Hoje é aniversário do meu amicão. 14 anos de pura gostosura e prepotência caninas. Um campeão! E como não poderia ser diferente, vou registrar algumas mirabolâncias do meu cérebro a respeito deste serzinho tão maravilhoso.

Scooby, meu amicão (e também filho adotivo), nasceu em 14 de outubro de 2002 e veio morar em minha residência quando tinha apenas 45 dias. O ocorrido foi um grande marco na vida desta que vos escreve pois até então, eu vivia em estado de verdadeiro pavor de cães. Meus pais já me explicaram milhares de vezes o porquê deste meu medo, mas até hoje nunca entendi muito bem. Algo a ver com um pastor alemão que morava na casa do vizinho e que latia muito alto quando eu era um bebê e me assustava pra caramba. De qualquer forma, até os meus 12 anos eu era uma pessoa que mudava de calçada para não ter que cruzar o caminho de um cachorro.

Certo dia, em um almoço na casa de amigos da família, fomos informados de que a cachorrinha deles havia tido filhotes e, como todos sabiam da minha relação com cães, me perguntaram se eu não queria tentar segurar um dos filhotinhos, só pra ver se eu não me sentia mais confortável. Foi assim que, em poucos minutos, estava eu sentada em um sofá enquanto segurava uma coisinha preta, de olhos fechados e extremamente quentinha. Fiquei assim por horas, completamente incapacitada de abandonar aquela bolinha dorminhoca que, vez ou outra, colocava uma linguinha rosa para fora e emitia uns barulhinhos agudos. Era o meu amicão. 


Naquele mesmo dia ficou decidido que assim que o pequeno estivesse um pouquinho mais velho, viria morar com a gente. Em um mês, preparamos tudo para a sua chegada: cobertorezinhos com estampa de bichinho, uma casinha com telhado vermelho, uma coleira colorida, pratos também coloridos, etc. Ah, claro, e um nome. Gostaria de dizer que há uma história super original por trás da escolha do nome, mas acho que não há nada de original em um cão chamado Scooby. Obviamente, Michelle, aquela que ama histórias de detetive since ever, não poderia escolher outro nome para seu amicão.

A primeira noite foi a mas difícil de todas. Ele sentia falta da mãe biológica, não queria dormir na casinha, não queria ficar sozinho e, durante a maior parte do tempo, ficava encolhido e/ou chorando. Coloquei a caminha ao lado da minha cama, ele latiu. Coloquei ele deitado do meu lado no meu travesseiro, ele resmungou. Cantei para acalmar seus nervos, ele nem deu bola. Chorei porque ele não dormia, ele chorou também. Por fim, decidimos que ele teria que aprender do jeito mais difícil. Scooby foi para a casinha e eu lhe emprestei Alfredo, meu falecido ursinho de pelúcia. Se Alfredo foi capaz de acalmar Michelle bebê, será capaz de acalmar Scooby filhote, pensei. Estava enganada. A noite foi escura e cheia de terrores. A pequena bolinha preta já demonstrava sua personalidade forte.

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Eventualmente, o problema da hora de dormir foi resolvido. E aí, novos problemas surgiram. Móveis tiveram seus "pés" mordidos e arranhados. Sapatos, almofadas e toalhas foram destruídos. Ursinhos de pelúcia foram assassinados. Pobre Alfredo! Meu amicão se revelou o cão. A definição da expressão "baixinho invocado". O pesadelo dos porteiros e entregadores. Nas ruas, um ser ameaçador e traiçoeiro. Dentro de casa, um pequeno príncipe mimado. Para mim, sempre um anjo. 

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Teve aquela vez em que resolvemos levá-lo para conhecer o mar. A descida para o litoral não foi gentil com o pequeno Belzebu, que depois de correr pelo banco traseiro enquanto latia para os reles mortais que cruzavam o caminho de sua carruagem, precisou lidar com os efeitos de tamanha agitação dentro de um carro em movimento. Passou mal. Se enrolou no tapete. A viagem foi concluída em silêncio.

Eu esperava que seu encontro com o mar se revelasse uma experiência impressionante, mas ele encarou tudo com naturalidade. Começou a andar em direção às ondas e, logo que suas patas deixaram de alcançar o chão, passou a nadar. Assim, sem mistério, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Já nasci sabendo nadar, plebeus, pensou ele, todo blasé. No mesmo dia, o anjo caído me arrastou junto com uma cadeira pelas areias da praia, enquanto agraciava todos ao redor com seu canto celestial. Decidimos não repetir a experiência. 

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E foi desse jeito que vivemos por oito anos. Nós, fingindo que tínhamos alguma autoridade. Ele, um gênio indomável. O terror das visitas e da vizinhança. O cachorro mais bravo do condomínio, segundo alguns. Extremamente adorável quando pulava na minha cama para me acordar. Apenas para revelar toda a sua classe e elegância ao fazer xixi em mim. Esse é o meu amicão. Tão lindo, tão fofo, tão encantador.

