Não vou nem enrolar vocês com desculpas esfarrapadas sobre o porquê de ter demorado tanto para trazer uma nova ~edição~ do meu diário de leitura. A real é: continuo não lendo muito, esqueci de escrever e, possivelmente, rolou um pouco de preguiça de minha parte. Pronto, eis a aí a verdade nua e crua. Agora que já esclareci tudo, vamos ao que mais importa no momento: as minhas quase inexistentes leituras recentes.

SDDS DOCTOR WHO

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(Ou "Aquele em com o básico-mas-saboroso pedaço de pizza de muçarela mal aproveitado")
Vez ou outra acontece de um autor bastante popular não despertar o menor interesse desta que vos escreve. Sarah Dessen entra nessa categoria. Não me levem à mal, não é nada pessoal, mas os livros dela sempre me pareceram bem açucarados e nada a ver comigo. Assim, me mantive distante do trabalho dela e permaneci feliz com a minha escolha até o fim do ano passado, quando "Os bons segredos" foi lançado e eu fiquei genuinamente interessada na premissa. Depois de ler a afirmação na capa do livro - "Sarah Dessen é a rainha do YA contemporâneo, com mais de 7 milhões de exemplares vendidos no mundo" -, fiquei intrigada e resolvi dar uma chance para a moça. Após quase dois meses (!!!) na companhia do livro, trago para vocês as minhas impressões de leitura.

Sydney Stanford tem dezesseis anos e durante toda a sua vida se sentiu ofuscada por seu irmão mais velho, Peyton, que sempre foi popular, carismático e o favorito de seus pais - que pareciam ignorar completamente os problemas nos quais ele se envolvia e as decisões erradas que ele tomava. Após se envolver em inúmeras ocorrências policiais, Peyton atingiu o limite quando decidiu dirigir bêbado, causando um acidente e deixando um jovem paralítico. Como resultado, foi para a prisão. Depois do escândalo e da exposição gerados pelo ocorrido, Sydney opta por abandonar a escola elitizada em que sempre estudou e na qual todos a conhecem e ingressa na escola pública da cidade, onde ninguém sabe quem ela é. Neste novo e estranho ambiente, ela entra em contato com uma realidade diferente da sua, estabelece laços de amizade e, pela primeira vez, tenta descobrir quem ela é de verdade, sem o comparativo com Peyton.

Como disse, resolvi dar uma chance à Sarah Dessen pois queria entender o porquê da alcunha "a rainha do YA contemporâneo" e, sinceramente, depois das muitas e muitas horas na companhia de "Os bons segredos", continuo sem entender. O livro não é ruim,  ele só não foi interessante ou criativo o suficiente para ser marcante, de forma que a experiência se revelou um verdadeiro déjà vu. Aliás, um longo e quase eterno déjá vu, porque ainda não consegui assimilar o fato de que a autora precisou de 408 páginas para contar esta história. Mesmo com uma narrativa simples, direta e fluida, houve momentos em que me senti entendiada com o que estava acontecendo. À espera de uma grande reviravolta que justificasse a média de 4 estrelas nas avaliações do Goodreads, terminei a leitura com um profundo sentimento de frustração. Eu queria ter gostado de "Os bons segredos", de verdade.
Numa tentativa bem estranha de fazer uma metáfora inteligente, diria que a minha experiência com o livro se assemelha àquela típica situação de domingo-preguiçoso-no-qual-queria-estar-morta em que ligo a TV no Discovery Home&Health e habilito o piloto automático, me permitindo vegetar por horas à fio ao acompanhar uma série de situações genéricas e que se repetem (noivas escolhendo vestidos, casas sendo reformadas, competições de culinária, etc.). A programação não é maravilhosa, mas o controle remoto está longe demais para me levantar do sofá, então continuo assistindo. "Os bons segredos" não é original e/ou interessante, mas era o que tinha, então continuei lendo. E li muitos capítulos sobre, essencialmente, a mesma coisa:

