Já começo o post de hoje com um pedido de desculpas por, justo no segundo dia de BEDA, chegar com uma notícia dessas, mas o quanto antes eu colocar a informação para fora, melhor. É certa a morte da Michas booktuber. Isso aí. Sem muita ~enrolação~ porque quando a gente arranca o band-aid rápido, dói menos. Faz mais de um ano que venho pensando sobre isso e se até agora não mudei de ideia, não creio que vá mudar mais. Pelo menos não tão cedo. A verdade é que eu finalmente admiti para mim algo que já vinha martelando na minha cabeça há bastante tempo: ter um canal no YouTube parou de fazer sentido para mim.

Quando eu comecei a fazer os vídeos, em janeiro de 2013, tinha acabado de me formar na faculdade de jornalismo, estava retomando o prazer pela leitura e, principalmente, buscava uma válvula de escape, algo que me distraísse do fato de que não poderia mais contar com a zona de conforto proporcionada pela vida universitária. Por meio de um comentário aqui no blog, fiquei sabendo do canal da Tati Feltrin e, como até então eu desconhecia completamente os conteúdos do YouTube que não fossem Felipes Netos da vida e videoclipes de banda, minha cabeça explodiu. Claro que explodiu. Jamais poderia ser diferente. A adolescente desajustada que sempre vai viver dentro de mim e que buscava conforto nas páginas dos livros havia, finalmente, encontrado a sua turma. Empolgada, desci para o play. E é inegável que foi incrível e a gente se divertiu muito.

Creio que todos nós, enquanto leitores, nos sentimos um tanto sozinhos em algum ponto de nossas jornadas. Penso, inclusive, que sou um pouco eufemista ao falar desse jeito, já que a leitura é uma atividade completamente solitária. Contudo é possível sim, por meio de uma comunidade literária, amenizar essa sensação. Apesar de cada um estabelecer sua própria relação com os livros, podemos aprender muito ao saber das relações dos outros com suas leituras. O diálogo e a troca de ideias é sempre algo gratificante e enriquecedor. E o booktube, de forma geral, é uma comunidade bastante acolhedora. Particularmente, sempre me senti à vontade por lá, como se estivesse mesmo rodeada por amigos. E sei que estava. É por isso que precisei escrever este texto.

Nos últimos quatro anos publiquei mais de 250 vídeos para compartilhar as minhas aventuras literárias. E, meus caros, elas foram muitas. Ainda que não me desse conta, cada uma dessas experiências me modificou como pessoa que lê, tanto por me tornar mais crítica e criteriosa, quanto por me tirar da minha zona de conforto. Aprendi muito como leitora, como comunicadora e como pessoa. O hábito de conversar com uma câmera começou, aos poucos, a ser incorporado à minha rotina e se transformou em algo orgânico. Sem perceber, o ~rótulo~ de booktuber se tornou parte essencial da minha identidade. E aí, um belo dia simplesmente parei de reconhecer a pessoa nos vídeos. Não é como se eu não concordasse com o que ela está falando, ou não enxergasse meu próprio rosto e não escutasse minha própria voz. Claro que aquela pessoa sou eu. A questão é que eu não sou mais aquela pessoa. Lembram daquela conversa sobre mudanças e como elas chegam de forma silenciosa, meio no desajuste e sem muitas explicações? Algo se modificou aqui dentro e aquilo que antes me era tão essencial deixou de ser.



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Faz pouco mais de um mês desde que publiquei o vídeo mais recente no canal, o último de uma tentativa mista de retomar o ritmo de ~produção de conteúdo~ e reviver alguma paixão. Foi um sucesso por seis semanas, nas quais consegui manter alguma regularidade. Analisando todos os vídeos que fiz em 2017, percebo que me diverti, me empolguei e logo depois me desinteressei. Também percebi que todo o processo de criação dos vídeos se tornou desconfortável e exaustivo, sempre precedido por uma verdadeira via sacra. Vocês entendem onde eu quero chegar? Só estava fazendo vídeos pela força do hábito, porque durante quatro anos eles fizeram parte da minha rotina e era mais fácil simplesmente ligar a câmera e gravar do que questionar a minha relutância em fazê-lo. Acho que a ficha começou a cair quando percebi que não estava lendo porque não queria ter que falar sobre minhas leituras. Como se a possibilidade de ler e guardar a experiência apenas para mim não existisse. Só que ela existe.

