É uma verdade universalmente desconhecida o fato de que eu levo um pouco a sério a escolha da primeira leitura do ano. Não sou uma pessoa que pensa muito antes de decidir qual será o próximo habitante da minha mesa de cabeceira; costumo escolher o que vou ler meio-no-impulso-meio-Deus-no-comando e se não rolar, tudo bem, vida que segue, tem outros livros. Contudo, a coisa muda de figura quando falamos da Primeira Leitura do Ano™.

Vejam bem, não estou falando apenas de uma leitura, mas sim daquele que será o pontapé inicial de mais uma jornada literária. Não posso simplesmente olhar para a estante e, aleatoriamente, tirar algo de lá. Não. A escolha do primeiro livro do ano é um procedimento que exige muito cuidado, dedicação, análise, pesquisa, etc. Gosto de pensar que a intensidade do esforço dedicado durante o processo é diretamente proporcional à qualidade literária do meu ano. As chances de encarar doze meses de leituras ~mais ou menos~ por conta de um começo mal planejado é real. E é por isso que começo a pensar no primeiro livro do ano desde dezembro. Deu certo na maioria dos casos.

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Se a memória não falha, comecei 2010 com as palavras de Michael J. Fox em Um otimista incorrigível. Lembro que, na época, havia acabado de sobreviver ao meu primeiro ano de faculdade e à avalanche de emoções, concepções, desconstruções e decepções que essa fase da vida acarreta. Para coroar o bolo com uma cereja, lidei com um heartbreak e precisei por um fim em um dos relacionamentos mais tóxicos que já vivi. Assim, acompanhar um dos atores que mais me marcaram falando sobre as dificuldades de lidar com a descoberta do Mal de Parkinson durante o auge de sua carreira e das mudanças que ocorreram em sua vida - pessoal e profissional - sem se entregar às bad vibes foi inspirador. Hoje sei que foi com essa leitura que compreendi aquele ditado (?) que diz que quando uma porta se fecha, outras se abrem. Foram palavras otimistas para dar início a um ano que me trouxe O mundo de sofia, On The Road e Bukowski. Analisando do futuro, foi um ano bem legal. Já estava acostumada com o ritmo da faculdade, já estava em #paz comigo, me divertia horrores com os migos e fui à uma quantidade obscena de shows de rock internacional. 2010, que ano bom. SDDS, 2010.

Aí, dei as boas-vindas à 2011 com O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde (a.k.a. autor que preciso conhecer mais). Respeitando a tradição de início de ano, estava no litoral e, entre mergulhos e sonecas, acompanhava a intensa e complexa história do jovem que vende sua alma em troca da juventude eterna. Irei poupá-los da rasgação de seda, apenas leiam este livro, por favor. Da mesma forma que as experiências vividas pelo protagonista da narrativa de Oscar Wilde oscilam entre agradáveis e o oposto disto, meu 2011 se revelou um ano agridoce. Foi durante este período que lidei com a primeira (?) e, possivelmente, pior crise de aNsIeDaDe de toda a minha existência. Contudo, concluí o ano com positividade e, novamente, na praia, onde iniciei meu contato com as histórias de Carlos Ruiz Zafón.

2012 também foi um ano bem legal e eu não poderia esperar menos de uma fase que tem início com A Sombra do Vento. O livro tem a sua quantidade de dor, violência, melancolia e muito sofrimento. Mas também consegue ser doce, divertido, assustador, mágico, envolvente e mais um monte de coisas que só livros realmente especiais podem ser. No livro da minha vida, escrevi os capítulos sobre ter 22 anos e comemorar meu aniversário com a casa cheia de amigos e familiares, fazer TCC, me formar na faculdade e, obviamente, não ter a menor ideia do que fazer depois disso. Mas, assim como acontece nas histórias de Zafón, foi em 2012 que meu avô sofreu um AVC e, consequentemente, mudanças do tipo doloroso começaram a ocorrer lentamente. Sem sombra de dúvidas, um ano agridoce.


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Em 2013 ~inaugurei~ uma nova etapa na minha Vida de Leitora™. Durante a faculdade, por mais que eu gostasse de ler e passasse boa parte do tempo fazendo isso, não era sempre uma atividade prazerosa, já que estava sempre relacionada a estudo, provas, trabalhos, obrigações, etc. (com a óbvia exceção de A sangue frio, do Truman Capote, que é um LIVRÃO DA PORRA e eu serei eternamente grata ao meu professor de Jornalismo Literário por ter exigido um seminário sobre a obra).  O tempo que sobrava para ~atividades recreativas~ não era muito e eu tinha que dividir entre assistir filmes e séries, sair com amigos e meu ex-namorado, ficar com a família e, claro, o mais importante de tudo: dormir. Ou seja, lia pouco por diversão. Mas, como ficou evidente pelos parágrafos anteriores, quantidade não é equivalente de qualidade e eu ficava feliz com aquilo que conseguia ler.

