável.
    Hahahaha, virei a louca dos gifs! Tô adorando usar nos textos; deixa tudo mais dinâmico ;)

    Beijos!

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