Em minha incerteza se iria ou não optar pela decisão que agora tomo, comecei a pensar nas razões que me faziam falar sobre livros e, principalmente, nas que me faziam publicar vídeos na internet. Me dei conta de que para as duas situações a conclusão é a mesma: conforto e segurança. Criar vídeos com conteúdo literário se tornou algo tão intrínseco à mim, algo que, pelo hábito, faço com tanta facilidade e sem muitos dilemas, que parar não me parece algo natural. É como se o simples pensamento de largar tudo revelasse algum tipo bug na minha configuração. E essa lógica é muito equivocada, já que me lembro de ter funcionado muito bem durante os dezesseis anos anteriores à criação do meu canal. Enquanto escrevo, as palavras da Anna Vitória (sempre tão querida, sempre tão maravilhosa) ecoam em minha memória e percebo que minhas tentativas de reviver as emoções inciadas no agora distante janeiro de 2013 nada mais são do que uma variante daqueles momentos de recaída quando a gente corre para os braços de um ex-namorado que era legal, mas que no fundo sabemos que hoje não passa de um caso de one-night stand. É familiar, é prazeroso, todo mundo fica feliz. Mas no fundo sabemos que não vai dar em nada. Como poderia, se os envolvidos não são mais aqueles que foram um dia?

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Quando volta para casa, depois de sua épica aventura e cheio de marcas indeléveis, Frodo Bolseiro pergunta como se retoma o curso de uma antiga vida? Como se segue em frente quando, no íntimo, começa-se a entender que não há volta? E tal qual o Portador do Anel, chego à conclusão de que às vezes, não se retoma e não se segue em frente. E é isso, sabe? O que resta agora é concluir a jornada e partir para as terras élficas, ou, no meu caso, virar a página e iniciar o próximo capítulo, repleto de novas aventuras. Não vou mentir, há um pouco de receio e não posso garantir que esta seja uma decisão definitiva, já que o futuro a mim não pertence e eu não faço a menor ideia do que será de todos nós amanhã. Acontece que as pessoas mudam e cada mudança traz, além do desajuste, algum aprendizado, algo que a gente pode utilizar e remodelar para se adequar à quem somos agora. Se os últimos quatro anos me ensinaram alguma coisa é que a internet é a minha casa, é onde eu me sinto mais confortável, não importa em qual quarto irei me hospedar. Gosto das possibilidades de conexão que o meio me proporciona - muitas vezes, mais intensas e reais do que aquelas do mundo offline - e não pretendo abandonar o barco em plena navegação.

Em outras palavras: embora declarada a morte da Michas Booktuber esteja, isso não quer dizer que todas as outras Michas não vivam. Sou, sempre fui e sempre serei uma pessoa comunicativa e comunicadora, que gosta de falar sobre aquilo que me interessa (livros inclusos!). Compartilhar opiniões e trocar ideias faz parte de mim e isso não vai mudar. O blog, que surgiu um pouco antes do canal, surpreendentemente, sobreviveu até aqui e, por enquanto, não imagino um momento futuro em que este espaço não seja parte essencial da minha vida. É aqui que pretendo dar vazão ao que resta daquele meu lado que fazia vídeos e que se manifesta em uma faceta anterior e muito maior: a da Michas Leitora. Ainda não sei o que será feito do canal, meu primeiro impulso é deixar todos os vídeos como privados, mas fico questionando se esta seria uma despedida justa. Vou me permitir pensar sobre o assunto antes de me decidir. Por enquanto, vou deixar tudo como está.