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Aí, veio a reforma e como meu bebê infernizava a vida dos vizinhos e dos pedreiros, precisou tirar férias na casa da minha avó, no interior. Durante meses, deixou de lado seu quintal apertado na cidade grande para ser rei de um gramado. Também se apegou bastante à vó, e ela se apegou à ele. Juntos, ele e o vô, saíam para passear e viviam aventuras. Foi então que precisamos tomar a difícil decisão. 

Eu amo meu amicão, sempre amei. Ele é um bichinho complicado, genioso, difícil de lidar. Mas amo cada traço de sua personalidade. Só de pensar nele, fico com um sorriso bobo na cara e sinto uma vontade imensa de libertar a minha Felícia interior. Quero apertar e abraçar e apertar e abraçar e esmagar. E brincar de jogar a bolinha. Fazer carinho naquela barriguinha. Morrer de amores pela manchinha branca que ele tem no peito, que parece uma gravatinha. EU AMO MUITO MEU AMICÃO. E foi por isso que, por mais difícil que tenha sido a decisão, precisei pensar no que era melhor para ele.

Eu estava no segundo ano da faculdade e só parava em casa à noite. Nos finais de semana, só estudava e fazia trabalhos. Minha irmã, prestes à encarar o vestibular, levava uma rotina semelhante e conciliava tudo com aulas de música. Meus pais trabalhavam fora o dia todo. Ainda que a casa não ficasse vazia o tempo inteiro, Scooby ficava solitário, confinado em um quintal. Ele não merecia isso.

Assim, meu filho adotivo de quatro patas saiu de casa. Como todas as despedidas (ainda que temporárias), esta foi bastante dolorosa. Mas toda vez que a dor e a saudade batem na porta, me lembro do bem que ele faz para a minha avó, de como meu avô brincava com ele e de como meu eterno bebê canino está feliz. A vida no campo lhe fez bem e hoje, Scooby é um cachorro bem mais calmo. Ainda que ele não abra mão de sua independência - acreditem, ele gosta de desaparecer por uns dias e mata todo mundo de desespero -, nunca perde a oportunidade de participar das reuniões familiares. Mesmo que para isso ele precise fazer um escândalo até que alguém o deixe entrar em casa. 

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Meu amicão está ficando velho. Seus pelos de cor marrom estão ficando brancos e seus olhinhos já não têm o mesmo brilho. Ele também não tem mais a mesma energia. Na última vez em que nos encontramos, pude sentir o seu dilema entre tirar uma soneca ou aproveitar a companhia de todos. Ele tentou fazer os dois. Não deu muito certo e acabou caindo no sono, exausto. Ele anda meio rabugento, sem muita paciência para os cachorros mais novos. Basta que um deles se aproxime para que ele liberte seu lado trevoso e parta logo para a ignorância. 

Ainda assim, nada mudou entre nós. À princípio, ele sempre se mostra agitado, sem paciência para carinhos e mimos, como se tivesse um milhão de coisas para fazer (é bem possível que tenha mesmo, já que é o rei de tudo); mas, depois de um tempo, se derrete, emite aqueles barulhinhos dengosos, balança o rabinho, deita no chão ou no meu colo e espera pelos abraços, pelas cócegas, pelos carinhos. E ele retribui do jeito afobado dele, pulando e lambendo e latindo. Tudo meio que ao mesmo tempo. Tão bonitinho, tão meigo, tão adorável.

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Nem consigo acreditar que já se passaram 14 anos desde que fui agraciada com a sua chegada em minha vida. No momento, só sei sentir um misto de amor e gratidão por esse pequeno ser e queria deixar isso registrado. 

Scooby, bebê, te amo imensamente. Feliz aniversário e muito obrigada por tudo. 






2 Comentários

  1. Que post incrivelmente lindo, Michas! ♥
    Dá pra sentir em cada palavra o amor por seu amicão. E isso é emocionante demais.
    Além de tudo isso seu texto está tão bem escrito e flui de uma maneira deliciosa, e assim faz com que entremos no sentimento dele. E eu sinto o que você quer dizer, porque tenho minha demoniazinha em casa também, aquela gata louca chamada Fiona xD (ainda escreverei sobre ela), que amo tanto.
    Enfim, uma das coisas mais bem escritas e belas que li esses tempos pela internet afora. :)

    Beijins pra você e pro seu lindo amicão, hihi.

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  2. Oi, Juli <3
    Awn, que bom que gostou do post. Fico meio besta quando penso no meu cachorro, haha. Amo muito.
    Sobre o texto fluir bem, muito obrigada! Não é todo dia que consigo fazer as palavras saírem de mim e sempre sinto que não fui clara o suficiente, ou que o texto não ficou legal. Saber que consegui transmitir o que sinto por meio das palavras me deixa feliz. Obrigada mesmo, de verdade.
    E, por favor, escreva sobre a Fiona! Vou adorar ler :)
    Beijos pra você e para ela, hehe!

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