(Possivelmente o texto mais difícil que já escrevi)

Eu adoro o meu pai. E eu quero deixar isso registrado aqui porque, como disse, vou escrever para me lembrar. Então, eu adoro o meu pai e desde que me entendo por gente é assim que eu penso. Meu pai é aquele cara alto astral, que chega nos lugares e começa a falar com todo mundo e tá sempre fazendo piada com qualquer coisa. O senso de humor dele é incrível e sensacional. Posso estar vivendo o pior dia da minha vida, mas basta ele fazer algum comentário aleatório sobre qualquer coisa banal, e eu já tô rindo e a vida já tá melhor. É aquele tipo de pessoa que deixa o ambiente mais agradável. Quando ele quer, claro.

Meu pai também sabe ser um cara muito chato. Sabe aquele tipo de pessoa que vive acelerada, que quer as coisas para ontem e espera que todo mundo compreenda todos os raciocínios na mesma velocidade que ela? Meu pai é assim. Ele também tem mania de achar que sabe tudo sobre todos os assuntos do universo e se ele coloca na cabeça que o jeito que ele pensa é o jeito certo, ai de quem discordar. Não, ele não é o tipo intolerante do Facebook, muito pelo contrário, ele é super adepto do diálogo e do debate, mas é muito teimoso e raramente muda de ideia quando acha que está certo. Ele é advogado e, acredite, ele vai tentar fazer com que você passe a enxergar as coisas do jeito dele.

É por causa dele que me tornei uma pessoa questionadora. Meu pai nunca tentou me dizer o que pensar ou como pensar. O que ele fez foi me ensinar a pensar por mim e eu acho que esse é um dos melhores presentes que ele poderia me dar. Quando, ainda na adolescência, comecei a lidar com ~crises existenciais~, foi ele que me assegurou de que 1) é normal passar por isso e 2) eu ia ficar bem. E ele continua a fazer isso sempre. Raramente discutimos e isso acontece porque a gente se parece demais e pensamos mais ou menos da mesma maneira sobre a-vida-o-universo-e-tudo-mais. No entanto, por sermos impacientes e termos temperamentos explosivos, quando nossas ideias não estão de acordo o mundo desaba e tem muita gritaria e disputa de egos. Eu odeio brigar com meu pai. E odeio ainda mais o fato de que não consigo ficar com raiva dele quando a gente briga.


Meu pai não teve muitas oportunidades quando criança e adolescente, mas ainda assim, ele agarrou todas as que apareceram e conseguiu ir mais longe que todos os irmãos dele. Eu sempre poderei encontrar em sua história de vida o melhor exemplo de como não desistir diante das adversidades. Eu morro de orgulho do meu pai e quero que um dia ele sinta pelo menos metade desse orgulho em relação a mim. Ele é meio sonhador também, apesar de ser super pé no chão. Sempre que eu apareço com alguma ideia de Projeto Pessoal, ele é o primeiro a apoiar e eu tenho certeza de que  se eu dissesse "Pai, quando eu crescer quero ser princesa-sereia-Jedi-pirata-astronauta" ele faria de tudo ao seu alcance para me ajudar a realizar esse sonho impossível.

Foi com ele que conheci Julio Verne, Mark Twain e histórias de detetive. Aliás, meu pai é o maior culpado por eu ter me transformado na leitora que sou. Quando eu era criança, ele me contava histórias inventadas antes de dormir - todas distorções de contos de fadas com uma pitada de humor. Ele nunca me deu a chance de não gostar dos Beatles, mas eu não tenho nenhum ressentimento em relação a isso. Muito pelo contrário, serei eternamente grata. John Lennon é o nosso favorito. Também sou muito agradecida pela insistência sem tamanho para que eu assistisse De volta para o futuro.

Meu pai me ensinou que eu não preciso ser boa em tudo, mas sim boa naquilo que eu sei fazer. Acreditem, para uma criança de sete anos frustradíssima por não entender matemática, escutar essas palavras de um adulto foi muito libertador. E ele nem se incomodou de repetir o mesmo discurso na época em que prestei o vestibular e não passei de primeira. Ele nunca me pressionou para ter todas as respostas sobre o meu futuro na ponta da língua e nem me condena pelos erros que cometi. E quando me culpo pelas coisas que fiz errado, ele sempre coloca a mão no meu ombro e fala "filha, tá tudo bem, eu estou aqui e vou te ajudar". Meu pai é muito legal.

Quando eu era criança, achava que meu pai era o cara mais forte do mundo. Ele sempre conseguia abrir os potes de azeitona e era muito eficaz na hora de eliminar uma barata (ele ainda é!). Ah, e ele nunca ficava doente. É sério, não pegava nem resfriado. E quando a gente ia para a praia, ele me colocava nos ombros e nunca reclamava do peso. Mas aí, a gente cresce e percebe que nosso pai é gente-como-a-gente só que com alguns anos a mais. A gente vê nosso pai sofrendo quando o nosso avô fica doente e se dá conta de que nosso pai também é filho. E aí, vem o medo de ver nosso pai doente, porque a gente já percebeu que, por mais forte que ele seja, ele não é um super homem e ele pode (e provavelmente vai) ficar doente. Nosso pai é humano. E a vida adulta é uma droga.

Eu morro de medo do dia que meu pai não estará mais aqui. Tem dias que chego a desejar que eu vá embora antes dele para que eu não tenha que lidar com o sofrimento e a ausência, mas aí, lembro que deve ser ainda mais doloroso para um pai perder uma filha. Então respiro, jogo esses pensamentos no fundo da minha mente e esqueço deles por um bom tempo. E assim a gente segue vivendo, aproveitando cada momento, escutando cada conselho, dando risada de cada piada ruim e evitando toda e qualquer discussão. Tenho abraçado muito o meu pai, mesmo que ele não seja tão fã de abraços, e adoro escutar as coisas que ele tem a me dizer sobre o futebol brasileiro e mundial, mesmo que eu não entenda nada. Gosto de conversar com ele sobre super heróis, séries da Netflix (ele não perde uma oportunidade de me falar para assistir Breaking Bad e de tecer elogios à Mad Man) e nossos preferidos em Game of Thrones (ele gosta do Tyrion, eu gosto da Daenerys). Adoro quando o apresento a algo ~moderno~, tipo o Spotify, e ele me agradece.

E quanto à gratidão, não sei se algum dia serei completamente capaz de agradecer ao meu pai por tudo o que ele fez e continua a fazer por mim, mas prometo que farei o meu melhor. Pai, muito obrigada pelas histórias, pelos dentes de leite arrancados, pelas incontáveis horas no trânsito, pelas palavras de sabedoria, pelas piadas péssimas, por me apresentar aos melhores filmes dos anos 80, por me incentivar a seguir os meus sonhos e a não desistir, pela infância cheia de privilégios, por nunca deixar o chocolate acabar, por sempre me respeitar e me valorizar, por todos os livros, pelas milhares de vezes que assistimos A pequena sereia juntos, por cada risada e, sério, por ser o melhor pai do mundo sempre. Te amo, pai.

- Michas


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