Apesar do uso da palavra "despedida" no parágrafo anterior, este não é um momento de adeus. Como disse, não sei o que o amanhã trará e gosto da possibilidade de deixar a porta meio aberta. Nunca se sabe. Por ora, fico apenas neste espaço aqui. E também em outros pontos desta vasta internet de todos nós, então se você 1) gostava do canal, de mim e das coisas que eu falo e/ou 2) acabou de chegar por causa do BEDA e não está entendendo nada, mas ainda assim gostou do blog, de mim e das coisas que eu falo, me procure lá no Twitter, a minha principal casa na world wide web, onde passo muito mais tempo do que deveria falando sobre tudo e sobre nada. Aos poucos, começo também a retomar o meu interesse pelo Instagram, onde apareço de vez em quando e até brinco um pouco de Stories. Por fim, tem também a Hello, Starshine, a minha newsletter que anda meio quietinha este ano, apesar de gostar bastante de chegar nas caixas de entrada de vocês. E se você estiver interessado especificamente naquilo que estou lendo, vale a pena me procurar lá no Goodreads. Às vezes, eu finjo que uso o Skoob também.

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Para aqueles que conheci por vídeos e pela seção de comentários, para aqueles que nunca se manifestaram, mas que sempre deixaram seus "likes" e também para aqueles que conheci, abracei e com quem troquei olhares nas Bienais, deixo o meu muito obrigada! Lembrar de tudo isso me arranca um enorme sorriso e aquece meu coração. Eu realmente acredito que a literatura tem o poder de mudar vidas e fico muito feliz e grata por ter tido a oportunidade de desempenhar algum papel no nascimento de novos leitores. Vou sempre recordar com muito carinho das mensagens de agradecimento que recebi de quem só precisava de um pouquinho de incentivo para se entregar completamente ao mundo dos livros. Sei também de pessoas que encontraram nos meus vídeos algum conforto durante momentos mais atribulados de suas vidas. Saibam que fazer esses vídeos e pensar em vocês que os acompanhavam também me confortou em momentos difíceis. Muito, muito, muito obrigada, amigos dos livros! I had the time of my life fighting dragons with you! 






6 Comentários

  1. Oi Michas!

    Fico realmente triste que decidiu parar de fazer vídeos, porque adorava te ouvir falar, do que fosse. Me agradava o fato de você estar ali conversando comigo sobre os livros e coisas que te fazem feliz. Por outro lado eu entendo completamente essa fase de não querer mais continuar com algo. Eu meio que estou assim também. Com características diferentes, mas a sensação é a mesma: não tá fazendo mais sentido. Ainda me decidirei o que fazer, por enquanto estamos só chateadas sem a sua presença por lá.
    Ainda bem que está mantendo o blog, porque é outra coisa sua que me conforta: seus textos. Além de achar que você escreve muito bem, há algo de familiar e amigo aqui no seu espaço. Também é uma forma de conversarmos...

    Acho que já chegamos a falar disso, mas é como o "vamos marcar", nunca acontece. Falamos que moramos na mesma cidade e nunca chegamos a nos encontrar... Eu sou péssima em contato com as pessoas, achava mais fácil de acompanhar só nas redes sociais, porém perder esse pequeno contato com você me deu uma coragenzinha de dizer: vamos nos falar mais? Eu tenho Whats App, óbvio que você também. Sei lá não quero perder o contato com pessoas legais e que valem a pena. Nesse mundo em que as pessoas são esquisitas demais, me identifico com poucas e acho que já não tô mais na idade de perder uma amizade dessas, sabe? Não sei se te interessa no nosso contato, mas não cista a gente tentar né? Bom, você respondendo esse comentário vou sabendo, hehe.

    Você me perguntou sobre o BEDA lá no meu blog e não sei se viu, mas respondi que não ia participar, mas que ia te acompanhar se você fizesse (e sabia que ia fazer, hehe), pois bem, estou aqui. ^^ Até pensei ontem em entrar nessa meio que de última hora, mas não deu certo. Estou passando pelos mesmos questionamentos que você com relação ao canal, e meio com o blog também, então vou passar, por não estar com essa vibe toda. Mas fico feliz em acompanhar quem está.