A Rotina de Sydney Stanford: 
1. Ir para a escola
2. No intervalo: conversar sobre batata-frita e, principalmente, a banda de rock dos amigos
3. Na volta para casa: parar na pizzaria da família dos amigos para almoçar
4. Ao chegar em casa, fazer a lição de casa e aguardar as possíveis ligações de Peyton feitas da prisão; se ele ligar, atender e conversar com ele um pouco. Se a mãe estiver em casa, passar o telefone para ela.
5. Jantar em família e depois dormir.
(Entre os itens - ou durante - parar para pensar sobre o crush e em como ele te deixa feliz apenas por existir)

Confesso que houve um exagero de minha parte aqui, mas, com exceção de algumas alterações no dia-a-dia da protagonista, a estrutura dos capítulos - e do livro! - é mais ou menos como foi apontado acima. Por meio de um enredo sem brilho e cheio de clichês, Sarah Dessen passou a impressão de querer contar a história de uma menina retraída e insegura que, a partir das experiências que vive e das pessoas que conhece,  vai, aos poucos, encontrando sua voz e descobrindo quem é. Até aí, tudo bem. O problema é que ela decidiu acrescentar mais ingredientes na trama e aquilo que poderia ser um básico-mas-saboroso pedaço de pizza de muçarela se transformou nisso: 

O HORROR.
(Dica: às vezes, menos é mais).
Talvez, se a autora tivesse optado por focar na relação de Sydney com seus pais e amigos e no fato de que tais relacionamentos foram cruciais para o amadurecimento da protagonista, o enredo tivesse funcionado para mim. Mas, ao introduzir várias outras camadas apenas para não explorá-las ou trabalhá-las de forma superficial, Sarah Dessen passou a impressão de estar perdida em sua história e de não saber completamente o que estava fazendo.

Ela perde a oportunidade de tratar com mais profundidade assuntos sérios como o abuso psicológico sofrido por Sydney por parte de um amigo da família e a relação bastante problemática de Sydney com seus pais - são inúmeras as situações em que a protagonista é ignorada ou injustiçada pela mãe e o pai, ao perceber isso, não faz absolutamente nada. Há também a questão da obsessão da mãe por Peyton - e a conexão disso com as escolhas dele -, assim como o fato de que ela é bem neurótica e control freak. Também senti que há uma questão de auto-estima mal explorada a partir dos personagens Mac - que foi obeso durante a infância e sofreu por conta disto - e Layla, que busca algum tipo de validação por meio de um relacionamento com um cara bem estúpido.

Como disse, a autora apenas pincela tais questões, mas não se aprofunda em nenhuma delas, deixando para "solucioná-las" às pressas nas últimas páginas, o que só contribui para o aspecto superficial de tudo. Ainda assim, preciso destacar mais um ponto positivo, além da narrativa fluida de Sarah Dessen: a relação de Sydney com Layla. É bonito observar a amizade das duas e como elas estão sempre dispostas a se ajudar e a se apoiar. Gostei de como a autora conseguiu ser realista neste aspecto. Nesses tempos de trevas, é ótimo que um livro YA mostre personagens femininas mais interessadas em serem amigas do que em se odiarem e/ou brigarem por caras.

Para concluir: "Os bons segredos" se revelou uma leitura fácil e divertida em alguns momentos, mas bastante mediana, superficial e esquecível. Acredito que agrade àqueles que já conhecem e gostam da autora e aqueles que gostam de se aventurar no universo da literatura YA contemporânea.

Livro cedido pela editora em parceria com o blog.

PS: Se você gosta de comer pizza com ketchup, por favor, não se ofenda. Não é nada pessoal.

- Michas


Há três semanas, a Rafaela me indicou para responder a tag das 20 músicas, traduzida pela Karol Pinheiro, e como estou nessa vibe de voltar a escutar músicas como se não houvesse amanhã - obrigada por existir, Spotify! -, adorei a ideia e só demorei para responder porque levo esse tipo de coisa muito a sério. Assim, depois de muito pensar, refletir, pensar de novo, pedir ajuda para as amigas e recorrer ao Last.FM, cheguei à uma lista que reflete muito do meu gosto pessoal, mesclando hits de diferentes fases da trilha sonora da minha vida. Já aviso que este será um post longo, mas prometo que será divertido e cheio de links e gifs. Então, sem mais delongas, peguem seus fones de ouvido e vamos ao trabalho!
(Caso você queira escutar todas as músicas em ordem enquanto lê o post, fiz uma playlist lá no Spotify. Para escutar cada música separadamente e/ou assistir ao clipe (quando houver), basta clicar no título da música).

