Música para camaleões, de Truman Capote


Publicado em 1980, Música para camaleões foi o último trabalho concluído por Truman Capote. Logo no prefácio, o autor explica que a obra surge como resultado de um longo período de inatividade, ou quase isso, que se seguiu após a publicação de A Sangue Frio (1966), marco do jornalismo literário. Após o estrondoso sucesso de seu romance de não ficção, Capote dedicou os anos seguintes à revisitar textos arquivados com o intuito de utilizá-los em sua próxima obra, ao mesmo tempo em que publicou alguns textos em veículos de comunicação. Contudo, devido ao que ele denomina crises criativas e pessoais, pausou a produção de Súplicas Atendidas (obra que permaneceu inacabada e foi publicada postumamente em 1986) e passou a se dedicar ao que viria a se tornar Música para camaleões.


Dividido em três partes, o livro reúne textos com características do gênero romance de não ficção, pelo qual o autor já se tornara conhecido e traz como diferencial o fato de que ele passou a se inserir na narrativa.

Agora, porém, eu me postava no centro do palco, e reconstituía, com rigor e minúcia, conversas corriqueiras travadas com pessoas do cotidiano (...). Depois de escrever centenas de páginas desse tipo de coisa bem simplória, acabei desenvolvendo um estilo. Tinha encontrado uma estrutura básica em que eu poderia incorporar tudo que sabia sobre a arte de escrever.
(Pág. 17)

A primeira parte, intitulada Música para camaleões, traz seis textos breves que são relatos de encontros e situações corriqueiras - porém com um 'quê' de fabulosas, já que Truman Capote era bem relacionado - vividos pelo autor. De forma geral, o que nos fascina nesses textos é a maneira como ele discorre sobre situações banais e que, aparentemente, não trazem nada de muito interessante. Capote dominava a arte da escrita e o fazia de forma primorosa.  Desta parte, gostei principalmente do texto Uma luz na janela, na qual o autor conta uma experiência que viveu após descer de um carro no meio da estrada durante uma madrugada e precisar contar com a hospitalidade de uma senhora muito simpática que o acolhe em sua casa. Tudo flui como se imagina, até que o desfecho traz uma reviravolta.

Já  a segunda parte, que ficou conhecida como Caixões entalhados à mão, é uma novela que o próprio autor chamou de "um relato de não ficção de um crime americano". Aqui temos uma situação semelhante à de A Sangue Frio, na qual Truman Capote viajou para uma cidade pequena localizada no Oeste dos Estados Unidos com o intuito de acompanhar a investigação de uma série de assassinatos esquisitos e que parecem estar conectados. Particularmente, é a parte de que menos gostei no livro e, sinceramente, não sei até que ponto sinto que valeu a pena ter lido. Meu problema com a novela é que ela assume uns aspectos tão absurdos que só resta ao leitor questionar se o que está relatado ali é não ficção ou apenas ficção. Basta uma pesquisa no Google para perceber que Truman Capote aderiu à criatividade durante a criação deste texto. E tudo bem, acho. A questão é que achei o texto longo e, aos poucos, comecei a perder o interesse pela investigação e por seu desfecho.

Por fim, Relatos por conversação, a terceira parte, vai trazer justamente isso. Ao todo são sete textos, nos quais Capote reproduz diálogos que travou com algumas pessoas. Creio que aqui se encontram os meus textos preferidos de todo o livro: Jardins Ocultos - onde ele retorna à New Orleans, sua cidade natal, e nos sentimos transportados para lá por meio de suas descrições e das conversas que tem com alguns residentes -, E então tudo veio abaixo - no qual ele conversa com Robert Beausoleil, um dos membros do culto de Charles Manson e considerado pelo autor como a chave para compreender o que levou aos crimes cometidos pela "família" - e Uma criança linda - que tem início em funeral em que o autor tem como companhia Marilyn Monroe. Neste último, gostei principalmente da maneira como ele tenta humanizar a atriz, mostrando um lado diferente daquele da femme fatale, do sex symbol e do infeliz esterótipo de "loira burra" perpetuado em muitos de seus filmes.

De forma geral, gostei da leitura de Música para camaleões. Por se tratar de uma coletânea de textos, é complicado formar uma opinião completa sobre o livro, tendo em vista que gostei muito de alguns textos e bem pouco de outros. Ainda assim, considero a leitura válida, principalmente por considerar Truman Capote um excelente escritor, capaz de envolver o leitor com suas palavras. Leitura recomendada!

Então, um belo dia comecei a escrever, sem saber que me acorrentara para o resto da vida a um amo nobre, mas impiedoso. Deus, quando nos dá um talento, também nos entrega um chicote, a ser usado especialmente na autoflagelação.
(Pág. 9)



★★★★

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