    Deixa eu encerrar por aqui, porque tenho a impressão que esse comentário deve estar gigante. Continuaremos conversando por internet a fora, e se minha proposta de contato mais íntimo te interessar, nos falaremos mais em breve também. :)

    Te desejo toda sorte do mundo no que você for fazer, e nos mantenha informados seja sobre o canal, ou sobre o blog. Porque a gente gosta muito de você e não queremos que suma do nada, né? haha

    Beijins! <3


    p.s: esse comentário deve estar meio sem sentido, perdão por isso, só que foi saindo da cabeça e precisava escrever logo, hehe.

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    1. Juli <3
      Bom, a gente já conversou sobre isso pelo Whatsapp, então você já sabe o que eu respondi, haha
      Mas como eu adorei demais esse comentário, precisei vir responder aqui também (com mais de um mês de atraso, bear with me).

      Nossa, o BEDA foi um pouco estressante para mim esse ano, tanto que não dei conta de todos os posts e nem de acompanhar todo mundo. Agora tô cheia de ~pendência~, mas isso é legal até. Tenho pautas para os próximos meses, além de um monte de post legal para ler :)

      Inclusive, adorei te acompanhar em agosto, mesmo que você não tenha participado do desafio.

      Sobre estar se questionando sobre o blog e o canal, eu te entendo muito. Principalmente com o YouTube. E se me permite um conselho: tire o tempo que for para se decidir e pense que nem tudo precisa ser definitivo. O importante é se divertir e não se forçar a fazer algo de que não está gostando. Se quiser conversar sobre isso, é só me chamar :)

      Beijos

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  2. Amiga, eu te conheci no BEDA do ano passado mesmo e nem sabia desse teu lado booktuber até uns 4 meses atrás. Quando descobri, fui assistir teus vídeos e gostei bastante. Mas tudo na vida tem seu tempo e, apesar de eu gostar dos teus vídeos, total apoio a tua decisão. A gente tem que fazer o que nos faz felizes, sem toda aquela pressão. Uma coisa meio Marie Kondo: isto me faz feliz? A vida já é pesada demais sem que a gente coloque mais pesos em cima das nossas costas.

    Mas no blog eu quero te ler, pois cê total é pessoa que escreve - e escreve bem.

    ;*

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    1. Amigaaaaaa <3

      Sabe que é desde o BEDA do ano passado - talvez até um pouco antes - que vinha pensando em parar com o YouTube? Pra você ver como pensei bastante mesmo antes de me decidir, hehe. E foi bem como Marie Kondo (que preciso ler, aliás) diz: não me faz feliz, então não preciso mais (ou algo do tipo, já que não li). Concordo muito com isso de que já temos peso demais na vida para querer complicar aquilo que não está aqui para ser complicado. E ninguém merece ficar fazendo algo de que não gosta, principalmente se não for uma obrigação. A vida é curta demais, precisamos aproveitar o tempo livre com aquilo que nos faz bem.
      Fico triste/feliz que você tenha gostado dos vídeos, pois amei gravar. Mas sim, tudo tem seu tempo. E o do meu lado booktuber acabou. #DRAMA

      Quanto ao blog, pode ficar tranquila que não vou parar. Posso até sumir por uns tempos (de preferência nada muito longo), mas sempre volto. Muito obrigada pelas palavras e pelo incentivo, Mia <3

      Beijos

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  3. "A adolescente desajustada que sempre vai viver dentro de mim e que buscava conforto nas páginas dos livros havia, finalmente, encontrado a sua turma." Me identifiquei aí e te entendi totalmente. Quando algo deixa de fazer sentido, não adianta insistir e temos que fazer o que nos fizer sentir melhor <3

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    1. Obrigada pela compreensão, Bruna. E concordo muito com você, quando algo para de fazer sentido, não dá para ficar insistindo, né? O importante é ficar feliz com o que a gente faz :)

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