Nos últimos dias andei pensando muito na palavra mudança e no que ela significa para mim de uma forma mais conectada ao ~meu eu interior~. Claro, há aquelas mudanças mais óbvias por serem visíveis, como um corte de cabelo. Porém, gostaria de me ater ao tipo de mudança mais sutil, aquele que acontece com a gente de forma mais lenta e gradual e que nem sempre é tão perceptível para os outros. E quando é, normalmente é só para quem nos conhece muito bem.

Eu gosto de mudanças, mas não sei se foi sempre assim. É sério, não sei dizer. O desconhecido me assusta, porém, sou o tipo de pessoa que opta pelo desconhecido quando o conhecido deixa de me satisfazer. Partindo da ideia de que aqui a mudança seria o desconhecido, por mais assustadora que ela seja, eu gosto de sua chegada. Como ser humano, acredito que estou em constante transformação; a cada dia que durmo, deixo lentamente de ser quem eu sou para me transformar em outra pessoa e isso é muito louco, mas também é muito lindo. Muitas possibilidades surgem a partir das mudanças.


E o meu tipo de mudança preferido é aquele que a gente consegue perceber justamente quando está acontecendo. A princípio, não faz muito sentido; um dia você acorda, se olha no espelho e não reconhece aquela pessoa que olha de volta e aí, você sabe que ela chegou, a mudança. Nem sempre é possível saber o que a motiva ou em quantos estágios ela irá ocorrer; se será leve ou intensa; se será permanente. O não saber é uma constante e é aterrorizante. Mas também é intrigante e interessante.

Há quase um ano iniciei o processo de mudança que acho que ainda estou vivendo e os últimos doze meses foram uma verdadeira revolução interna, na qual verdades absolutas cederam espaço para dúvidas, portas foram fechadas enquanto outras se abriram e novas convicções nasceram. E durante todo este tempo uma sensação de desconforto se fez muito presente. Um desconforto inexplicável e incontrolável. Como se eu estivesse desajustada em relação à mim, meio fora de sintonia comigo. Como se a pessoa dentro do meu corpo não fosse eu. Um desconforto que tira todo o nosso sono e suga as nossas energias. O tipo de situação que a gente só vive quando a mudança chega. Porque é impossível se sentir confortável quando a cada dia você se torna um novo alguém. Na real, é impossível viver quando a cada dia você é um novo alguém, então, posso dizer que nos últimos doze meses eu assisti a minha vida acontecendo sem ter muito controle das coisas e de mim. Eu apertei o botão do piloto automático e esperei pelo melhor.


Pensando sobre este período de turbulência, percebi que hoje não sou mais a pessoa que era há quase um ano. Mas ao mesmo tempo, sinto que não sou uma pessoa completamente nova como as que fui nos últimos meses. É como seu eu fosse uma nova eu, mas ao mesmo tempo uma antiga eu. Uma eu que achei que não seria mais, mas que, no fundo, deve ser a verdadeira eu. A eu de sempre. A eu que se sente confortável sendo...eu.

Não sei quando foi que deixei de ser eu e comecei a mudar, só sei que a vida, de vez em quando, dá uma chacoalhada nas coisas e tudo desmorona, como uma demolição. E é no meio dos escombros que a gente tenta se reconstruir. Pegamos um pedaço e tentamos juntar com outro, como se montássemos um quebra-cabeça e é nesse jogo de tentativa e erro à procura do encaixe perfeito que surge o desconforto, o desajuste, a falta de sintonia. E seguimos nessa até que uma hora a gente acerta e a figura começa a ganhar forma, a fazer sentido. Aos poucos, recuperamos o controle e desabilitamos o piloto automático.

Não faço a menor ideia se esta é a parada final do trem descarilhado no qual tenho viajado, mas sinceramente, espero que sim porque finalmente sinto que posso vestir a minha roupa de Michelle e me sentir confortável nela, sem sentir o desajuste, a falta de ~caimento~, como se estivesse muito apertada ou muito larga. Ainda precisa de alguns remendos para ficar perfeita, mas ela já me permite respirar e esse é o meu maior alívio porque eu realmente gosto de respirar. E, mais que isso, eu gosto de ter controle sobre a minha respiração. Eu gosto de ter controle sobre as coisas e sobre mim. E é bom, muito bom mesmo, me ter de volta.



4 Comentários

  1. O texto mais lindo até agora. 👏👏👏👏👏👏

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  2. Eu gosto de mudanças de pensamento, personalidade, essas "internas", mas todas as outras dificilmente me atraem. Tenho uma certa tendência a ficar na zona de conforto e só sair dela quando extremamente necessário.

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  3. Awn, obrigada!
    A ideia para escrever veio meio do nada e aí, precisei colocar "no papel". Nem sabia que tinha tanta coisa guardada dentro de mim, haha.

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  4. Oi, Mareska :)
    Interessante esse contraste de formas de mudança. Não sei se gosto de todos os tipos de mudanças, mas acho que algumas estão atreladas àquelas que ocorrem internamente, então, acabam sendo inevitáveis para mim.

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