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(Ou "Aquele com a problemática da protagonista YA sem personalidade")
Tenho um certo fascínio por sereias e culpo a Disney por isso. Não que eu tenha muito conhecimento sobre essas criaturas mitológicas, porque não tenho. Ainda assim, sempre me interesso quando descubro que elas serão tema de alguma história. Dito isto, nem preciso afirmar que me empolguei bastante quando soube que a editora Seguinte publicaria "A Sereia", da Kiera Cass, né? Tendo como base a minha experiência anterior com a autora, me preparei para uma leitura leve, divertida, descontraída...e me frustrei.

Publicado originalmente em 2009, "A Sereia" é o livro de estreia de Kiera Cass e, ao contrário dos demais livros lançados pela autora, não faz parte de uma série. Aqui somos apresentados à Kahlen, uma jovem dos anos 1930 que, durante um naufrágio que tirou a vida de todos os demais passageiros do navio - incluindo toda a sua família -, recebe uma chance de sobrevivência, ao ser transformada em uma sereia. Porém, sua nova vida tem um preço: durante cem anos ela deverá servir a Água, alimentando-a com  as vítimas de seu canto mortal. Após este período - durante o qual ela não adoecerá ou envelhecerá e não deverá falar com humanos -, se tiver cumprido a sua parte do acordo, ela poderá ser livre para viver novamente como humana.

Quando já soma oitenta anos de servidão, Khalen é a sereia exemplar; cumpre suas funções sem deixar margem para críticas e cuida de suas irmãs (outras três meninas-sereias que também foram salvas pela Água), que a enxergam como uma inspiração. Porém, por trás da postura forte e de liderança, Khalen sofre pelas vítimas dos naufrágios e se culpa por ter lhes roubado a vida. Quando não está na companhia das irmãs, ela se refugia em um campus universitário, onde pode se misturar com humanos e fingir ser um deles. Neste ambiente, ela conhece Akinli, um rapaz que parece enxergá-la além de sua beleza de sereia e demonstra um real interesse em conhecê-la.

De forma geral, a leitura de "A sereia" foi tranquila. O livro começa bem, com a narrativa fluida já conhecida de Kiera Cass, que tem como característica fazer com que o leitor não largue o livro e nem perceba que passou horas lendo. Assim, a leitura me fisgou logo no início, quando temos a descrição do naufrágio que marca o começo da vida de Kahlen como sereia. Porém, com o passar dos capítulos - especificamente, a partir da introdução do romance - , a autora perde a mão e, como mencionei no início do texto, o livro se revela uma decepção. Vou tentar explicar os motivos a seguir.

Protagonista sem personalidade e instalove

Primeiramente, acho importante dizer que 1) apesar de não ser o que me atrai para uma história, eu não tenho problema algum com romances; 2) eu já conheço o estilo da Kiera Cass e sabia que o romance consumiria parte considerável da história. Com esse pensamento em mente, o que eu esperava era um mínimo de desenvolvimento e coerência. E, claro, algo de inspirador sobre a protagonista, que perde feio para uma porta no quesito personalidade.

Comecemos então pelo instalove (amor instantâneo). Se tem algo que me irrita em romances YA é a rapidez com a qual o casal se conhece e se apaixona loucamente. Kahlen e Akinli se conhecem, em uma bela tarde resolvem fazer um bolo e no dia seguinte já se amam perdidamente e se tornam a razão de existir um do outro. Nem preciso dizer que não comprei a ideia dos dois como casal, certo? Até entendi o lado do Akinli, afinal, a moça é uma sereia e entende-se que essas criaturas são ~feiticeiras~. No entanto, nada será capaz de me explicar o porquê do amor incondicional e sem qualquer tipo de questionamento que Kahlen sente pelo moço. E isso acontece tanto porque a autora não trabalhou este aspecto na construção do romance, quanto porque o cara é uma versão genérica da junção de todos os clichês de bom moço de comédia romântica adolescente. Ou seja, ele não parece real.
Ainda na ~problemática~ da protagonista, acho importante dizer que Kahlen é um desserviço. Não bastasse o instalove, a moça perde o foco quando conhece Akinli. Vejam bem, ela viveu mais de oitenta anos, viu mudanças grandiosas acontecerem com a humanidade, ela tem uma "missão" de liderar e tomar conta de suas irmãs; resumindo: Kahlen sabe quem é e tem um objetivo de vida...até conhecer Akinli, por quem resolve existir. E para não dizerem que estou exagerando, leiam vocês mesmos:

