Na natureza selvagem, de Jon Krakauer


Na natureza selvagem surgiu em decorrência de uma reportagem que o jornalista Jon Krakauer escreveu para a revista Outside em 1992. Em agosto daquele ano, um jovem foi encontrado morto no Alasca em circunstâncias que geraram muitas dúvidas, pois o corpo já estava em estado avançado de decomposição. Após uma análise de objetos que foram encontrados no local, foi possível identificar o jovem como Chris McCandless, de 24 anos, que estava desaparecido havia dois anos. A causa atribuída à sua morte é inanição. Jon Krakauer fez um trabalho de jornalismo investigativo para saber quem era Chris McCandless, o que ele estava fazendo no Alasca e o porquê de sua morte. Ele conta logo no início do livro que se sentiu tão conectado com a história que não conseguiu se desprender e, por isso, resolveu expandir o trabalho escrevendo Na natureza selvagem


Ao longo da leitura, ficamos sabendo que Chris McCandless vinha de uma família rica e que, apesar da criação privilegiada e de uma vida de com um padrão alto, era infeliz. Ele tinha questões internas conflitantes em relação à sua família e aos padrões impostos pela sociedade e, por isso, decidiu mudar de vida. Assim, após se formar na universidade, doar todo o seu dinheiro para caridade e destruir seus documentos, ele saiu em busca de seu "verdadeiro eu" sem dizer à ninguém quais eram os seus planos e para onde estava indo. Por meio de entrevistas de pessoas que cruzaram o seu caminho, Krakauer descobriu que Chris atravessou os Estados Unidos pedindo carona, vivendo como andarilho e se estabelecendo em algumas cidades, onde tina empregos temporários com o intuito de juntar dinheiro para se preparar para o seu maior desafio: o Alasca.

O livro é uma grande reportagem que mescla trechos de entrevistas, dos livros que McCandless levou consigo em sua jornada e também de seus diários. Por meio desses fragmentos, Jon Krakauer tenta explicar que, ao contrário do que se poderia imaginar, não havia nada de louco, suicida, inexperiente ou mimado em Chris McCandless e, para isso, aborda o fascínio de algumas pessoas pela natureza, contando histórias de outros aventureiros e compartilhando as suas próprias experiências. 

Mais para o final do livro, o autor começa a especular sobre os últimos dias de vida de Chris, tendo como base o seu diário. As anotações já não estavam muito consistentes, porém indicavam que ele tinha sim a intenção de voltar a viver em sociedade. Krakauer debate algumas teorias sobre a morte de McCandless e defende a que acha mais plausível, mesmo que nada tenha sido provado e, portanto, ainda existam muitas incertezas acerca do caso.

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Além de contar a história de Chris McCandless, o livro proporciona algumas reflexões. A primeira delas diz respeito a maneira como vivemos nossas vidas: vivemos nossas vidas como queremos ou de acordo com o que os outros querem? As nossas escolhas são, de fato, nossas ou são escolhas feitas padrões impostos pela sociedade? Nós somos realmente livres? Somos livres para sermos quem realmente somos? 

Há também a ideia de solitude em contraste com a maneira como o "estar sozinho" é sempre abordado de forma negativa e pelo viés da solidão, como se fosse algo muito triste. A leitura nos faz perceber que é possível viver momentos de felicidade em nossa própria companhia e sem depender de outras pessoas. Pelo livro, é possível perceber que McCandless chegou à mesma conclusão, mesmo que para tal, tenha sido necessário passar por uma experiência extrema de autoconhecimento na natureza. Afinal, quando estamos em nossa própria companhia, conseguimos escutar os nossos próprios pensamentos e, consequentemente, nos conhecemos um pouco melhor. 

Outra questão que não dá para deixar de fora é a questão do materialismo. Chris McCandless, ao romper com a sociedade, rompe também com um estilo de vida materialista no qual vivia até então. E isso nos faz questionar até que ponto precisamos ter coisas para sermos felizes. É claro que na sociedade capitalista da qual fazemos parte, precisamos ser um pouco materialistas, até por uma questão de sobrevivência, mas qual é o peso que você vai dar para isso em sua vida? Quais são as suas prioridades? O livro também vai te fazer pensar sobre isso. 

Por fim, a questão que será levantada o tempo todo durante a leitura: seria Cris McCandless um cara inconsequente e egoísta? Ou extremamente corajoso? Jon Krakauer diz que não é possível classificar McCandless - ou qualquer pessoa - em apenas duas categorias, pois pessoas são muito mais complexas do que isso. A impressão que fica depois da leitura é a de que ele era um pouco dos dois. Houve sim muita ingenuidade da parte dele, pois poderia ter passado pela experiência de uma forma mais segura e responsável, levando em consideração o impacto que suas escolhas teriam nas vidas de pessoas próximas. Por outro lado, não dá para dizer que não houve coragem em sua decisão. Tanto por abandonar um estilo de vida com o qual não concordava e não lhe trazia felicidade, quanto para, de fato, encarar a natureza inclemente, extrema e selvagem do Alasca.

Um ponto que Jon Krakauer destaca ao falar daqueles que criticam veementemente Chris McCandless de forma negativa é o fato de que ele sobreviveu sozinho por quatro meses no Alasca, coisa que não aconteceria à uma pessoa completamente despreparada. E é nesse ponto que o leitor se dá conta do quanto essa história é trágica, pois ele chegou muito perto de ser bem sucedido; e nos questionamos o que teria acontecido, caso tivesse sobrevivido; em que pessoa teria se transformado. Ele viveu uma aventura para tentar se descobrir e, ao que tudo indica, conseguiu - mesmo que não tenha tido a oportunidade de ser essa pessoa. 

Apesar de ser uma leitura muito triste, recomendo à todos os que gostam de pensar um pouco sobre a vida e sobre como escolhemos vivê-la.


Você está errado se acha que a alegria emana somente ou principalmente das relações humanas. Deus a distribuiu em toda a nossa volta. Está em tudo e em qualquer coisa que possamos experimentar. Só temos de ter a coragem de dar as costas para nosso estilo de vida habitual e nos comprometer com um modo de viver não convencional. (Chris McCandless)


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