A filha perdida, de Elena Ferrante


Sobre o que é?
Leda, uma professora universitária que, aos 47 anos e aliviada por suas filhas já serem adultas, decide tirar férias no litoral da Itália. Lá ela acaba acaba se fascinando por uma grande família napolitana, especialmente por Nina, uma jovem mãe, e sua filha. Ao passar dias observando as interações dessas pessoas, ela reflete sobre sua vida e suas escolhas, e pela primeira vez se sente livre.


O que eu mais gostei?
Em primeiro lugar, sem sombra de dúvidas, a escrita bastante fluida de Elena Ferrante. Sem me dar conta, estava completamente envolvida pela história e bastante curiosa para saber qual seria o desenrolar dos acontecimentos. Ainda que seja uma escrita que considerei bem descritiva em alguns momentos, não se torna algo enfadonho que deixa o leitor cansado. 

Também gostei de como a autora apresenta um outro olhar a respeito da maternidade. Um olhar com o qual não estamos muito acostumados a esbarrar pela literatura e que mostra o lado "feio" e que parece sempre ser escondido e pouco comentado. Leda, apesar de amar suas filhas, não gosta de ser mãe e de como a sociedade impõe esse papel às mulheres. O livro nos faz perceber o quanto a maternidade ainda é algo sobre o qual pouco se fala de forma completamente aberta, revelando todos os seus aspectos positivos e negativos. Gostei de como a autora chama atenção para o fato de que a partir do momento que uma mulher se torna mãe, a percepção geral - e completamente errônea - é a de que esta é a sua única função e que todo e qualquer interesse e anseio que ela possa ter tido até então deixa de existir. Em outras palavras, a sociedade anula a mulher quando esta se torna mãe.

O fato de a protagonista não ser necessariamente uma pessoa agradável também merece destaque. Leda não se arrepende de suas escolhas e de atitudes vistas pela maioria como questionáveis. Ela tem certeza de quem é o do que quer e não irá se desculpar por isso. Como disse, pode parecer bastante desagradável e egoísta, mas gosto do caráter transgressor e - por que não? - empoderador que esse comportamento confere à personagem.

O que pode ser motivo para não gostar?
A sensação de ler páginas e mais páginas com muitas palavras e pouca coisa dita. Elena Ferrante toca em questões importantes, bastante válidas e muito importantes para a realidade feminina. Porém, todo o fluxo de consciência de Leda se torna bastante repetitivo depois de um tempo e isso me fez perder o interesse pela leitura. Sinceramente, fiquei surpresa por isso ter acontecido, já que o livro é, na verdade, uma novela e não tem nem 200 páginas. Também fiquei com a sensação de que a narrativa construiu um suspense - possivelmente com algum simbolismo que permaneceu oculto para mim - que no fim, não levou à nada e, de certa forma, não teve utilidade alguma. 

Em um âmbito mais pessoal, ainda que o livro aborde um tema relevante, para mim a novidade foi nula e a sensação foi a de encontrar mais do mesmo. É possível que essa sensação tenha menos a ver com o livro e mais a ver com a expectativa geral criada por conta da repercussão das obras da autora pela internet. Talvez eu tenha exagerado em minha vontade de amar Elena Ferrante e, por isso, quebrei a cara. Sigo sem entender o hype - que, aliás, é mais um motivo para não gostar, já que expectativas estragam praticamente tudo.

Recomendo para quem?
Pessoas que tenham muito interesse em Elena Ferrante, pessoas que busquem um olhar diferente do convencional a respeito da maternidade e pessoas que gostem de narrativas envolventes.

Eu as amava demais e achava que o amor por elas impedia que eu me tornasse eu mesma.


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