Acho que ninguém seria capaz de existir por outra pessoa durante uma vida inteira. (...) Mas talvez seja possível. Quando se encontra a pessoa certa. Neste momento, estou pensando em viver por você. (p. 174)

Será que Kiera Cass não pensou no quanto essa ideia de "viver por alguém" é perigosa, principalmente quando seu público leitor é constituído, em sua maioria, por meninas adolescentes que ainda estão se descobrindo como mulheres e indivíduos? Que esse mesmo público busca referências naquilo que consome intelectualmente por meio do que lê, assiste e escuta? Toda a ideia de "viver por alguém" é errada, seja você menino ou menina. Não se vive por alguém, se vive por você. Kahlen se esquece de quem é para viver por Akinli.
O livro traz uma introdução da autora, que explica que na época em que escreveu "A sereia" não conseguiu fazer a publicação de forma apropriada. Assim, para esta nova edição, ela revisou o texto e fez algumas modificações. Confesso que tenho receio de acreditar em tal afirmação. Não consigo conceber a ideia de que, em pleno 2016, uma autora e sua equipe deixaram essa protagonista desprovida de personalidade passar. No que diz respeito a Akinli, apesar de não termos acesso ao que ele está pensando - a história é narrada por Kahlen -, sinto que ele também se anula pelo relacionamento. Então o que temos aqui é uma relação de dependência entre os dois e, como apontei anteriormente, isso é bem problemático.

Universo mal construído e elementos mal explorados


Logo no início da história, descobrimos as regras da vida como sereia, sendo a principal delas a função de alimentar a Água. Esta é uma entidade/força poderosa com grande poder de destruição, eu acho. Kiera Cass não deixou muito claro para o leitor qual é a importância da Água, quais são as suas intenções e quais são as consequências de não a alimentar. Apenas sabemos que ela cria as sereias em troca de ajuda para se alimentar e que as meninas a enxergam como uma mãe, fazem o que ela manda e fica por isso mesmo. Senti falta de uma elaboração melhor do universo de fantasia, assim como de  maior exploração da mitologia das sereias.

Falando nas sereias, comentemos agora sobre aquele que é possivelmente o melhor aspecto do livro: a relação de Kahlen com suas irmãs. Após se transformarem em sereias, as meninas não podem se comunicar com humanos e, apesar de viverem entre eles, se isolam e mudam de residência/cidade/país constantemente (eis aqui outra coisa mal explicada: como elas arranjam dinheiro para financiar essas mudanças e bancar o padrão de vida que levam?). Assim, na companhia apenas de suas iguais, elas estabeleceram uma relação de família e podem sempre contar umas com as outras. É legal poder ver o quanto elas se compreendem e se apoiam em momentos difíceis. Porém, é preciso ressaltar que a autora não se aprofunda ao falar sobre as outras sereias. Elizabeth, Miaka, Aisling e Padma parecem ser personagens interessantes mas, infelizmente, assim como aconteceu com Akinli, o leitor não tem chance de conhecê-las direito, pois suas caracterizações são muito superficiais. É como se pudéssemos enxergar apenas o esboço delas.
Para concluir, apesar de trazer uma proposta interessante, "A sereia" se mostrou uma leitura pouco satisfatória, pois traz uma história previsível do início ao fim, com um fraco desenvolvimento de personagens e de enredo e pouca explicação acerca da mitologia e do universo criados pela autora. Não recomendo a leitura e pretendo me manter distante de futuras publicações de Kiera Cass.

Livro enviado pela editora em parceria com o blog.

- Michas