Porém, como ia dizendo, 2013 foi um ano ~decisivo~ na minha Vida de Leitora™, pois foi o ano em que 1) colei grau, 2) não sabia o que fazer da vida, pois happy-free-confused-and-lonely e, 3) como forma de ocupar o meu tempo e também de me ajudar a lidar com as ~crises~, criei um canal no YouTube para falar sobre livros e trocar impressões de leitura. O primeiro - e, felizmente, excluído - vídeo foi ao ar no dia 13 de janeiro de 2013 - completamos 4 anos há duas semanas! - e eu falei o que achei de Jane Eyre, de Charlotte Brontë, a primeira leitura do ano. Que livro! Tenho várias lembranças de tardes solitárias e de solitude lendo o clássico vitoriano que me apresentou a Mr. Rochester. (Acho que minha mãe e minha irmã estavam viajando? São questões). Ainda que o ano não tenha sido perfeito, fui bem feliz no departamento de leituras: As crônicas dos Kane, O Circo da Noite, O Diário de Anne Frank e O Palácio de Inverno.

Já 2014 não trouxe muitas crises e, de forma geral, foi um bom ano. Foi o período em que o canal mais ganhou inscritos e, sem sombra de dúvidas, este crescimento teve impacto na minha relação com os livros. Vieram as parcerias, a vontade de gravar vídeos todos os dias e também o desejo de comprar e ler todos os livros pelos quais me interessava. Comecei com O sobrinho do mago, lido durante uma maratona literária e que serviu como largada para o projeto (que nunca concluí) de ler As crônicas de Nárnia. O ano também me trouxe As virgens suicidas, Cidades de papel, A máquina do tempo - os três são livros favoritos -, Frankenstein e Eu sou Malala.

Depois veio o estranho 2015, que pode ser dividido em duas partes: antes e depois de agosto. A primeira parte foi ótima, comecei com Alta Fidelidade - que até hoje não sei direito até que ponto gostei - e terminei com O sol é para todos, um dos melhores daquele ano. Aí, veio agosto do desgosto e, tanto a vida, quando as leituras se transformaram em trens descarrilhados e só não digo que tudo foi decepção porque antes do fim teve Machado de Assis e A Guerra dos Tronos. Contudo, afirmo com 100% de certeza que foi neste momento que meu 2016 teve início. Isso mesmo, cinco meses antes do necessário.

Já que toquei no assunto, irei poupá-los de ler mais lamentos sobre 2016. Basta saber que foi um ano ruim - para todo mundo! - e que, obviamente, as leituras foram afetadas. O primeiro livro inteiramente lido no ano passado foi aquela bomba que atende pelo nome de A sereia e, como não poderia ser diferente, toda a jornada literária foi amaldiçoada. Hiperbólica que sou, neste texto opto por ignorar algumas leituras excelentes (que você pode conferir aqui) com o intuito de manter o tom dramático. Felizmente, já pulei as sete ondas, as páginas já foram viradas e um novo ano começou e, com ele, novas leituras.

E foi justamente a conclusão da primeira leitura de 2017 que serviu de insight para este textão. Minha escolha para iniciar o ano literário foi feita já em meados de dezembro e totalmente influenciada por seus últimos acontecimentos: Postcards from the Edge, de Carrie Fisher.
Minha intenção, era começar com Memórias da princesa, mas como já tinha o primeiro romance da autora na estante, optei por ele. Não sei se foi uma decisão sábia, já que não consigo me decidir sobre o que achei da leitura. Em partes, sinto que isso acontece porque a edição que tenho é da época de sua publicação e traz uma tradução ~duvidosa~ e que, com certeza, me impediu de imergir totalmente na experiência. Sério, os personagens bebem "Coca dietética". QUEM FALA ISSO? De qualquer forma, no meio do caminho, decidi visitar as baías piratas à procura de um e-book esperto em inglês. E foi assim que concluí a leitura. Acho que gostei, mas não sei se gostei porque o livro é bom ou se é porque foi escrito pela Carrie Fisher e traz um quê de autobiografia. São questões. E o que isso diz sobre o futuro das minhas aventuras literárias em 2017? Não faço a menor ideia. Por ora fico aqui, torcendo para que seja um bom presságio. Aguardemos.


2 Comentários

  1. Não cuido tanto assim a minha primeira leitura do ano porque parece que, ao contrário de ti, justamente os anos em que me programei pra ler algo legal foram os que as leituras foram todas blé, hahahaha

    Miga, fiquei tentando clicar nos links dos livros pra ler/ver resenha tua, mas kd? MIGA, COLOCA OS LIIIIIIIIINKS ♥

    E comassim coca dietética? SEN OR que tradução é essa?! Se bem que, no livro que tô lendo, coca-cola é descrita como "refrigerante marrom de cola". SERIOUSLY

    ;*

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    1. Hahahahaha, nossa, pior coisa é se preparar para a leitura e ela ser ruim, né? Mas acho que te entendo. Acontece que ano passado foi muito aleatório e, por isso, levei ainda mais a sério o negócio da primeira leitura. Por enquanto, tá tudo bem. Continuarei firma com a minha superstição.

      Miga, eu não coloquei links de resenhas minhas porque a maioria desses livros não tem resenhas minhas, hahaha. Aí, só coloquei links do Goodreads para as pessoas saberem de que livros estou falando. Mas vou mudar os links dos livros que tem resenha, ok? <3

      NOSSA, NEM ME FALA DESSA TRADUÇÃO HORROROSA! Coca dietética? QUE PÉSSIMO.
      Refrigerante marrom de cola é ruim também. Se não dá pra falar que refrigerante é, fala só que é refrigerante e pronto. STOP TRADUÇÕES RUINS.

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